Entrevista: Hierofante Púrpura se preparando pra deixar o nordeste torto

por - 12:08


A Hieforante Púrpura é uma daquelas bandas nacionais que dá gosto de ouvir. Primeiro porque o grupo não nega e nem esconde as suas influências, na real, eles até se divertem e exploram elas ao máximo, sem medo de soar parecido ou “datado”. Então podemos ver na mesmo música a psicodelia do Arnaldo Baptista e o indie rock do Pavement com uma naturalidade enorme. Outra parada que eu acho massa é que a banda é de Mogi das Cruzes, ou seja, do "interior" do estado de São Paulo, onde realmente se encontra o rock independente. Ou você conhece banda de rock boa na capital paulista que seja realmente de lá (só lembro de rap, hardcore e rock instrumental)?


O grupo lançou um dos melhores discos de 2011, inclusive a faixa “Rosa Frígida” entrou na nossa coleta de #Hits2011. A banda também participou de uma das coletas de aniversário do primeiro ano do Hominis Canidae, com uma versão ao vivo (e foda!) de Hospital das Curas (minha música preferida). Seguindo essa verve roqueira recheada de psicodelia e rock lo-fi, o quarteto vem pela primeira vez ao nordeste (junto com a Sin Ayuda, outra banda massa do interior de SP) para participar das edições 2012 do Festival Maionese, que acontece em Maceió, e do Festival DoSol, tocando em Natal. Resolvemos então bater um papo com Gabriel Lima e Danilo Sevali, integrantes do grupo, para que o público conheça um pouco mais a Hierofante e saber as expectativas deles nessa tour pela região.



Pra começar, sobre o nome da banda, já vi vocês respondendo essa pergunta algumas vezes e dizendo que vem do grego, depois falam da canção Hierofante, do segundo disco do Secos e Molhados. Algum de vocês fala grego ou isso é história pra deixar o nome mais interessante?!


Gabriel: Realmente vem do grego e também é um poema do Oswald de Andrade que o Secos & Molhados musicou lindamente, mas falar grego aí seria demais (risos), ninguém de nós fala grego não, aliás, andei sabendo por aí que depois do chá das cinco lá em Floresta (PE) tem gente que sai falando grego, russo e por aí vai...

De onde surgiu a ideia de criar um clipe doidão com cenas de sexo explícito (para faixa "Não Conte a Ninguém ou Mato Você")? Alguém da banda participando do clipe?


Gabriel: Cara, qual turma de amigos nunca pensou em gravar um vídeo pornô e o que acontece na maioria das vezes é que esse papo sempre acaba caindo na gargalhada não é mesmo? (risos) Assim, um amigo nosso pintou com uns chocolates marroquinos e aí a imaginação acabou passando do ponto e ao invés de ficarmos só nas gargalhadas, resolvemos mesmo fazer o clipe que são cenas de amorzinho que foram captadas e editadas pelo nosso querido videomaker/vocalista/organista/contra-baixista Danilo Sevali. Pra quem quiser ler, saiu uma matéria bem completa sobre esse tema, feita pelo parceiro Junior Bellé.



Danilo, soube que você também toca viola, existe possibilidade de tal instrumento aparecer no som da banda? Qual o limite da Hierofante Púrpura?


Danilo: Existe sim, sem dúvida! O instrumento possui uma sonoridade única, me remete muito a um período da minha infância, onde (na vitrola) ouvíamos em família, maravilhosas composições sertanejas, raiz mesmo. Acabei desenvolvendo linhas mais voltadas para o rock, todo o barato das múltiplas afinações que o instrumento possui, ajudam bastante na parte inspiradora do compor. Penso nas dificuldades de soar bem ao vivo, a Viola que possuo atualmente não atende tal necessidade, mas pra gravar fica bonito por demais. Acabo assim transpondo para a guitarra essas músicas, os resultados agradam bastante os meus ouvidos e os de algumas pessoas que eventualmente já puderam ouvi-las.


Como funciona a criação do grupo?! O que vem primeiro, letra ou melodia?

Danilo: Nunca parei pra pensar no processo, ou no desenvolvimento totalmente consciente do mesmo. O caráter intuitivo do criar é o que nos norteia na maioria das vezes. Procuramos a fluência, seja ela baseada num arranjo de cordas, de piano, ou mesmo numa letra ja escrita, a ordem jamais alterou o resultado. Durante os sete anos de existência da banda, diferentes tipos de processo ja foram experimentados, andamos e evoluímos numa canção de acordo com nossos passos, e é inegável a mágica que existe nesse momento. Uma, duas, três ou quatro pessoas tocando individualmente em prol do Uno, é aquele papo do mistério da divina trindade, só mesmo a música para nos elevar assim.



