Mente vazia num ônibus lotado: Amor de busão

por - 14:08

cronica de busão


Era uma quinta feira, seis da tarde. Surpreendentemente, o ônibus não estava lotado como sempre fica, mas ainda assim estava bem cheio. Nessa ocasião, o melhor a se fazer é caçar o lugar vazio e forjar um coma induzido se necessário. Se tratando de um ônibus cheio a esse horário e neste dia da semana, é muito fácil ver gente cansada, judiada pela vida, suada e nada gentil sentada nos bancos, porém, só pra contrariar as leis da natureza e até mesmo a de Murphy, o único acento disponível era ao lado de uma mulher. E que mulher. Não tinha atributos avantajados, mas é daquelas que me faz suspirar. Óculos enormes, cabelo ensebado, uma bela camisa do Oasis e um livro de Dan Brown nas mãos. Nem tudo é perfeito. Sentei-me timidamente, pedindo licença antes. Ela cagou duas bolas para o que eu disse e continuou lendo como se aquele fosse o livro mais interessante do universo. Assim seu senso de humor havia me conquistado por completo. Não sabia seu nome, endereço, telefone, nem ao menos ouvi sua voz.


No dia seguinte não a encontrei. E fiz questão de pegar o mesmo ônibus, no mesmo horário. Ao invés disso, achei o dobro de gente dentro de um mesmo espaço. Fui de pé a viagem inteira, com um tremendo ódio da vida. Não era culpa de ninguém, claro, mas isso não abarcava minha frustração em ter dado uma chance ao acaso. Alias, agradeço eternamente a todos os filmes, contos, peças de teatro e filhos da puta que contam histórias parecidas e que dão certo. Era até bizarro pensar que havia baseado minhas esperanças em algo tão frívolo e sem compromisso com a verdade. Havia tomado uma decisão: Só ia dar atenção a filmes nacionais daqui pra frente. Não os produzidos pela Globo, com a Xuxa no elenco, mas àqueles onde o Selton Mello cheira a bunda de alguém e toma um tiro no final porque gostava de ser esquisito. As chances de aprender algo com um erro ficam maiores. Sem contar que ele pode ver uma bunda de perto descaradamente (e artisticamente) sem precisar disfarçar.




[caption id="attachment_17490" align="aligncenter" width="382"]cronica de busão assim são as bundas de busão no mundo real[/caption]

Alguns dias se passaram e eu a encontrei de novo em um ônibus diferente. Estava chovendo. Com o cabelo levemente molhado e os óculos de tela plana LCD chuviscados, desta vez ela não lia nada. Parecia um rato, mas o rato mais sensual que eu já tinha visto. Sentei-me ao lado dela, novamente usando o que mamãe ensinou há tempos, as palavrinhas mágicas da educação. Surpreendentemente ela respondeu. Sua voz era um misto de Mallu Magalhães sem o QI negativo e um ursinho carinhoso. Senti uma brisa de hortelã no ar. De início achei que era o hálito dela, mas na verdade era o de um spray contra dores musculares de um cara da frente. Após ter feito um primeiro contato, tentei uma abordagem. Pensei em citar a outra vez que a vi, lendo um livro possivelmente horroroso e com uma camisa de banda dos anos 90, mas achei que ela pudesse pensar que eu era um maníaco. Ninguém entende amor à primeira vista simplesmente como amor. Sempre tem um fundo de fetichismo ou de tarado sexual, tipo aqueles caras que se masturbam em público nas rodoviárias. Todos clamam uma sociedade mais amorosa, mas poucos entendem o amor em suas formas mais... excêntricas.


Depois deste dia, encontrei mais duas vezes com ela. Numa vez, ela usava uma camisa justa do Sonic Youth e os piores fones de ouvido do universo. Digo isso porque o som vazava muito. Pensei em cantar junto as músicas do Los Hermanos que ela estava ouvindo, só pra enturmar, mas pensei o quanto isso pareceria ainda mais doentio da minha parte. Marcelo Camelo se deu bem pegando a novinha, mas um raio não cai duas vezes seguidas no mesmo lugar. Na última vez, a vi feliz, sorridente e falante. Até ignorei o fato de ela estar com uma camisa do Strokes. Era muito amor. E que foi direto pro saco de salgadinho do garotão que esqueceu que ia comer um forte e com cheiro de vagina no meio de um ônibus lotado. Enquanto sentia o cheiro da derrota, ela ria e beijava o namorado igualmente alternativo, que me olhava e ria ao ver que os farelos do salgado estavam indo direto para a minha mochila, que estava entre minhas pernas enquanto me segurava de pé no busão. Amor de busão é assim mesmo. Fico no aguardo do próximo.


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