Hotline: Miami e a Ultraviolência

por - 15:08


Hotline: Miami, lançado no início da semana passada, é um jogo violento e brutal que levanta uma série de questões sobre jogos, a indústria de entretenimento e, principalmente, sobre nós mesmos.


Produzido pela Dennaton Games, o jogo é fruto de uma parceria entre Dennis 'D.W' Wedin e Jonatan 'cactus' Söderström, um desenvolvedor sueco de visibilidade dentro do nicho independente de games. Seu portfólio é definido de maneira adequada por dois adjetivos: experimental e prolífico. cactus já chegou a produzir um jogo por semana. Todos eles buscando um experimentalismo na mecânica, no design, ou na temática e ainda mantendo uma identidade própria do criador. Este contexto é importante na hora de criar expectativas em relação ao jogo para entendermos que as escolhas da Dennaton são deliberadas.


Hotline: Miami é um simulador de assassinatos. Logo no tutorial, um mendigo diz as palavras que estabelecem o tom das suas próximas 6 horas de jogatina: "I'm here to teach you how to kill people". Começa aí uma pequena saga de ultra-violência, amor e traição, em uma Miami do final dos anos 80, encharcada de neon e um pop eletrônico instrumental cheio de sintetizadores (melhor soundtrack do ano). Se você já assistiu Drive, dá pra perceber vários empréstimos temáticos entre os dois. (E se você ainda não assistiu, tá passando da hora.)


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Você acorda em seu apartamento. Há pizza velha em cima da mesa, o lixo não foi botado para fora, há migalhas no sofá, louça suja e roupas espalhadas pelo banheiro. O telefone toca. Do outro lado da linha, a pessoa identifica-se como "Linda", ou talvez "Mike" (assim mesmo entre aspas), e diz que precisa de você para uma emergência. O encanamento de água do hotel estourou e precisam que você ajude na "limpeza". Fica na rua leste, número 7. Esse endereço te leva para uma casa cheia de gangsters russos e o seu trabalho de limpeza será um pouco ortodoxo, como você já imaginava. Apesar de tudo isso, você não questiona seus comandos - é algo que precisa ser feito.


Antes de entrar, existem várias opções de máscaras para que você não seja reconhecido. Entre cavalos, sapos e galinhas, cada uma com sua habilidade especial única, você escolhe a que mais enquadra-se no seu perfil e entra no hotel, apenas para levar um tiro assim que passa pela porta e ter de recomeçar a missão. Isso repete-se por diversas vezes. Segundo a contagem do Steam, já morri 763 vezes e o próprio jogo te avisa, nas telas de loading: "Don't be afraid of dying".



Hotline: Miami é um jogo de estratégia e execução, aliado a reflexos rápidos e improviso. Você vai sempre estar em minoria, onde um milésimo de hesitação é a diferença entre explodir o crânio de um russo na parede com o seu taco de baseball, ou ter seu rosto dilacerado por um cachorro. A violência é brutal: você pode optar por fuzis, metralhadoras, escopetas, facas, dardos, tacos de baseball e de sinuca, katas, cutelos, furadeiras ou suas próprias mãos. Pode derrubar inimigos para executá-los cortando suas gargantas, esmagar a cabeça de um contra o vaso sanitário, apertar os olhos de outro com os dedões, queimá-lo com óleo quente, usar uma furadeira para uma versão bizarra de lobotomia e outros. Tudo isso em um estilo clássico dos videogames de 16-bits, totalmete pixelizado e visto do topo como no primeiro GTA. E essa violência é recompensada. Dependendo de fatores como ousadia e flexibilidade, ou a quantidade de mortes em rápida sequência, você ganha pontos e uma nota ao final de cada missão  – só para acordar em seu apartamento e ter de atender ao telefone novamente.


Entre missões, existem pequenos fragmentos da vida cotidiana. Você sai para buscar uma pizza, uma fita VHS, ou tomar alguma coisa em um bar. O atendente, que é deliberadamente o mesmo em todos esses lugares, é um cara simpático que chega a te oferecer algumas coisas de graça de tão gentil. O jogo não te deixa esquecer que você ainda é uma pessoa real, apesar das atrocidades cometidas. Quando as coisas começam a dar errado, a realidade se distorce. Talvez por consequência dos seus atos, talvez por motivos não explicados, mas tudo se torna surreal. É difícil separar o que está acontecendo de fato e o que faz parte da mente perturbada de um assassino, se é que esta separação existe. A única coisa que parece real, dentro do mundo imaginário do jogo, são as mortes.


A narrativa do jogo se faz presente em suas próprias ações, e não de maneira escrita ou pictórica como estamos acostumados. O jogo questiona até onde estamos moralmente isentos ao gostarmos de um filme, uma música ou um jogo violento. Até onde nossas ações, mesmo dentro do universo construído de um videogame, falam por quem realmente somos. Hotline: Miami traça uma narrativa grotesca e cruel que direciona uma pergunta a você – não mais personagem, mas sim o jogador:




[caption id="attachment_17792" align="aligncenter" width="640"] Você gosta de machucar outras pessoas?[/caption]

Hotline: Miami está disponível pelo seu provedor de pirataria ou pelo Steam, à U$9,99. Apoie a cultura indepente.


*Para quem se interessar: Cactus Arcade (link para download) é uma coletânea de alguns dos melhores jogos pelo desenvolvedor. Indico especialmente jogos como: Clean Asia!, Mondo Agency e Psychosonium.

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