Revisitando um clássico: toda psicodelia da mosca e de Walter Franco, ou não

por - 12:05

Walter Franco é um daqueles cantores populares que receberam a alcunha de “Maldito”, um erro crasso de sua geração, ao ser chamado de louco (entre outros termos). Talvez por ser uma das cabeças que pensavam diferente das demais, tanto em suas letras, quanto em suas canções, muito a frente do seu tempo. Em Ou Não, seu segundo disco lançado em 1973, ele conseguiu compilar suas melhores músicas em um dos melhores registros da música brasileira feitos até hoje. Tanto que algumas de suas composições são de conhecimento popular, mesmo que o Walter não possa ser chamado de um cantor popular, já que ele pouco toca em rádio, ou tem seu reconhecimento em novelas da Globo (apesar de ter rolado algumas na época, mas hoje, só Robertão) .


Ou Não, ou o disco da mosca, por conta de sua capa minimalistaa e incrível, é um passeio por toda psicodelia contida na vanguarda da música feita no Brasil, recheado de linhas de baixos carregadas, uma viola pra acompanhar e uma percussão/bateria pouco usual. A primeira faixa do disco "Mixturação", já tenta explicar como funciona a cabeça, o som, a imaginação deste grande artista, que usava a voz como mais um instrumento em diversos momentos das 10 faixas do disco, com diversos efeitos nos vocais. Em letras simples, mas carregadas de melancolia e duplo significado, ou subjetividade interpretativa, tal qual "No Fundo do Poço", quando diz que “quem passar por cima do muro, vai ver que tudo é tão simples e profundo”.



Das minhas canções preferidas deste disco, na sequencia, temos "Flexa", onde o uso de onomatopeias é genial, em meio a efeitos sonoros (vocais) ou utilizando percussões dentro do estúdio. Deve ter sido uma doideira a gravação. "Me Deixe Mudo", uma das letras mais sinceras do compositor Walter Franco, onde ele diz “Seja o avesso, seja a metade, se for começo. Fique a vontade e não me pergunte, não me responda, não me procure, não se espante, não diga nada”, convidando todos a adentrarem e participarem desta ode sonora produzida por ele de coração e cabeças abertas.


Em "Xaxados e Perdidos", o músico e seu bando mostram outras verves sonoras seguidas por ele, numa música digna do rei do baião, mas com letras menos amarradas, e com um trocadilho sensacional (desde o título) e uma mudança de nuance absurdamente experimental do meio para o final da canção. "Vão de Boca" remete diretamente a "Mixturação" (eu quero que esse afeto saia), onde mais uma vez a letra parece funcionar como uma indireta (ou direta mesmo) para os que não entendem o músico e ele não parece ligar muito pra isso. Fechando o disco temos "Cabeça", que começa com palavras soltas, remetendo a letra (tal qual o final de "Cabeção", da banda Cidadão Instigado. Descobriu de onde veio aquilo agora?). É a faixa mais difícil e psicodélica do disco, parafraseando Walter “sua cabeça pode explodir, ou não”. Você não pode passar por sua vida sem ouvir pelo menos uma vez esse belo registro da música psicodélica brasileira, que influenciou e continua influenciando diversos artistas desta nova cena de música torta feita no Brasil.


Baixe: Walter Franco - Ou não (1973)


Participam do “Ou não”, os músicos Américo (acordeon), Diógenes Burani Digrado Filho (percussões geniais), Rodolpho Grani Júnior (contrabaixo, violão aço, baixo elétrico), além do Walter Franco (Violão e vocais). O disco conta com a produção de Walter Silva e Rogério Duprat e foi relançado em CD numa edição dupla, na serie “Dois Momentos” (junto com Revolver, disco de 1975) por Charles Gavin dos Titãs. Além deste disco, você pode baixar o Revolver e Vela Branca neste link, para conhecer melhor um dos grandes artistas nacionais.


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1 comentários

  1. Belo texto! Parabéns! Walter Franco é muito tudo! ;)

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