Uma História de Raiva (e duas de passar nervoso mesmo)

por - 14:08


essa é uma história que se transforma em duas partes distintas. duas histórias com a mesma raiz derivativa, mas com duas consequências indiretas que me deixaram duas reflexões (não antes de me fazer muita bronca) sobre viver na cosmopolita de terceiro mundo que finge ser de primeiro, chamada São Paulo. e tudo começou com uma mordida de cachorro.


***
eis a história principal: sabado passado fui numa loja de materiais de construção pra comprar alguns badulaques que precisavam ser consertados em casa. na volta, já pela calçada do prédio onde moro, passei por uma garota, moradora de rua, que estava deitada num colchão e rodeada por 5 cães. Compreendo a necessidade da garota de possuir os cachorros, e a justifico: numa cidade estritamente agressiva com a presença de moradores de rua, é justificada a necessidade básica de proteção contra estupradores e playboys arruaceiros que tocam fogo nas pessoas desamparadas e abandonadas, além de companhia contra a solidão, entre outras coisas. até aí, é o que penso. ou que se espera.


o que aconteceu foi inesperado. passei ao lado da garota e, por algum motivo, os cães que a circulavam compreenderam que eu era uma ameaça à integridade fisica da moça; se levantaram imediatamente e começaram a latir com ferocidade em minha direção. dei uma de desatento, fiz de conta que não era comigo, dei as costas, ignorei. geralmente funciona. pois um dos cachorros, não se contentando só em ladrar, me lascou uma mordida na panturrilha.


na hora reagi, tirando meu sapato e lançando em direção dos cães pra me defender, mas a minha surpresa foi que a moça não impediu a investida dos cães, pelo contrário, riu quando me atacaram, e gritou comigo quando tentei me defender. veja bem, estamos falando acima de tudo sobre alguns valores pessoais, e confesso que fiquei puto pra caralho, e pensando no assunto ainda agora continuo puto... mas me contrabalanceio ao pensar que a moça simplesmente quer que o mundo inteiro em sua volta se foda com areia e mel, já que, ao fim de todas as avaliações possíveis de uma pessoa que se encontra há muito tempo na situação de morador de rua, todas as justificativas do sofrimento extremo se esgotam, a sanidade se esvai, a culpa se torna generalizada de tudo e de todos que a cerca. compreendo isso, não da forma prática, isso nunca entenderei, mas compreendo usando um pouco de bom-senso que me é disposto.


***
aqui entra a questão numero um.


na segunda de manhã, levantei com essa impressão estranha que, por via das dúvidas, eu deveria ir ao médico e tomar uma anti-rábica. o cachorro foi sacana e traidô, e apesar de parecer sadio, ainda assim é um cachorro que vive na rua, sujeito às doenças de ratos, pombos, morcegos, esgotos. e não dá pra vigiar um cachorro de rua durante 10 dias pra saber se ele está bem ou se vai cair duro a qualquer hora, como manda o protocolo, então o melhor a fazer é prevenir.


pois bem, fui ao médico.


antes de mais nada, devo esclarecer que quase nunca fico doente, graças à... minha alimentação e meu próprio corpo. pego uma gripe por ano, no máximo, e nada que um doril e um chá de limão com gengibre não cure. portanto não tenho plano medico particular. me restou ir no sistema de saúde público mesmo. aí que começaram os primeiros sinais de raiva humana (não a sindrome bacteriologica, a raiva irada mesmo); cheguei na unidade do AMA que fica na Vila Mariana e expliquei o caso (...passando na rua, cachorro mordeu, blah blah blah...) e a atendente me entregou uma senha: 53 numeros pra passar antes de mim. fora os casos urgentes, gestantes, pediatria e idosos. ok, o jeito é esperar.


"pra encurtar essa história"...(sic), 4h e meia depois eu fui atendido. o médico me chamou e eu contei a história toda de novo. ele olhou, de longe, fez aquela cara de "xiii, isso tá estranho", botando uma mão no queixo em forma de Pensador de Rodin, e soltou que "achava" que era melhor se eu tomasse a anti-rábica.


