"Reflexões sobre Sebastiana"

por - 16:08

cronica sebastiana


Como uma criança fugindo do bicho papão, tentei só fechar os olhos pra ver se o assunto sumia, mas ele durou bem mais do que imaginei. Isso porque alguns dizem ter sido irrelevante. E talvez exatamente por isso fez tanto barulho por aí. O caso Nana Gouveia não foi o primeiro e nem vai ser o último a pipocar por aí por uma questão bizarro-nacionalista por parte de um grupo de pessoas que realmente se sentiu ofendido pela brincadeira (ao menos eu interpreto assim) feita pela musa. Porque sempre que falamos de uma questão internacional, não importa de que natureza, as pessoas se sentem no direito de opinar em nome de uma nação inteira. Somos 180 milhões, mais ou menos, cada um pode falar por si próprio. Se cada um vota por si próprio, acho que seguramos a bronca de ter, ou não, uma opinião.


O problema do caso em si, ao menos a meu ver, não foi o acontecido, mas as proporções que o acontecido tomou. Sabemos que tem gente que adora aproveitar as oportunidades que a vida oferece e que gosta de registrar estes momentos com fervor, como aquela sua colega de escola que foi pra Disney e tirou foto até da lixeira. Sebastiana Gouveia também é um ser humano, só para lembrarmos, portanto pode tirar fotos do que bem entender quando não está numa situação em que não está habituada, correto? Em termos. Um furacão não está comumente associado ao Brasil, terra da mulher bonita, do avião e da laranja. Mas não por isso a novidade ganha tom de atração turística. Alguns países costumam preservar destroços ou danos causados por algo que historicamente foi importante, mas catástrofes naturais não entram nesta gama.


Por outro lado, o agravante de sua atitude visivelmente turista é o fato de ela ser o que chamamos de sub-celebridade, cuja relevância no cenário cultural é baixa. Por serem considerados os “semi-deuses” da cultura, estes estão mais próximos de nós, mortais usuários de calças jeans, portanto, supostamente mais vulneráveis a nossos ataques. Nestas condições, fica fácil julgar condutas de pessoas a seus próprios critérios, já que meio mundo adora dar uma de síndica velha de condomínio. Mas pensemos. Ainda que alguém seja tão irrelevante no cenário cultural e tenha tomado uma atitude irrelevante como a de fotografar destroços de uma catástrofe natural, devemos comentar a relevância destes fatores a um nível subatômico na intenção de extinguir comportamentos considerados incomuns para os padrões da sociedade branca, cristã e capitalista? Em resumo, o que comentar? Nada.


E quanto ao chorume que o caso fez escorrer? Simplesmente lamentável. Uma coisa que costumava fazer antigamente era ler os comentários da notícia, se o site permitisse tal, e neste caso só pude observar casos impressionantes de xenofobia a brasileiros por próprios. Não é impressionante como brasileiro adora falar mal de brasileiro no exterior? Isso quando brasileiro não fala mal de brasileiro aqui mesmo no Brasil. Veja bem, não estou dizendo que a atitude de Sebastiana foi louvável ou digna de aplausos e desfiles de orgulho nacional, mas estou dizendo que jogar bosta nela não fará ninguém mais ou menos brasileiro que ela. Aliás, isso é outra coisa que eu nunca entenderei. Tem gente no Brasil que fala mal de brasileiros e adora dizer que o Brasil é uma merda, mas no fim das contas difama àquele que sai do Brasil com insultos dos mais baixos níveis. Mas enfim, não quero me estender em meus dilemas pátrio-ideológicos.


Por fim, espero que a reflexão tenha valido de algo. Por mais que Sebastiana tenha agido como turista, acredito que a culpa do incidente foi o ódio que muitos sustentam pela quase-fama alheia. Não gosto de atribuir culpa a ninguém, até porque isso não resolve nada e cria um clima muito pesado para a continuidade das relações amistosas entre as pessoas, porém, o jornalismo diplomado nesta onda foi meio abutre. Pegaram a menina pra ser o bode expiatório de uma cobertura nefasta ou de uma tentativa de encobrir fatos mais relevantes. São Paulo está mal das pernas, uma porra dum tornado passou por New York, lugares estavam alagados no sul do Brasil ate pouco tempo atrás. Tem muito mais coisa acontecendo no universo. Sebastiana, tire suas fotos aí de boa. Mas gostar de “hurricane” é complicado, convenhamos.


cronica sebastiana

Você também pode gostar

1 comentários