"Sobre perder uma vida e não ter 'continue'"

por - 16:03

cronica morte


Quando era bem pequeno, lembro que adorava esmagar formigas. Não por me sentir superior a elas ou por achar que elas tinham que morrer, até porque naquele tempo não compreendia a morte como acho que compreendo hoje. Achava fascinante a ideia de que um ser tão pequenino pudesse desaparecer debaixo de meus dedinhos infantis de salsicha. Enquanto meu pai fumava um de seus cigarros nojentos, provavelmente de baixíssima qualidade, ele observava todo o movimento infanto-formicida, mas nunca comentava nada. Só pra posar de sábio mesmo. Até que um dia perguntei o que acontecia com as formigas que esmagava inocentemente (juro, era inocente) uma a uma. “Elas morrem”, ele respondeu. Não sei se compreendi o sentido da frase naquela pouca idade, mas não fazia muita diferença para uma criança de quatro ou cinco anos.



Por volta dos nove, tive um hamster. Animais de estimação são ótimos para ensinar moral e valores às crianças, talvez por isso muitos pais optem por tê-los. Por três anos, Ifigênia (sempre odiei nomes americanizados ou nomes babacóides), foi a mascote de meus sonhos. Era pequena, não fazia barulho, assustava a todos com seus dentes extremamente afiados e uma graciosidade estonteante ao roer sementes de girassol. Era uma gracinha! Até que ela morreu também. Ela viveu por cinco anos, o que é bastante para a espécie, então foi constatada sua morte por velhice. “Tudo que está vivo um dia morrerá”, disse minha mãe. Por mais estranho que isso soasse para mim na época, era a mais pura verdade. Pessoas morrem, animais morrem, tudo morre ou morrerá um dia. Parece até que esquecemos disso as vezes.



Sempre que alguma personalidade morre, sinto como se as pessoas entrassem numa onda de desespero. Imagino que nem seja pela personalidade em si, mas pelo fato lhes fazerem lembrar que um dia eles também irão. Para onde vamos quando morremos? Não faço a menor ideia, mas prefiro descobrir depois. Será que é daí que vem aquele ditado sobre a curiosidade matar o gato? Possível. Se bem que dizem que ele tem sete vidas, nove nos Estados Unidos. É triste como a desigualdade sócio-econômico-etno-global afeta até os felinos de diferentes partes da Terra.



Niemeyer morreu com 104 anos. O que ainda me surpreende é que a expectativa de vida do ser humano é de aproximadamente setenta anos. O cara sambou na cara da ciência por mais de trinta anos e ainda assim a galera ficou chocada quando ele morreu? Talvez meu comentário esteja sendo frio, mas a partir do momento que você tem uma saúde frágil por conta de uma idade avançada, não importa o quanto você seja importante para a história da humanidade, você um dia ou outro vai perecer. E isso não necessariamente será uma coisa ruim. Morte é descanso. Dormir por um tempo, talvez voltar como um animalzinho de estimação (ser hamster deve ser muito de boa). Depende da sua cultura. Um dia iremos todos para a vala, mas não por isso devemos ficar tristes. Saudosismo é bom, mas temos que maneirar. Enterra, crema, chora um pouquinho, mas toca a vida pra frente que por mais que o passado seja glorioso, ele não preenche as brancas folhas do futuro. A não ser que você esteja colando na prova.


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