Lao Tsé diz: "Desencana"

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Statue_of_Lao_Tzu_in_Quanzhou


Outro dia estava no caixa do restaurante, com o cartão já na mão, esperando pra pagar, e me virei e vi esse velhinho, com seus lá 80 anos, curvado sobre o prato de comida, a cabeça de cabelos ralos, compridos, mal cobrindo o coro cabeludo, distribuídos numa coloração estranha, como um bolo Pullman, preto aqui, branco mais embaixo, aí eu percebi: a porra do velho pintava aquela merda de cabelo. Divaguei um pouco sobre a vida e prioridades. E aquele velho estava mal nas duas. Por que aquele velho do caralho pintava o cabelo? Desde quando ele pintava? Até quando ele pintaria? Seria preciso ficar totalmente careca pra parar de passar nugget na cabeça?


Mas que caralho, porra! O problema é não ter cabelo! Ter cabelo branco tanto faz, foda-se, é charmoso se pá. Mas, pior do que isso: pior que ter cabelo branco ou ficar careca é ficar velho! E ele ali, remexendo vagarosamente o arroz e feijão com as mãos frágeis, insistia naquela farsa aberta, da qual ele era o único prejudicado. Ele e eu, porque fiquei bem puto com o velho.
Enfim, foda-se o velho


O corpo, como qualquer outra coisa, degenera. Perde o viço, o brilho, esfarela e vai. Chega uma hora que começamos a entender e aceitar a efemeridade da vida, mas uma de suas manifestações é particularmente difícil de admitir: ficar careca.


A pior careca é aquela disfarçada no cabelo ralo. Aquela coisa frágil, ridícula, aquela tentativa desesperada de encobrir a verdade. É essa investida vã e patética contra a natureza, que provoca arrepios e dó em quem vê.


Claro que não podemos nos submeter às injustiças do homem, mas a vida... A vida demanda aceitação.


Lao Tse diz: "Desencana".


Fui ao Shopping Paulista outro dia procurar um presente e não conseguia me concentrar, de tanta bundinha bonita tem naquele lugar. Bundinhas bonitas, sim, muito bem tratadas, bundinhas que estudaram em escola particular e tomavam café da manhã todo dia. Sim, bundinhas lindas, de família, acostumadas a tomar sol no litoral norte, deitadinhas à beira da piscina. Sim, bundinhas lindas.


Eu perdia o foco e vagava sem propósito, induzido aqui ou ali como um cachorro sem dono. Voltei à consciência e estava andando bravo em direção a uma vitrine quando vi subindo pelos vidros, a 45 graus, a cabeça delicada de uma menina ruiva de cabelos ondulados e ela mantinha os olhos fixos nos meus, aquele nariz afilado, o rosto todo agradável, desviei o olhar e segui puto pra loja e depois da pilastra voltei a olhá-la e ela continuava e eu então desviei de novo, parei em frente e fiquei olhando camisas polo que não valiam tudo aquilo até que ela contornasse as escadas e seguisse seu caminho, então eu me virei e olhei, ela tinha uma bunda muito simpática, vou ser sincero, e era uma bunda grande também, então deixei que ela ganhasse uns metros de vantagem e entrei na loja, mas não tinha merda nenhuma que prestasse naquela porra, saí e fui atrás da bunda. Fui atrás mas não a encontrei, ela levou a melhor e me perdeu. Zanzei.


Ali depois me lembrei da bunda e decidi fazer outra busca pelo shopping, desci todos os andares e encontrei-a na fila da farmácia, de fone de ouvido e tudo. Pensei em entrar na farmácia ― não, a fila tava grande; pensei em esperar bem na porta ― não, a perseguição ficaria muito na cara. Pelos fones de ouvido deduzi que ela estava sem carro, e aquele andar não dava pra rua: ela teria de subir um lance e escadas ― essas escadas que ficam em frente à farmácia. Beleza, combinado. Subi as escadas e fiquei na vitrine logo em frente, olhando a camisa do Timão pelo vidro, e ela não aparecia, nada de aparecer.


Dei voltas, sempre com um olho na escada que sobe, mas nada. Porra, será que deu pau no cartão? Desci em seu resgate, mas ela não estava mais lá. Percorri todo o andar e nada da menina. Provavelmente fez o caminho lá por baixo e subiu em outra escada, dando o drible mais óbvio que eu, em minha obsessão, não pude prever. Subi novamente pro térreo e dei de encontro com uma família que eu conhecia, mas tinha esquecido.


Marido, mulher e filha, que moravam no mesmo andar que eu num hotel ali por perto. Eu morava provisoriamente, mas eles estavam realmente instalados naquele quarto de frente pro elevador. Sempre pegava o elevador junto com a família, sempre uma experiência horrível, que me pesava, não pela menina, nem pela mulher. Uma vez, a porta deles se abriu bem quando eu cruzava o corredor e, de canto de olho, vi ali o quarto deles, entulhado de coisas, caixas, brinquedos. Aquelas pessoas moravam ali, realmente.


E no shopping eram os mesmos três, a mesma família, como se nada tivesse mudado, provavelmente indo dali pro hotel, praquele quarto cheio de coisas, as duas guiadas pelas mãos escuras daquele homem estranho. A camisa amarela, eu tinha certeza ser a mesma que ele usava nas intermináveis viagens de elevador, gasta, cansada, imobilizada pelo tempo, a barba que crescia como que indiscriminadamente como um carpete gasto sobre o rosto esburacado e, pior de tudo, aquele emaranhado de fios pretos, naturais, sintéticos, presos num rabinho na base da nuca, espalhado pela cabeça como uma teia de aranha mal feita, que não vem nem vai pra lugar nenhum, deixando entrever pedaços de couro cabeludo, do maldito coro cabeludo daquele cara que ia, seguia, cabeça erguida fingindo confiança, levando as duas pela mão. Caralho.

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