Vocês fazem o que alguns chamam de rock e esse gênero no brasil é tão maltratado. O que acham da 'nova geração do rock nacional'? Curtem alguma banda?


Gabriel: Acho que a nova geração está incrível em termos de registros, gravações e lançamentos, por exemplo, só pela Popfuzz eu posso citar dois discos que particularmente me agradaram muito que é o Sal Grosso do Lupe de Lupe e o novo disco do Jair Naves que é ótimo também. Curtimos muitas bandas, é até difícil citar mas a trupe do Rio de Janeiro capitaneada pelo Lê Almeida (que também acaba de lançar o EP Pré Ambulatório que é de chorar de tão foda) é uma coisa de outro mundo, tem nosso querido amigo do interior de SP Wallace Costa e seu folk mais que psicodélico, os parceiros mogianos do Conte-me uma mentira, Topsyturvy, Sin Ayuda que são amigos que vamos acompanhar nessa turnê, os malucos do INI de Sorocaba, os irmãos do Alarde de São José dos Campos que vamos lançar um trabalho inédito juntos ainda nesse final de ano ou no começo de 2013, fiquem ligados !!


Explica um pouco a discografia da banda, são 3 ou 4 EPs que foram reunidos num disco que leva o nome do último EP. Qual o formato mais atraente pra vocês?


Gabriel: No nosso último lançamento que é o “Transe Só” são 3 EPs juntos, Adubado (2009), Crise de Creize (2010) e o próprio Transe Só que são as 4 últimas músicas que ainda não haviam sido lançadas pois quando gravamos em 2008/2009 foram 13 músicas gravadas e lançadas em EPs com 4 músicas cada um, sendo que a 13ª música entrou numa coletânea especial da “Transfusão Noise Records” chamada Marlindo onde todas as músicas são inéditas, esse foi o critério da compilação, a banda só poderia participar se fosse música nunca antes lançada. O formato mais atraente pra gente como apaixonados por música é com certeza o disco de vinil, desejo que não sai das nossas cabeças em nenhum momento e quem sabe esse sonho não aconteça em breve.



Existem três versões do Transe Só, ultimo trabalho da banda, o EP, outra com o disco (compilação de EPS) e uma terceira com uma arte enorme, estilo vinil, mas com o CD dentro. Como funciona o processo visual dos discos da Hierofante?


Gabriel: A gente não pensa muito em limitar a coisa, o negócio é fazer o maior número de lançamentos diferentes. No caso do “Transe Só” se você entrar no nosso site você vai sacar que eles estão separados EP por EP. Temos também o lançamento do disco na versão CD tanto da Popfuzz que foi distribuída no nordeste quanto da Transfusão Noise Records que foi distribuída no Rio de Janeiro e temos a versão feita por nós com a capa tamanho vinil que impressiona muito as pessoas quando pegam na mão e manuseiam a coisa física ali. Nós sempre fizemos a parte gráfica das coisas, porém isso mudou no Transe Só, pois todo projeto gráfico ficou por conta do grande artista mogiano Renan Cruz que é um caso a parte, talento puro, indico todo mundo que ta lendo isso visitar o site dele e ver qual é. Pra essa turnê no Nordeste, estamos contando com a parceria da marca "Camisetas Psicodélicas" que cuidou de toda parte gráfica e visual do nosso material de merchandising e divulgação.


Nomes como Arnaldo Baptista, Mutantes e o próprio Ney Matogrosso são atrelados à sonoridade do grupo normalmente, existe mais alguém menos conhecido, mas com enorme importância para produção sonora do grupo?
 
Danilo: "Menos" conhecido eu posso citar o genial Paulo Barnabé, que encabeça até hoje um dos grupos mais conceituados e inventivos da nossa música, o Patife Band, e também o Cadão Volpato (ex-Fellini) grandes bandas, grandes caras!! Inclusive, já troquei algumas mensagens (via email) com o Paulo e ele sempre foi muito atencioso e solícito!! E grandes nomes esses acima citados, Arnaldo Baptista é uma referência máxima pra mim em todos os âmbitos da sua arte. Diversos outros nomes engrossam o caldo lisérgico, procuro amparo não só em artistas voltados pra música, como também literatura, cinema, artes plásticas. Gosto de compor e criar músicas baseadas numa evolução/progressão dramática, como um bom filme ou um bom livro, dificilmente passamos um dia aqui em casa sem essas práticas do ler, ver, ouvir, enfim, se referenciar. O prazer envolvido nesse processo é inestimável. Nesses tempos de web onde tudo é tão acessível e liquido, voltar a atenção para obras pontuais, sejam clássicas, cultuadas, marginais ou não, é algo necessário para um artista que leva sua obra a sério hoje em dia. Recomendo aqui a AutoBiografia de Timothy Leary, o Papa da contracultura americana, com seus Ácidos ideais de "corromper a juventude", e como trilha sonora, a poética-doce voz dela: Hope Sandoval (ex-Mazzy Star).



