Iconili e o florescer tropical da música independente

por - 15:04

Iconili


É bizarro como às vezes parece que as descobertas boas da vida acontecem por acaso. Era algum ponto nas alturas da passagem entre a noite de sexta feira e a manhã de sábado, dias 14 e 15 de setembro do ano passado quando comecei a ouvir um batuque tribal e desenfreado. Eu estava no Festival Noite Branca, uma iniciativa muito bacana que trouxe música ao vivo e arte em geral ao Parque Municipal de Belo Horizonte numa evento memorável. Prosseguindo entre a multidão inesperada e compacta de pessoas, meus ouvidos me guiaram atrás de uma batida afro encorpada de um suingue brasileirão que eu não sabia dizer ao certo de onde vinha. Tudo aconteceu muito rápido: um amontoado selvagem de corpos se balançava e dançava loucamente das formas mais inusitadas possíveis ao redor do coreto do parque. Puxei meu amigo pelo braço e entramos no meio do ritual. Nenhum de nós sabia dançar, mas, e daí? As pessoas se moviam como cobras, performers improvisados de dança moderna se deixavam levar completamente tresloucados e extasiados pelo som que tocava. Lá em cima, a confusão harmônica de integrantes do Iconili tocava.


Naquele dia acordei pro som dos caras e percebi que já tinha assistido a outro show deles, num outro local. A verdade é que a localização da apresentação não importa muito. A musica do Iconili te leva a tempos remotos do Egito, aos clubes de jazz norte-americanos, às senzalas brasileiras e a outros incontáveis lugares e culturas do mundo. Ao invés de definir, é muito mais simples (e imensamente mais agradável!) dar uma sacada no EP novo deles, Tupi Novo Mundo, que é uma das promessas mineiras para a musica brasileira.


Tendo na cabeça que os caras acabaram de lançar o novo EP, algumas dúvidas sobre como sustentar uma relação em uma banda com onze membros e querendo trocar uma ideia sobre afrobeat, fiz uma entrevista com o Victor (baixo e trompete), que vocês podem ler abaixo.


Sei que vocês lançaram um álbum há uns dois anos atrás, se não me engano, pelo pessoal da Serrasônica. Quais foram as diferenças entre o processo de gravação desse primeiro álbum e do Tupi Novo Mundo?


As diferenças existem na formação da banda, na maturidade, nas pessoas envolvidas no processo e na estrutura. A banda era outra na época, os sopros não eram tão presentes quanto são nesse último trabalho, eles ocupavam mais os espaços de solos, eu ainda tocava baixo, Pedro tocava bateria. Isso tudo influencia em um resultado de composição e gravação, o fato de cada um se expressar com seu instrumento em relação aos outros integrantes influencia muito o resultado final, por exemplo, um acorde de guitarra do Branco (Guitarra e Theremin) influencia o que o André vai tocar. Se agora nesse meio temos mais seis integrantes, é outra história acontecendo. Quanto à maturidade o nosso primeiro trabalho, Iconili, foi um primeiro contato com um estúdio grande. O Serrassônica tem uma estrutura maravilhosa, mas a maioria dos integrantes nunca tinha conhecido um estúdio de perto, então foi um processo de muito tato, não sabíamos direito onde pisar, o que usar. As próprias composições carregavam essa cara de experimentação, elas são uma soma de tudo que banda tinha até o momento então em função disso não houve muita ousadia em timbres, arranjos, direção. Por questões de mercado decidimos fazer um segundo trabalho completamente independente, isso fez total diferença, essa escolha nos fez mais proativos como artistas. Pesquisamos muito, quanto a questões técnicas, aprendemos mais, tomamos mais conta do nosso trabalho, trabalhamos muito mais. O EP foi gravado em um estúdio pequeno, dos amigos, Thiago Correa e Henrique Matheus, da banda mineira Transmissor. Descobrimos que não é a estrutura que determina uma qualidade artística e acabou que esse disco soa muito mais ousado que o primeiro. Ouvimos diversos elogios sobre os timbres dos instrumentos, arranjos, aprendemos muito com Thiago e Henrique. Sacamos que não existe uma fórmula pra fazer as coisas, cada gravação é uma história e os dois valorizaram e potencializaram muito bem as músicas para o EP. Outra questão foi a entrada de novos integrantes durante a gravação, Henrique Staino (sax tenor), Lucas Freitas (sax barítono), Willian Rosa (Baixo) e a volta de Pedro (Percussão). As músicas enriqueceram muito em questões de arranjos.


