Porque com 23 anos eu ainda sou forte, resistente e tão cego quanto o meu pai

por - 15:05

[caption id="attachment_18248" align="aligncenter" width="407"]Vitor Bauer por Pablo Bernardo Vitor Bauer por Pablo Bernardo[/caption]

É com orgulho que a gente do Altnewspaper anuncia o lançamento do single “23”, do novo projeto de Vitor Brauer, rapaz mineiro e vocalista/guitarrista da banda Lupe de Lupe.


Nesse novo projeto, assinado com o nome dele, Vitor Brauer, as guitarras sujas e estridentes de sua banda, dão lugar a uma base eletrônica, samples, um pouco de vanguarda paulista e por que não aquela influencia discreta do rap?


É amigos, esse spoken word vai dar o que falar, seja por sua letra um tanto quanto ácida, com relação clara a faixa “Há Algo de Podre No Reino de Minas Gerais”, às futuras participações que aparecerão na mixtape: Jonathan Tadeu (Quase Coadjuvante), Renan Benini e Gustavo Scholz, esses, da Lupe de Lupe. Ah sim, a mix será lançada dia 20 de dezembro.


Abaixo vocês podem conferir o single, a música “23”, e se quiserem fazer o download para colocarem bem alto pra tocar, seja no ônibus (sem os fones de ouvido, se possível, sentimos saudades dos DJs de busão), seja no trampo, em casa ou em qualquer outro lugar que você quiser, clique aqui.



O sol da minha cidade me fez forte, resistente e tão cego quanto o meu pai.
Governador Valadares, a quinta cidade mais violenta do país para jovens, serviu de berço para mim e também para Eike Batista.
Desde pequenos os sortudos recebem só uma lição: sair de lá o mais rápido possível.
Enquanto uns vão pra Europa, outros vão pra Belo Horizonte ou São Paulo ou outra cidade qualquer.
A verdade é que o relógio do homem moderno não para nunca.
Não é nenhuma novidade o fato de termos pressa.
Pressa de vencer e pressa de morrer.
O asfalto deixa a gente com pressa.
A gente nasce do asfalto e vive do asfalto até morrer.
Bem, pelo menos uma boa parte de nós.


Enquanto isso a cidade vai matando a gente.
Pelo menos eu sei que essa cidade tá me matando.
Mas eu sei também que essa é a cidade que eu mereço agora.
Não adianta eu me enganar.
Não sou bom o suficiente pra morar em outra cidade.
Embora se houvesse uma competição entre eu e Márcio Lacerda pra ver quem dá mais a mínima presse lugar...
Ía rolar uma briga feia.


Mas não me entendam mal.
Eu não dou a mínima pra política.
Enquanto meus amigos se frustram com o que acontece na prefeitura ou no planalto, quando o sol nasce a contruibuição milionária de todos os erros continua resultando na nossa própria experiência de vida.
Mas eu sei que essas são as pessoas que vivem bem.
As pessoas que assistem a um show de instrumental ou a um show de rap ou a um show de samba e voltam para casa satisfeitas.
Mas eu não consigo ser assim.
Eu não nasci pra ser assim.
Eu não quero ser brasileiro, eu não quero cantar em inglês, eu não quero tocar instrumental, eu não quero fazer a nova mpb, eu não quero fazer rap, eu não quero que a nossa banda se torne uma empresa.
Eu não quero ir pra europa, eu não quero ir pros estados unidos.
Eu não quero dinheiro demais, eu não quero nada disso.
Eu não vejo sentido em nada disso.
E eu sei que não sou só eu tentando vencer aqui nessa porra.
Eu sei.


É por causa disso que meus inimigos me odeiam e meus amigos me amam.
Quando os bares fecham a gente dá um jeito e arranja um outro lugar pra ir e encher a cara.
Essa é a única hora que o relógio pára.
Com 23 anos é assim.
E aí acabamos fazendo piada de tudo porque tudo vira uma piada.
E criamos teorias e músicas e frases.
Todas essas coisas que serão esquecidas amanhã, mas que vão existir pra sempre.
Nos tempos da internet o passado é eterno.
E, cara, a gente já viu tanta coisa e já viveu tanta coisa...
Por isso que a gente precisa falar o que quer na hora que quer.
Por isso que a gente lança essas músicas, véi.
Se eu morresse amanhã, tudo isso morreria comigo.
Todas as histórias e teorias e frases fajutas de lágrimas na chuva.
Eu já disse uma vez que às vezes é preciso gritar, tocar alto, quebrar coisas.
Eu sei.
Mas às vezes só é preciso falar e ter alguém que queira te ouvir, não é?
Eu sei que o mundo tem problema maiores e mais sérios mas todo mundo precisa de falar dos seus uma hora.
A salvação só pode estar fora desse asfalto, cara.
Quando a gente sair daqui conversa direito, sei lá.
Porque com 23 anos eu ainda sou forte, resistente e tão cego quanto o meu pai.

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