A banda mudou ao longo dos anos, a formação atual do grupo está junta a quanto tempo? Alguma mudança no som diretamente associada a mudança na formação?


Gabriel: Realmente tivemos algumas mudanças na banda, principalmente na bateria. A formação atual tem mais ou menos um ano, desde que a Helena Duarte começou a participar dos shows, hoje ela já está totalmente inserida na loucura e falando em mudança estaremos com um reforço muito especial nessa turnê que é o nosso amigo Heraldo Marins, mais conhecido como Dall que toca bateria no INI, banda fantástica de Sorocaba (SP) com quem também temos engatilhado um registro histórico do projeto “Guerrilha Gerador” onde foram gravadas intervenções que fizemos com um gerador de energia elétrica movido a gasolina nas viradas culturais de SP, Mogi das Cruzes e São José dos Campos, isso deve sair no começo de 2013 ou ainda nesse final de ano).


Vocês estão vindo pela primeira vez pro Nordeste, o que vocês escutam da região de novo e de velho?


Gabriel: De coisa antiga, confesso que não conheço muito mas costumo ouvir uma banda dos anos 90, o Snooze de Aracaju que é incrível, gosto bastante. Da nova safra conheço pela Popfuzz que é o selo que temos parceria alguns trabalhos como o último lançamento do My Midi Valentine que é bem legal, tem uma banda que tem discos diferenciados e um trabalho que me agrada muito que é o Plástico Lunar, os Baggios que recentemente passaram pela nossa cidade, gravaram as “Sessões do Sótão” (projeto realizado pelo Danilo e Helena) e graças a esse encontro nos tornamos amigos, o projeto do Caíque que é o Bad Rec Project que é legal também, a Katty Winne que é uma garota representando fortemente la em Maceió. Aos poucos vamos conhecendo o maior número de trabalhos possíveis e poder encontrar com essas pessoas serão experiências bem importante pra gente.


O que o público de Maceió (Festival Maionese) e Natal (Festival DoSol) não devem esperar ver no show da Hierofante?! (pra guardar a surpresa do show)


Gabriel: Podem sim esperar uma banda vindo de uma sequência de 5 apresentações com os amigos do Sin Ayuda daqui de SP, com uma vontade incrível de conhecer grandes amigos tanto em Maceió como em Natal e compartilhar com todos que estarão presentes no festival toda nossa energia, todo tesão que é poder viajar pra tocar seu som e fazer toda essa troca indescritível. O que eles não devem esperar é uma banda sem disposição, isso eles com certeza não presenciarão.



O que a Hierofante Púrpura tem feito ou precisa fazer para entrar pra história?


Danilo: Gravar um bom e representativo novo disco! Um disco baseado em conceitos, timbragens marcantes, criatividade ritmica, enfim. As bandas devem sempre ousar, se reinventar, buscando (conscientemente) uma espécie natural de aprimoramento técnico. O   reflexo vem na hora do palco, do show ao vivo, ali naqueles minutos do tudo ou nada. Sempre que estamos reunidos pensamos e discutimos sobre essas idéias, dividimos os anseios, as dúvidas, os medos e os desejos. E contar com esse fator de poder fazer isso tudo dentro da nossa própria casa é algo assim, crucial! A idéia é produzir tudo por aqui mesmo (em casa, como ja venho fazendo com as "Sessões no Sótão") contando com bons equipamentos, instrumentos e pessoas aptas para criar algo assim Assim nossa história será (bem) escrita.


Espaço livre para falar o que quiserem...


Essa é nossa primeira turnê em que faremos shows em sequência, metendo as caras pelas estradas do nordeste, gravando tudo com olhos, mentes, cameras e coração. A empolgação não poderia ser menor do que essa enorme que estamos sentindo a cada dia em que a viagem se aproxima. Fica aqui o convite (aos leitores dessa entrevista e entusiastas da banda) para que compareçam aos shows e venham falar conosco, essa troca é importante, valorizamos isso. É divida de sangue que deixaremos pedaços de nossos corpos e mentes pra cada palco em que tocarmos. E deixa o mundo ser torto...


Fica ligado na tour dos caras pela região pra não vacilar e perder o show caso passe por sua cidade (ou perto). E pra fechar quebrando tudo dia 12/11 em Sorocaba (SP) no Carne de Segunda, evento da Rasgada Coletiva.



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1 comentários

  1. Show de bola saber que a banda anda tocando pelo pais.São todos parceiros do peito.Sucesso ai.

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