Joyce wasn't the brightest

por - 15:06

Lolita


Nós buscamos a felicidade, não é? Aí você vem e fala: “Ah, mas e aquele cara que fatia o pinto e sei lá o quê!” e eu: “Mano, calma! Nem comecei a falar e você lança mutilação genital na conversa!”


Então vamos maneirar e pensar as coisas com carinho e cuidado.


Quando eu era pequeno, adorava correr e desenhar. Não que eu fosse um velocista ou um artista, mas adorava. Depois comecei a adorar futebol e as pernas da menina que se sentava ao meu lado na escola. Joyce era o nome dela. Como estará Joyce hoje em dia? Provavelmente gorda. Digo isso não sem embasamento, pois ouvi dizer que a mãe dela era gorda.


Joyce, Joyce. O que eu não faria para voltar no tempo e beijar aquelas suas coxas. Provavelmente seria preso, porque ela deveria ter o que, 13, 14 anos, e isso seria caso de polícia com certeza.


Sem contar que eu iria encontrar comigo mesmo, o que seria desagradável para ambas as partes.


Ok, voltar no tempo não é uma opção. Mas o prazer – erótico e estético – que aquelas pernas me proporcionaram, mesmo a distância, de canto de olho, talvez num breve toque das pontas dos dedos, movido por um aqueles momentos de frenesi coletivo adolescente, aquele prazer perdura em mim e continuará a existir, agora fora de mim, nestas palavras, neste texto.


Mas que interesse têm as pessoas em ler sobre as pernas da Joyce que eu, aos 14 anos, cobicei?


Provavelmente nenhum, mas já que escrever é de graça e ler não dói...


Não são só as pernas que estão em jogo, mas as imagens que tenho guardadas, a sensação que elas me trazem, os significados que atribuí àquelas mesas (compensado vagabundo de madeira, metal gelado, leves, palavrões e pintos rabiscados), às minhas bermudas (o roçar quente e desconfortável do tecido sintético nas minhas pernas), às coxas da Joyce, que o shortinho colado de não mais de dois palmos de comprimento não hesitava em revelar em minúcias: a pele bem branca, os pelos fininhos e escuros combinando com os dos braços e com as sobrancelhas grossas – clássicos da puberdade.


Relembrar e revolver essas memórias me proporciona prazer (mas não muito, Polícia Federal). Seja pelas pernas da Joyce ou por o que elas representam em retrospecto: o interesse incipiente pelo sexo; a falta de jeito com as mulheres; a perene vontade de agradar uma menina, seja com piadas, seja com cola na hora prova – Joyce wasn’t the brightest.


As pernas da Joyce, então, dizem bastante sobre quem eu fui e quem eu sou.


Uma cena, uma piada, qualquer forma de narrativa tem essa capacidade de dizer algo sobre nós.


Como Simone, logo nas primeiras páginas de A história do olho, de Georges Bataille, sentando a bunda nua e branca no prato com leite para o gato; e Humbert Humbert na praia com seu primeiro amor, em Lolita, de Nabokov; e Paulo Honório comprando e depois matando Madalena em S.Bernardo, de Graciliano Ramos; e Quentin em O som e a fúria, de Faulkner, disposto a pagar pelos pecados da irmã; e Leopold Bloom, em Ulysses, tocando uma punheta na praia pruma menina manca, dando vazão à angústia causada pela mulher, pelo país, pela raça, pelo filho morto, por tudo.


Buscamos a felicidade, então: isso está certo. Seja por um prazer facilmente justificável (beijar as pernas de uma menina) (maior de idade, de preferência), seja por um prazer mórbido (automutilação genital) (pinto não é cabelo, se cortar não cresce mais).


E ler e escrever nos proporciona prazer pois é uma forma de autoconhecimento. É isso?


Pode ser, mas tanto faz. Como diz aquela música das Velhas Virgens: Tudo que a gente faz é pra ver se come alguém. Ou, nas palavras de Camus: Nenhuma certeza vale o fio de cabelo de uma mulher.


De nada adianta formar certezas. Existe apenas a especulação e o prazer de especular: hoje chove?; preciso ir ao dentista ver esse dente?; meu chefe percebeu que eu passei a tarde toda no Face?; chupo um Chicabon?; ela pensa um pouco em mim?


E tocar com os lábios das pernas de uma menina – aí é o prazer mais claro e calmo, de certeza imediata, o momento em que não há dúvidas, em que tudo faz sentido. O momento para o qual, logo que acaba, queremos retornar.

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