O Sal Grosso do Lupe de Lupe

por - 11:08

Lupe de Lupe - Sal Grosso


A Lupe de Lupe é uma banda mineira que lançou em 2012 seu primeiro álbum, Sal Grosso, que como explicou o Vitor Brauer “é uma espécie de sal grosso pra gente, uma forma de lavar a alma”. O som dos mineiros beira o que eles chamam de noise-pop e porra, você deve ter lido a nossa resenha do primeiro EP deles, Recreio, que foi uma das melhores surpresas de 2011.


Sal Grosso me surpreendeu não como Recreio, mas conseguiu me tirar suspiros (e belos) enquanto escutava o álbum, que saiu tem muito tempo e por várias razões só está sendo resenhado agora, e claro, eu não devo satisfações a vocês (risos).


O álbum começa com a faixa Enquanto Pensa o Futuro, com uma guitarrinha sendo tocada de um modo gostoso pra caralho e todo aquele noise estourando, enquanto o vocal canta versos como “E ficar mergulhada nesse poço de vocês / Sem querer é/ condenada a perder mais uma vez / Mas existe um país, existe um lugar / Existe uma rua, existe uma casa / Existe uma luz que não se apaga”. Uma bela faixa de abertura, com certeza.


Na sequência Tédio Bom, essa com bem menos barulho no começo, depois, aos poucos, alguns ruídos vão surgindo e apenas em seu fim que há uma agitação da porra. A terceira música O Sorriso de Check Baker, leva em seu título o nome do grande trompetista, que morreu de modo misterioso em 1988 (ninguém sabe se o cara se matou ou se foi um acidente). A música é tão calma, que por vezes, se não fosse a voz do Vitor – que também escreveu a faixa -, você até se perguntaria se isso é mesmo Lupe de Lupe.



Às Vezes é uma faixa conhecida do público: foi lançada em 2011 e em três coletâneas do Hominis Canidae. A versão presente no disco é diferente da outra e conta com um sample de um episódio do anime Yu Yu Hakusho: Hohoemi no Bakudan (se você nasceu entre 86 e 94 e não assistiu isso, és um bundão). A letra dessa música foi escrita por Renan e contém a poesia característica do trabalho anterior dos mineiros: “No seu peito oco sempre guardo / Os sonhos que pedi / A Deus, meu pai, minha filha aguenta / Construo um mundo de retalhos / Remendo os que mantive / Com honra e fria vou me embora / Sem nem me despedir / Eu não me precavi / Com uma recaída nessa hora / Só vou admitir / Que não quero sair não”. E foi inevitável colocar um pedaço enorme, é que realmente, é uma das mais belas canções do disco.


A quinta faixa, Há Algo de Podre no Reino de Minas Gerais, também já é manjada pelo pessoal e acabou gerando uma certa polêmica: Vitor escreveu sobre a cena, falou que lá tá uma merda e que tem bastante indie tanga frouxa. O instrumental é o clássico do grupo, o bom e velho ‘noise-pop’ e os versos, bem, vejam por você mesmo: “Aqui as pessoas cantam Belchior / Na maior altura e ainda gritam que "o novo sempre vem" / Sendo que eles querem é te adaptar / O que eles querem é que você seja mediano / Então saia do meu caminho / Pois já é tarde pra mudar / Já perdi tantos amores e amizades / Só por quem eu sou, ou por escolhas que somente eu fiz / Que meu coração está sempre em desalinho / E, às vezes, por um triz / Eu toco alto, falo alto, bebo, grito e choro / E meu coração não é mediano e nem é mineiro / Mas talvez por sonhar demais / Meu coração seja Minas Gerais”.



Eu Nunca Fui Ninguém teve a participação do Corpo Baile, com 9 guitarras de músicos que foram a banda de Belo Horizonte. Tá bom pra você? Por incrível que pareça, a quantidade de instrumentos não deixou a música numa releitura do “Sonic Youth, Merzbow & Matt Gustafsson”, fez a parada ficar até mais pop. A faixa tem só uma parada falada: “Eu nunca fui ninguém”. De resto, é instrumental, seis minutos e quarenta e nove segundos de variações entre uma pitada de noise e outra de pop. No final da faixa, há um ruído com Ave Maria, que segundo Vitor “um pedal que captava a onda de rádio que pegou, foi uma cagada linda”.


Eu via Pavimento como alguma relação a banda de indie-rock/lo-fi Pavement (que é melhor que o Smashing Pumpkins). Mas não é bem assim. Ela é dócil, escrita pelo Vitor, que fã de rap que é, usou alguns elementos do gênero na letra como gírias e expressões do tipo “cola comigo”: “Mas só Deus sabe o quanto eu sentiria a falta do seu sorriso / E eu não vou te culpar se algum dia você resolver me deixar / Pois quem cola comigo, cola comigo / Já nasceu fadado a não ganhar”. A parte instrumental se mantém praticamente estável, quase no final da faixa que há uma barulheira, mas nada demais, se comparado com o restante do álbum até aqui.


lupe de lupe


Alameda das Orquídeas, a oitava de Sal Grosso, é a harmonia entre uma bela letra, uma base noise e o vocal tentando se sobressair as guitarras: praticamente o show dos caras, como vi na Livraria da Esquina. É uma das que eu mais gostei do álbum, principalmente por esse clima meio ao vivo e sujo. Pequena vem na sequência e é uma música bonita, talvez a mais pop do álbum até aqui, com uma letra que provavelmente fala sobre um relacionamento que não deu certo.


O Que Falta é outra faixa nos moldes de O Sorriso de Check Baker: quase acústica, com um vocal meio torto, uma guitarra acústica e letra bonita, falando sobre amor e um cara que pra ele: “Ficou bem claro que embriagado / esqueço melhor”. Encerrando o álbum, 17, que começa com um sample de Whatever's Fair de Jerry Butler, usado na faixa Travellin' Man, de Mos Def e Dj Honda, que é cantada em coro no fim da música. O título da canção tem relação com a idade maravilhosa, que você quer morrer, mas quando cresce, sente falta de toda aquela merda e a letra escrita por Vitor comprova isso: “Hoje eu ando muito bem / Eu só pensava em morrer quando eu morava em Valadares / Embora eu já nem saiba dizer qual desses lugares que me dói mais / Porque hoje eu vivo tão sozinho / Que o que me faz acordar é simplesmente sonhar / Com essa glória que eu nunca vou ter”.


Sal Grosso deve fazer os mineiros da Lupe de Lupe voltarem a São Paulo e fazer uns shows por aqui, o que ainda é pouco. Esse é um ótimo registro, com variações de dois gêneros que algumas pessoas não conseguem sacar que possam se unir: o noise e o pop. Além disso, algumas letras têm trechos fantásticos, afinal, o Vitor é bem chato quanto a isso (estudante de Letras é foda). Talvez se eles ficassem por aqui, em SP, o público lambesse a bunda deles, porque a banda formada por Vitor Brauer, Cícero Nogueira, Renan Benini e Gustavo Scholz deveria ser mais valoriza pela crítica, que se diz, acima de tudo, independente.

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1 comentários

  1. "Talvez se eles ficassem por aqui, em SP, o público lambesse a bunda deles, porque a banda formada por Vitor Brauer, Cícero Nogueira, Renan Benini e Gustavo Scholz deveria ser mais valoriza pela crítica, que se diz, acima de tudo, independente."

    hahahaha é verdade, esse cd ta foda e os caras merecem mesmo.

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