Em Pedras e Sonhos, a El Efecto retorna com novas influências sonoras e mais sátiras sociais...

por - 11:08


A El Efecto é um quinteto carioca que teve início a dez anos atrás. Conheci o grupo em 2004, através de um programa que passava na Tve Brasil/Cultura no Recife. Achei a mistura sonora e a energia da banda muito boa e as tiradas satíricas nos refrões bem fodas. Fui até o site e fiquei ainda mais convencido que o grupo era massa quando vi o passo a passo para que qualquer um possa piratear o primeiro disco deles, “Como Toda e Qualquer Coisa” (isso lá em 2004). Desde então tenho acompanhado os caras nas redes sociais (mesmo que os integrantes não façam parte de alguns deles, vide comuna do Orkut) e também nos sites, vendo as discussões nos fóruns e recebendo atualizações por email.


A diversidade sonora sempre foi uma característica marcante na banda, isso e as ótimas sátiras e críticas contidas nas letras do grupo e no nome das músicas. Seja zoando argentino (e o tango), seja falando de desigualdade ou relacionamentos inventados. Em “Cidade das Almas Adormecidas” (segundo disco, de 2008), a ambas as características estavam presentes, falando na sonoridade, era perceptível as diversas influências nos integrantes, mas estava claro que se tratava de uma banda de rock. Quatro anos depois, o grupo ressurge com um novo trabalho e, ao que parece, uma nova característica sonora.



Pedras e Sonhos, novo disco da El Efecto, apresenta nove faixas, com ótimos nomes e letras com um conteúdo atual. Porém, logo na primeira música O encontro de Lampião com Eike Batista é perceptível uma modificação na sonoridade. O som é uma fábula moderna sobre o caráter, usando como personagem principal o nordestino Lampião e a sonoridade me remete a Alceu Valença em início de carreira e conhecendo a boa fase do Planet (talvez?). Foi a primeira música lançada do disco (veja o clipe acima). Em Pedras e Sonhos, canção que dá nome ao disco, aquela sonoridade mais dançante e pop continua, inclusive caindo muito pra um clima meio gafieira(?). A letra é bem negativa, mas com um ritmo bastante positivo, e tem uma percussão muito boa. Fala sobre a ausência de verdade e liberdade (ou quanto isso é necessario).



Adeus Adeus, faixa três do disco, é uma música gospel bastante bonita e calorosa. Com uma melodia doce que descai pra um swingue negão do soul, típico daquelas igrejas americanas. A última parte é bem clara com o que se está querendo dizer: “Daqui pra frente é tudo com a gente. Então que seja o que a gente quiser. Será que é pecado crer que é na gente que a gente deve crer?”. Já Cantiga de ninar tem um nome simples e autoexplicativo, com referências diretas a figura da infância de todos e os medos postos para manipulação, tal qual o Boi da Cara Preta, a Cuca e o Lobo Mau.



As faixas Prelúdio em HD e N’aghadê versam sobre o mesmo tema principal, mas com sonoridades e jeitos diferentes nas letras. O prelúdio é como se fosse uma cantiga que remete a escravidão do povo pela televisão, já N’aghadê tem uma melodia incrível, típicas de bandas que não tocam rock. A letra é bem direta em algumas partes: “Bate palma pra humilhação em alta definição (ou confunde herói com vilão)”. Me remeteu a nação com “Como pode a propaganda ser a alma do negócio, se esse negócio de grana não tem alma”, porque é exatamente isso que eles querem dizer, com um pouco mais de sátira. No final das contas é uma bela macumba de uma banda macabra, cheia de referências tanto na melodia quanto na letra, totalmente ligadas ao mundo televisivo.



Eis que reaparece a música A Caça que se Apaixonou pelo Caçador, do primeiro registro lançado pelo grupo, com uma nova masterização e/ou gravação. Ficam mais claras algumas guitarras na intro, na real, todos os instrumentos e vozes se tornaram mais presentes e nítidos. Confesso que não entendi porquê a banda fez isso, mas é uma das músicas mais nonsenses e divertidas que eles já produziram, então eu curti. Também não entendi porquê Os Seres e Ciranda não entraram nesse disco, são boas músicas e mereciam estar num disco cheio e não apenas no EP no qual saíram.



Em Consagração da Primavera, conhecemos um lado meigo da El Efecto. Uma melodia doce, com instrumentos que parecem violinos, típico de filmes como Noviça Rebelde, vozes que cantam em crescente, tal qual uma interpretação teatral. Termina com uma poeminha bem bonito (ou não) sobre a estação das flores: “E do ápice da máxima altura, conhecerás o beijo gelado do nada. A sentença da queda livre rumo ao bruto tombo que consagrará a tua destruição. E com os teus cacos brincaremos, e sobre os teus escombros dançaremos. Por fim, a primavera.”. Fechando o disco, uma canção bem El Efecto 'way of life', recheada de trocadilhos, indiretas, guitarras e gritos. Os Assaltimbancos, como o nome já diz, fala sobre esses animais que nos roubam diariamente e que obedecemos como belos cordeirinhos. A banda extrapola sua vontade de mudança, nas ações do dia a dia, nos meios de vida ao qual estamos expostos e alimentamos diariamente, mesmo que sem pensar, apenas por nossa omissão.



No final, Pedras e Sonhos deixa claro o que ele significa. A vontade de gritar, se expôr, colocar para fora as angústias de um grupo de indivíduos que junto dão força e nome a El Efecto. O disco como um todo soa como trilha sonora para um espetáculo, não apenas cultural, bonito de se ver, presenciar e aplaudir, mas também na mudança do modo de pensar. E só pela critica (cada vez mais extinta nas bandas que aparecem e ganham notoriedade neste Brasil), vale ser ouvido e apreciado com bastante atenção. É legal se ligar nas datas da agenda da banda. No próximo final de semana tem shows de lançamento do disco em cidades cariocas e já constam no calendário dos caras shows em Minas Gerais também. Tô no aguardo da banda finalmente fazer uma tour pelo Brasil.

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