"Sobre aquela mulher vendada com a balança"

por - 16:03

cronica justiça


Eu adoro falar como antropólogo, que não sou, mas existem coisas que são necessárias para que se entenda o brasileiro por completo. A primeira é a mais sensacional do universo, a produção de cultura. Apesar de hoje em dia ela respirar com relativa dificuldade por uma série de fatores, a terra brasilis é mundialmente reconhecida pela produção de cultura de todos os tipos, basta pesquisar. A miscigenação é fator presente em toda a história brasileira e sem dúvida nenhuma é crucial para entender o brasileiro em sua plenitude. Além disso, grande parte dos brasileiros e brasileiras gosta de futebol. E como não amar este esporte imortalizado por tantos ferões da bola como o Somália, Adriano Imperador e Viola. Talvez a galera queira diminuir a maioridade penal pra poder botar na cadeia o futebol moleque, o que é uma pena.



Peraí, isso pode ter soado meio errado. Quem comete crimes deve ser julgado e se for considerado culpado, deve ser punido. Mas e quando alguém que carrega o respeito de muitos brasileiros por conta do apreço pelo esporte acaba puxando cadeia? Aí ele perde a aura branca de esportista e é tratado como um criminoso. Na verdade, o que é engraçado é que há um tratamento diferencial para o criminoso, mas isso em qualquer lugar do mundo, acredito eu. Há sempre a fantasia de que ele é um louco, maníaco, perverso e que tem que ficar isolado de todos os “cidadãos de bem”. Quando você cria estigmas, é difícil não estereotipar. E talvez por isso o sistema prisional como um todo não é tão eficaz como poderia ser. Novamente digo, ninguém está isento de cumprir com a responsabilidade de seus atos ou com seus deveres, mas o tratamento diferencial para o criminoso inclui um pacote muito maior do que uma detenção ou uma pena. Na verdade, meu próprio discurso já é bastante discriminatório ao me referir a eles como “criminosos” e é sobre isso que devíamos ter mais cuidado, a fim de mudar algo que não parece ter qualquer importância, mas que pode fazer alguma diferença.



O que vejo no julgamento do goleiro Bruno é algo que provavelmente acontece sempre em menor escala, o que não deixa de ser preocupante. Existem duas leis vigentes: a dos homens engravatados e a dos homens de calça jeans. Uma tenta ser íntegra e cheia de palavras difíceis, processos burocráticos, porém, com um leve senso de justiça. Outra é reacionária, cansada das injustiças que a vida gera e disposta a acabar com o mal de uma vez por todas. Ambas são maléficas de alguma forma, mas são necessárias para promover uma auto correção entre as próprias em algum ponto. Este não está sendo um processo rápido, mas que está acontecendo a passos micrométricos.



Sempre que ouço o discurso dos “direitos humanos para humanos direitos”, sinto uma pontada no estômago. Isso mostra o quanto conservador pode ser um ser humano. É como se padrões de comportamento fossem necessários para diferenciar algo que biologicamente é comprovado, a espécie a qual um indivíduo pertence. Só porque um ser humano é capaz de matar, roubar ou fazer qualquer outra atrocidade, não significa que ele deve ser julgado menos humano ou mais animal que qualquer outro. Um erro não justifica outro erro. E as manifestações populares nem sempre tem o caráter mais reacionário, mas é uma pura questão de resolver da maneira mais simples algo que é visto como complicado demais para lidar. É preciso identificar certos padrões de opinião popular e entende-los a fim de que uma segunda possibilidade lhes seja apresentada. Desta forma talvez, o goleiro Bruno ou tantos outros estigmatizados por conta de uma situação prisional possam atingir a “reabilitação”.



Acho que viajei um pouco neste escrito, mas espero ter promovido uma reflexão. Nem todo juiz é filho da puta, tal como a torcida grita. A razão não se faz pela maioria de votos, apesar de que a maioria consegue pisotear, quebrar, fazer manifestação. Se você não encontra justiça, acalme-se. Ela vai te encontrar. Se não encontrar, torçamos para que o grande holofote divino realmente exista e pegue ele no flagrante, tipo o Comandante Hamilton.



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