Sempre achei muito bacana e viajo quando vejo bigbands. Como é o processo de criação dividido entre tanta gente (são onze, né?) e como vocês lidaram com isso nesse ultimo trabalho? Tem como equilibrar as influências? Deve ser foda de encaixar tanta gente numa sala de estúdio...


O processo é completamente horizontal, cada um traz alguma ideia e o outro vai somando com outra. É claro que existe um senso de cada um do que acha que pode caber ou não, o que influencia isso é a relação entre as pessoas, não necessariamente um estilo que queremos seguir, as influências são muito mais de pessoas pra pessoas do que de um estilo musical. Isso que determinou o último trabalho, mas as coisas não acontecem de uma maneira muito clara, às vezes brigamos, nem todo mundo está em sintonia, afinal são onze pessoas e é complicado mesmo, mas tem dado certo e estamos curtindo.


E a parceria com o Kologbo, conta um pouco mais de como foi... o cara é um mito!


Foi uma loucura (risos)! Nós o conhecemos no Fela Day aqui em BH, através da Abayomy, ele veio fazer uma participação no show deles aqui em BH. Depois disso houve uma intenção da parte dele de gravar uma música com o Iconili. Corremos pro estúdio e fizemos umas gravações, sem muito formato, algo semelhante a uma jam, tendo Kologbo como maestro. Depois disso viajamos pra fazer os shows em SP e Rio, ele ainda tocou uma música com a gente no Circo Voador, daí ficamos mais próximos e veio a ideia de fazer um disco. Ficamos trabalhando com ele durante um mês aproximadamente, ele ficou hospedado na casa de alguns integrantes, nos ensinou o "Afrobeat Original" como ele mesmo diz. Aprendemos muito com ele e não pensamos muito onde ia parar, estávamos preocupados em aprender, não só questões musicais mas culturais, ouvimos boas histórias, saímos juntos, foi uma experiência extasiante. Tivemos também um choque cultural muito grande e foi uma relação complicada em alguns momentos, mas o Iconili nunca teve como norte fazer Afrobeat ao pé da letra: pensamos no Afrobeat como mais uma das influências, ele abrange a música, é algo histórico, político e social. Com o Kologbo temos no momento uma pré de algumas músicas que podem se tornar um EP ou disco, mas nossa intenção no momento é focar no trabalho da banda e carregar essa parceria como um trabalho paralelo.




[caption id="attachment_19018" align="aligncenter" width="640"]Iconili e Oghene Kologbo Iconili e Oghene Kologbo, por Barbara Magri[/caption]

Se eu não me engano, vocês tão juntos desde 2006. É isso mesmo? Como foi que vocês se conheceram e o que vocês acham que mudou no cenário musical de lá pra cá?

É, 2006 já tinha um esboço, mas não existia a intenção de ser uma banda, eram amigos que queriam fazer músicas juntos, daí depois que Pedro e eu entramos (2008/09) a coisa começou a mudar um pouco. Mas quem iniciou o processo foi André Orandi (teclado e sax) e Gustavo Cunha (guitarra e flauta), eles se conheceram em Diamantina e começaram a tocar juntos, depois veio Rafael Mandacaru (branco), Pedro tocando bateria e eu entrei depois assumindo o baixo. Os outros integrantes vieram através de amigos, Wesley (bateria) conheceu André em um show promovido pelo Rood Boss Sound System (roodboss.com), eles trouxeram o Jackie Bernard e montaram uma banda de apoio, com integrantes do Pequena Morte, Fusile, Iconili, etc., para realizar um show. Em seguida Wesley nos apresentou Rafa Nunes (percussão), Rafa nos apresentou a Nara Torres (percussão), eu chamei o Henrique Staino (sax tenor) pra alguns ensaios, Lucas Freitas (sax barítono) e Willian Rosa (baixo) vieram em seguida.


