Em busca da educação proibida

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“Todo mundo fala de paz, mas ninguém educa para a paz. As pessoas educam apenas para a competição e a competição leva à guerra”. A observação feita pelo professor colombiano Pablo Lipnizky sintetiza bem o pensamento do mais recente projeto audiovisual que se propõe a questionar o modelo de educação vigente. A Educação Proibida é um documentário argentino dirigido pelo cineasta Germán Doin Campos que, inspirado por contradições do sistema observadas ao longo de sua vivência educativa, se dedicou a coletar, durante três anos, 90 entrevistas com profissionais de diferentes métodos que põem em questão a lógica da escolarização moderna.


Os objetivos do projeto são: colocar os problemas educacionais na agenda pública para que sejam analisados com a dedicação profunda que eles exigem; desenvolver uma educação integral da humanidade com seus aspectos intelectuais, emocionais, experimentais e físicos; conhecer os diferentes métodos educativos não convencionais encontrados em vigor na América do Sul e na Espanha; alertar pais e professores sobre as consequências da educação que dão a seus filhos, oferecendo uma alternativa de mudança. Para alcançar estes objetivos, a equipe optou por disponibilizar o documentário gratuitamente na internet, na expectativa dele ser exibido em casas e escolas, sem impedimentos jurídicos. O longa já se encontra no site oficial do projeto (www.educacionprohibida.com).


Somando ao documentário uma dramatização que serve como base para apresentar seus principais fundamentos, o filme conta a história de um grupo de alunos que desejam levar a público uma carta coletiva elaborada a partir de um exercício proposto em sala de aula. A grande questão é que o texto é um verdadeiro desabafo dos estudantes não satisfeitos com o padrão de educação que receberam ao longos dos anos, o que gera um desconforto entre corpo docente, pais e demais alunos.


O paradoxo apontado por Lipnizky é de que as iniciativas educacionais das instituições públicas e privadas, que seguem o discurso do ensino primordialmente igualitário, cooperativo e solidário, na verdade, causam o efeito contrário no alunado: promovem a competição, o desrespeito, o isolamento, o individualismo, a violência emocional, entre outros. A película sugere que a origem desse sistema, provavelmente, esteja no padrão militar da educação infantil obrigatória da Prússia, no século 18, que se espalhou pela Europa e depois pelas Américas. Esse modelo tinha como objetivo gerar uma massa de pessoas obedientes e competitivas, com disposição para guerrear a qualquer momento que fossem chamadas.


Nesse âmbito, os colégios são colocados no mesmo patamar das fábricas e dos presídios, com seus portões, grades e muros para impedir que as pessoas saiam do ambiente escolar; com horários estipulados de entrada e de saída, fardamento obrigatório, intervalos e sirenes indicando o início e o fim das aulas. Ou seja, o sistema educacional vigente acaba refletindo verdadeiras estruturas políticas ditatoriais que produzem cidadãos “adestrados” para servir ao sistema. A essência da escola prussiana está imersa na estrutura educacional da nossa escola: método avaliativo qualificatório, exames padronizados, divisão de idades, aulas obrigatórias, currículos desvinculados da realidade, pressões sobre professores e alunos, sistema de prêmios.


Ao longo do século 20, surgem diversos movimentos na pedagogia propondo experiências educativas centradas na liberdade da criança e na construção autônoma da aprendizagem. No entanto, tais teorias transformadoras caem no esquecimento com o advento dos regimes totalitários. Atualmente, o modelo de produção capitalista faz a manutenção deste cenário, já que também orienta a sociedade para um comportamento centrado na ascensão econômica e na competitividade. Os considerados mais fracos, inábeis, serão sempre oprimidos, e a escola segue esta lógica. A educação acaba se tornando um sistema de exclusão social que seleciona os tipos de pessoas que chegarão à universidade para formar parte de uma elite que servirá ao mercado. O Estado não se preocupa com o ser humano enquanto indivíduo e, nesses termos, qualquer metodologia educacional que busque algo diferente será “proibida”.


 

FUNDAMENTOS


- Repensar a educação é considerada uma prática que não termina. No entanto, A Educação Proibida se apoia em algumas noções gerais:


- Considera que tudo é relativo e que, por isso, a transmissão do conhecimento/conteúdo não é o mais importante. O ideal é que o estudante aprenda a aprender, que interprete à sua maneira.


- Ausência de hierarquias em sala de aula. O professor sob hipótese alguma deve exercer um papel superior. Ele não é detentor de todo o conhecimento. Na verdade, ele deve ser um facilitador da aprendizagem, que conhece e compreende o seu aluno como indivíduo, e que acompanha o seu desenvolvimento cognitivo, adaptando-se às capacidades e habilidades do estudante, não o contrário. Como consequência, ele também sai aprendendo. Tudo é uma troca.


- O conhecimento não deve ser apenas teórico. Ele deve se basear em experiências e experimentação, dentro e fora de sala.


- A escola não deve domesticar o aluno, tampouco transmitir valores e costumes sociais, mas deve criar um ambiente onde as crianças construam seus próprios valores.


- Pedagogia é uma ciência social e não deve ser medida em números. Por essas e outras, o sistema de provas não funciona, pois avaliação é um processo contínuo.


- Democratizar a sala de aula, encerrando prováveis lutas de poder, de competitividade. Com isso, a escola se torna um lugar participativo que promove a paz.


***


Eis aí o filme pra quem tiver preguiça de baixar. Obrigatório.



* Texto originalmente publicado pela Continente Online

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