Mente vazia num ônibus lotado: o celular não para de tocar

por - 12:08

Celular


O verão no Recife é insano, na real, o mês de janeiro é um absurdo de quente, Otto estava certo, é calor demais. Às sete da manhã você já consegue pegar um bronzeado impressionante quando exposto ao sol, os médicos que dizem que o horário danoso para ir à praia ou pegar sol é das 10 da manhã as quatro da tarde nunca estiveram em janeiro por aqui. Eis que estou eu numa parada sem proteção, com minha camisa preta do Justiceiro (eu não tenho noção, eu sei) quando vem o ônibus do sistema integrado, que por aqui nunca vai estar vazio, menos ainda nos horários de pico. Segundo os governantes e donos de empresa (que não andam de coletivo) a população já tem benefícios demais por conseguir andar em mais de um ônibus ou em outros tipos de transporte (metro) pagando apenas uma passagem. Ou seja, qual o problema em ficar no sol em pé parado no trânsito?


Adentrei no coletivo lotado e me posicionei em pé na parte traseira, vi um camarada de fone falando sozinho, foi quando percebi que ele falava ao telefone. Eu nunca vou me acostumar com o uso de fones de ouvido para falar ao celular, nem sei se um dia vou me acostumar com as tecnologias dos aparelhos. Engraçado que o telefone móvel fez com que nós tornássemos visíveis em todos os momentos do dia, já que teoricamente estamos sempre alcançáveis (se você for TIM, provavelmente estará fora de área em algum momento do dia). Isso também nos faz solitários, quando temos o aparelho e nunca recebemos um SMS ou qualquer ligação que seja, mas acredite quando eu digo que não tenho a mínima vontade de receber um telefonema dentro de um coletivo, acho bom ninguém querer falar comigo.



Tentei por meus fones de ouvido para ouvir música, mas confesso que não tenho o equilíbrio necessário para fazer isso em pé nas ruas esburacadas da Veneza brasileira. Eis que consigo uma vaga para sentar ao lado de uma mulher loira num vestido e com uma tatuagem no ombro, que estava falando no telefone no assento da janela. Pego o graphic novel do Neil Gaiman e Dave Mckean (A Trágica Comédia ou Cômica Tragédia de Mr.Punch) e tentei começar a leitura, quando ouço a conversa da mulher com (acho eu) uma outra mulher mais velha:


- mas ela foi praticamente criada lá em casa, principalmente depois que Gabriela nasceu. Hoje em dia Gabriela não deixa os filhos ir lá em casa... É mulher, droga é uma tristeza, mas a gente tenta fazer o que pode né?


Foi quando me lembrei dos fones e da música, resolvi ouvir o disco Ètant, do Andrei Machado, disco que gosto muito e fazia anos que não escutava, por isso joguei no player. Eu realmente não consigo ouvir músicas no shuffle, raras vezes me sinto satisfeito ouvindo faixas soltas, prefiro contemplar a obra por inteiro, começa então “Ecce Homo”, primeira música do disco, e eu consigo começar a leitura, mas no intervalo entre as faixas...


- por sinal, é bom você falar com ele, não nasci pra apanhar de homem...


Tem inicio “O Cemitério dos Deuses Mortos”, mas mesmo assim consigo ouvir:



- quando ele levantou a mão pra mim, tive vontade de bater nele, dar umas tapas na cara dele, fale com ele que se ele bater em mim de novo vai apanhar.


Aumento o volume para o máximo e consigo voltar para a obra do Gaiman em meio a duas músicas seguidas. Quando vai se iniciar “Prelúdio”, música mais lenta e baixinha do disco, eis que ouço novamente a moça (em outra ligação):


- Mulher, tais onde? Oush, então tu vai chegar lá antes de mim, ainda estou na Agamenon, pense no trânsito! Ah, eu fui com ela pras Virgens (bloco de carnaval da cidade de Olinda) no domingo, tu não sabe quem tava lá! O marido de Suellen, o que era gay na novela, pense num homem lindo... Ela tirou foto e se agarrou com ele lá né, disse que tinha que “conferir” o material...


Consigo focar novamente na leitura, “O Limiar da Eternidade” tocando, me entrego novamente ao livro, a paisagem e o balanço do busão. É quando tem início mais uma música com pouco barulho no começo, e eu escuto num tom um pouco mais baixo, porém audível (não sei se ela falava com a mesma pessoa de antes):


- Gozei gostoso ontem viu, pense que o homem tava com a porra, uma pegada quente, bem melhor que o corno...


Nesse momento, verifico mais uma vez se o volume do som está realmente no máximo, quando percebo que tenho que saltar no próximo ponto, já imaginando o que teria que ouvir no segundo ônibus até chegar no meu ponto final.


Você pode conhecer o músico Andrei Machado e ter acesso ao seus dois EPs neste link.

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1 comentários

  1. A tua história me fez lembrar de algo parecido que aconteceu comigo recentemente.
    Era uma daquelas conversas em que a pessoa fala tudo o que tem pra falar e dá um jeito de voltar ao ponto inicial e repete tudo o que já tinha dito, esse ciclo se repetiu umas quatro vezes durante o trajeto do ônibus. E como a pessoa estava sentada num banco atrás de mim, parecia que estava gritando no meu ouvido.
    Os fones não serviram pra muita coisa ...

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