A (in)falibilidade dos 'super-humanos' de Ziraldo

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Heróis com um zero à esquerda tornam-se Zeróis. Seres que transitam num cenário onde a necessidade de salvar o mundo é tão importante quanto satisfazer a esposa na cama ou lavar uma pilha de roupas sujas. Imortais e mutáveis, mas também humanos suscetíveis a erros, personagens como Super-Homem, Fantasma, Capitão América, Batman ou Tarzan já fazem parte do imaginário dos que possuem um conhecimento básico de quadrinhos. Icônicos, são criações, que, para muitos, representaram a porta de entrada para esse universo. Que o diga Ziraldo. Com os primeiros esboços surgidos na infância, ainda pelos anos 40, na pequena Caratinga (MG), os Zeróis tiveram sua primeira aparição oficial cerca de 20 anos depois, quando o artista decide-se mudar para o Rio de Janeiro, centro dos acontecimentos, tornando-se um dos cartunistas e chargistas mais atuantes de sua época.


No ano em que comemora 80 anos de vida, Ziraldo ganha uma importante homenagem: uma compilação do que provavelmente foi um de seus primeiros trabalhos de relevância em edição de luxo. Com textos explicativos da roteirista Maria de Gessy – sua parceira em vários trabalhos – e comentários do próprio cartunista em formato de legendas, Os Zeróis (Globo Livros) traça um panorama desse trabalho, desde os primeiros traços na revista Fatos e Fotos (1968), passando pelo Jornal do Brasil (1967-68) e O Pasquim (1969) até as últimas aparições na imprensa brasileira, através da extinta revista Manchete (1999). Durante a década de 1960, tais personagens representavam uma fina e irônica discordância à efervescência cultural e comportamental do momento. Algumas das “más qualidades” detectadas nos heróis americanos das HQ's eram as mesmas encontradas no governo ditatorial brasileiro – a tal “força” e “onipotência” dos militares. Em plena vigência do regime, esses super-heróis faziam uma crítica bem-humorada e irreverente, que passava despercebida pela censura.


Parte do livro também se dedica à repercussão internacional que tiveram os Zeróis em prestigiosas publicações, como a revista francesa Plexus, na qual Ziraldo figurou como colaborador ao lado de nomes como Picasso, Salvador Dalí, Ionesco, Sternberg, para citar alguns. Um de seus desenhos mais famosos – a releitura do famoso grito de Tarzan ao lado de Jane – foi plagiada e pirateada em cartuns e pôsteres por todo o mundo. Ele então se torna o artista gráfico brasileiro mais publicado pelo principal anuário de design, a revista Graphis, publicada na Suíça. Em 1969, recebe o Oscar Internacional de Humor, no 32º Salão Internacional de Caricaturas de Bruxelas, e o prêmio Merghantealler, patrocinado pela Associação Interamericana de Imprensa. Em 2008, ganha o VI Prêmio Ibero-Americano de Humor Gráfico Quevedos, um dos prêmios mais importantes de sua carreira.


QUADRO A QUADRO – A partir de 2008, Ziraldo passa a realizar uma série de experimentações nas telas grandes e os Zeróis surgem novamente em sua cabeça como principal motivação para a mais nova expressão de sua carreira: a pintura em cavaletes. Então, reinterpreta quadros ícones da Pop Art, como a Marilyn Monroe de Andy Warhol, bem como imagens famosas tal qual a fotografia de Alfred Eisenstaedt, “The Kiss”, ou o “pintor da solidão americana”, Edward Hopper.


Quase cinco décadas depois, os Zeróis, transpostos hoje para as imensas telas em acrílico das galerias de arte, “envelhecem” ao lado de seu criador, mas continuam relevantes. “O ridículo existente por trás do mito americano do poder, da força e da invencibilidade, evidenciado pela síntese visual do artista, permanece como uma leitura possível no momento presente, além, é claro, de demonstrar que a História e seu ator, o ser-humano, se repetem indefinidamente. Mudam apenas os intérpretes e os cenários”, comenta Gessy, em uma de suas passagens.


* Texto publicado na Continente Online.

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