Crônica da cidade cinza

por - 15:08

Centro de São Paulo - Lane Firmo


No viver cinza, no habitual caos proporcionado por essa metrópole, o vem e vai de carros e palavrões aleatórios em cada esquina, ou cada vagão do metrô, a relação entre eu que vos escrevo e o amontoado de prédios e bolsadas no rosto dentro do ônibus, não é nada demais. Não faria corar nenhum bon vivant como Roberto Piva (que Deus o tenha, meu caro) ou Plínio Marcos, que andava ali pela República vendendo livro e tropeçando em camisinhas usadas.


Entre um cigarro e outro pelo centro, é possível notar estereótipos: tem o corretor de seguros sempre apressado com aquela pasta que provavelmente não tem nada além de uma caneta, os moradores de rua, alguns alegres, fazendo um samba em pleno Largo do Paisandu com latas de coca-cola, outros apenas andando com aquele vazio no olhar, tem também as prostitutas, algumas jovens, outras mais velhas que fazem “psiu” quando qualquer um passa, numa dessa, até Karl Marx faturaria um broto.


Novamente, minha relação com a cidade não é das mais alegres ou empolgantes, vivo nisso como um observador, como quem para no meio da Avenida Rio Branco às 17:00 e ao invés de atravessar correndo – para quase ser atropelado pelo Jardim Miriam –, observo o início dos expedientes: o corretor de seguros vai embora, o engravatado que sonega impostos também, o prefeito não foi trabalhar e meninas entram com vestidos curtos (são vestidos mesmo?) em locais que faria qualquer pessoa que dorme na rua dar graças ao bom senhor, apelidado de Deus, por descansarem na avenida São João.


Ficcional ou não? Lembram do Pitta? Ah, mas que prefeito exemplar! Tinha até uma música no Charges.com, mas o Kassab não tem e lá no fundo, deve gostar de queimar uma pedrinha, ver seios robustos pulando para fora do sutiã das moças e presentear a população com insetos, enchentes, buracos e a reforma da Eusébio Matoso.


A chuva cai no rosto, minha terra da garoa, palco de prostituição, uso de drogas, passagem de ônibus a R$3,00, porém, não reclamamos do transporte, pois quem paga essa quantia tem direito a brinde: baratas! Tem pra todo gosto: grande, pequena, média, com asa, sem o poder divino de voar e elas ficam principalmente perto da porta. Ah, minha terra da garoa, que agora expulsará moradores de rua do centro de São Paulo, pois em uma fotografia, a estátua de algum general não ficaria bonita com um desses aí sentado, com seu cachorro ao lado. Ah, minha terra da garoa, o prefeito poderia provar, junto com Marx, as primas da Aurora.


*foto por Lane Firmo

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