(sério??...)


será que era por isso que eu estava ali esperando há 4h e meia?? talvez, né. "pois ok, onde eu posso tomar a vacina?", eu perguntei todo auspicioso; "ahhh, aqui não tem. em unidades da AMA não tem vacinas anti-rábica"... oi? oi? era isso. não tinha ali. ele me indicou uns três locais pela cidade onde eu poderia tomar uma anti-rábica, duas muito longe pra mim, e me pediu pra fazer uma notificação do caso (notificação que por sinal esqueceram de citar que não me ajudaram em nada naquela unidade). Já com cara de estatística, preenchi a notificação.Na saída do ambulatório, só por curiosidade, perguntei pra atendente:


- "escuta... eu cheguei aqui e expliquei o meu caso pra você, sobre mordida de cachorro e anti rábica, lembra?"
- "ahh sim, eu lembro!!" ela respondeu com cara de pasmada sorridente.
- "e você sabia que aqui não tem atendimento pra isso?", retruquei.
- "sim, sabia."
- "e por quê você não me avisou que aqui não poderiam me ajudar? a senhora sabe que eu tenho o que fazer? sabia que poderia ter me poupado tempo em vez de ficar aqui esperando a toa pro 4h30?"...
- "ahh", ela me disse entortando as expressões faciais mais disfuncionais, "isso só o doutor que pode avaliar o caso, eu não sou o médico, senhor!"
- "ok então. muito obrigado, viu......"




[caption id="attachment_17280" align="aligncenter" width="700"] esse povo sofre, viu....[/caption]

fui em outro lugar que me poupou um terço do tempo. mas isso não vem ao caso; "o que importa é o que a gente compra e tá nas entrelinhas", como diz o profeta Ian MacKaye: entendi que se eu precisar, DE VERDADE, desse sistema, eu to fudido. e você também.
***
voltando um pouco atrás, lhes apresento a questão numero 2. o termo correto pra ela seria "cul-de-sac". vocês entenderão.


fui mordido pelos cachorros, tive que me vacinar por isso, perdi um tempo que não estava disponível. reações sobre uma primeira ação. mas o fato é que os cachorros continuam lá, até agora, na praça, e podem morder dessa forma outras pessoas, inclusive velhos e crianças. se você passar pelo Largo da Igreja Sta Cecília, tá arriscado a levar uma dentada também. eu tive de fato uma grande vontade, e quase o ímpeto, de acionar autoridades pra cuidarem desse caso.


a PM não. a PM olha pra sua cara e pensa "eu tenho mais o que fazer, eu tenho bandidos pra matar, não vou perder meu tempo com cachorro de rua!". o Centro de Zoonose seria o mais eficaz, mas até encontrar e acionar a sub-prefeitura mais próxima, você já desistiu e deixou pra lá.


mas E SE eu telefonasse pro Centro de Zoonose, o que aconteceria? bom... provavelmente eles acionariam uma carrocinha - se é que isso ainda existe - e sem questionar, sem pestanejar, recolheriam TODOS os cachorros dos sem-teto que estivessem na praça, e não só o que me mordeu. TODOS, sem excessão. em situação de rua, eles não voltariam pra moça dos cães: ficariam disponíveis por alguns dias para adoção no centro de zoonose, e se ninguém aparecesse, eles seriam sacrificados. os arredios então!... seriam mortos no momento que chegassem lá, já que a adoção de animais bravos está descartada.


pra auxiliar o centro de zoonose, a GCM acompanharia. com essa desculpa, retirariam todos os moradores de rua da região da praça (sabe-se lá pra onde, porque se a pessoa não vai pra casa porque ela não TEM uma casa, ela não terá uma casa em lugar algum! simples). A moça então ficaria sem seus pertences, sem seus cachorros e até sem uma marquise pra ficar debaixo: já não possui quase nada, possuiria menos ainda no dia seguinte.


em vez de resolver um problema, eu estaria criando outro. e por quê eu teria a intensão de fuder uma pessoa que não precisa de mais nada pra já estar fodida até as orelhas?? portanto, além de não ajudar em nada, eu estaria prejudicando outra pessoa, e de quebra minha consciencia não iria ficar tão de boa assim comigo. cul-de-sac! xeque-mate! entende do que eu tô dizendo?




[caption id="attachment_17281" align="aligncenter" width="600"] na Russia a cachorrada faz a festa![/caption]

a conclusão do caso todo: estamos presos à fios invisíveis. estamos todos caminhando de mãos dadas pro precipício. eu vejo vários tipos de mãos dadas: dedos entrelaçados entre mãos sujas, caludas, mal-lavadas, e mãos higienizadas com alcool-gel e decoradas com anéis de brilhante, todas juntas, caminhando em direção ao grande buraco. não vai ser necessário nenhum cataclisma, nenhum deus todo-poderoso, pra acabar com o nosso playground. é só observar e esperar.


no fim, resolvi "engolir esse sapo social", e deixar pra lá. me senti frustrado e inútil por ter somente algumas "semi"-soluções na manga, já que a síntese de real solução, acredito eu, resolve o problema de todos os envolvidos num quiprocó, e não só de um lado deles. o lado mais conveniente, possivelmente. e sinceramente, algo me impediu de ter "plena razão" nessa história toda. só porque sou branco, bem apessoado (há controvérsias...) e por ter uma casa, eu teria mais razão do que a moça da rua, com sua história de vida, e seus fiéis cachorros?? eu acho que não.

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