Quanto ao cenário musical acho que ele se tornou mais democrático no sentido de acessibilidade, muita gente tem mais acesso ao ouvinte, referências, história e culturas. Isso mudou a perspectiva de quem trabalha com a arte. Mas não é o suficiente pra coisa funcionar no mercado. O mainstream envolta do Los Hermanos marcou muito o cenário musical dessa geração, abriu os ouvidos e os olhos de muita gente, o que acontecia antes desse estouro tomou proporções maiores hoje. Mulheres Que Dizem Sim, Acabou La Tequila, contribuíram muito pra essa retomada da música Brasileira, das origens culturais e isso se tornou de uma certa forma eloquente no trabalho do Los Hermanos (salve as diferenças entre as bandas) alcançando um mainstream. Antes dos anos 2000 o cenário ainda se encontrava engessado em termos de acessibilidade à informação e conteúdo. A internet mudou isso, as pessoas ampliaram seu âmbito de acesso a discos, artistas, etc. Era um privilégio ouvir discos do Kraftwerk, hoje você só não ouve porque não quer. Então hoje parece um reflexo maior daquilo que aconteceu ali no sapatinho nos anos 90, no Rio em Pernambuco, que atingiu um mainstream com o Los Hermanos, por exemplo. Chico Science & Nação Zumbi já resgatava origens brasileiras antes disso e com certeza existe uma influência em toda a geração desse momento.


A gente vive depois dessa chuva, tudo era comparado ao Los Hermanos, ou Nação, naturalmente pelo mainstream. É um saco, hoje isso não acontece tanto, mas vejo a cena de hoje como um reflexo ampliado dessa época, Criolo, Tulipa, Mombojó. Parece que a coisa cresceu e se potencializou, o cenário musical brasileiro atual cresceu sem deixar de ser brasileiro, o que é lindo, existem muitas referências brasileiras embora seja rock, rap, pop. A cena se revela de uma maneira muito original absorvendo as origens brasileiras com um maior número de artistas e muita qualidade. Hoje existe muita carreira solo, ou nomes separados, parece que ficou difícil ter grupos grandes e eu me sinto orgulhoso de fazer parte de um grupo de 11 pessoas. Me sinto orgulhoso com essa união, embora difícil, acho que as pessoas precisam disso hoje, a maioria leva uma vida solitária, vão e voltam do trabalho pra casa, acho que o Iconili promove união na sua formação e no seu trabalho. No show as pessoas dançam e ficam unidas, elas estão lá pra celebrar aquele momento, juntas.


Iconili - Tupi Novo Mundo


Queria que você desse uma resumida no que o Tupi Novo Mundo representa pra vocês e gostaria de saber como tá sendo a reação do publico ao EP. Saiu tem pouquíssimo tempo e tem reportagem sobre pra todo lado!


O EP representa uma vitória pra gente, foi um trabalho que nos colocou em uma situação de proatividade, fazer a coisa acontecer acima de qualquer problema. Conceitualmente ele representa o que esperamos pro nosso futuro, algo ligado a nossas origens, uma responsabilidade maior com o nosso redor e união. Quanto às reportagens naturalmente ficamos muito felizes, ter reconhecimento depois de um trabalho é maravilhoso e as pessoas têm notado aspectos no EP que trabalhamos muito, como os timbres, o conceito e tudo de uma maneira natural. Tinha uma matéria no jornal "O Tempo" dizendo que o EP causava vício (risos). Ouvir isso nos deixa com uma gratidão imensa.


Vocês já tem agenda marcada pra 2013? Planos? E fica aqui um espaço pra caso vocês queiram deixar algum recado ou link ou qualquer coisa do tipo!


A agenda ainda não está completamente fechada, datas a definir, locais, etc. Mas por enquanto faremos alguns shows agora no início do ano, Tiradentes, Belo Horizonte e São Paulo. Aprovamos um projeto na Estadual de circulação que envolve Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro e Pernambuco.


Links:
Prefeito de BH
Site da banda
Tião Duá
Leonardo Marques

[youtube width="640" height="360"]http://www.youtube.com/watch?v=Jy9uNBhtkA0[/youtube]

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