O rap é compromisso e nunca foi viagem

por - 12:05

sabota_585


Era uma tarde de 2003, 2004, de um feriado prolongado e só sei disso porque não era nem um sábado, tão pouco um domingo, que meu primo chegou em casa com um porta-cd cheio de discos: alguns piratas, outros originais.


No meio de vários lançamentos da época, como uns volumes da lendária coletânea Espaço Rap, o álbum do Eminem e apenas o Ri Depois do Racionais (segunda disco do Nada Como Um Dia Após o Outro), havia ali um álbum original, com um desenho de um cara fazendo sinal de ‘fica quieto’, letras vermelhas, um morro de fundo e em fonte branca algo que me chamou a atenção:  Rap é Compromisso.


Perguntei ao meu primo qual era a daquele álbum e ele disse que era o Mano Sabotage, que era bom pra cacete e que deveríamos ouvir. Sim, um primo meu, um ano mais novo, acabou me apresentando as rimas de Mauro Mateus.


Colocamos para ouvir enquanto jogávamos Magic (eu jogava essa porra, e daí?), e logo quando ele começou a cantar que o rap era compromisso e não viagem, achei tudo muito do caralho: as rimas, a base, o modo que ele cantava e me chamou a atenção o Helião, que eu já conhecia do RZO.


Rap é Compromisso - Sabotage

O disco foi rolando, ele foi cantando alguns versos e íamos jogando e escutando, sem nenhum adulto encher o saco de verdade, só uns olhares meio “vish, tão ouvindo isso aí” - na época eu tinha 11, 12 anos e ele, involuntariamente, um ano a menos. Bateu na hora: o modo que ele retratava a quebrada, a vida na Zona Sul, que até então eu só conhecia pelos versos de outros grupos, era de um modo ímpar. Desde as tretas, à realidade que as pessoas que ali viviam eram submetidas.


Pode parecer forçado, mas com essa idade eu já entendia um pouco. “Homem na Estrada”, “Fim de Semana no Parque”, “Pânico na Zona Sul” e outros sons, tinham me feito abrir o olho para uma vida diferente da que eu vivia e não que eu era boy, mas um garoto de classe média baixa se comparado ao que Sabota cantava, vivia muito bem.


Hoje, dez anos depois de escutar Rap é Compromisso, não tenho dúvidas que esse é um dos melhores registros do gênero no país e que o Sabota abriu um leque de possibilidades para inúmeros rappers mostrarem seu trampo e me formou, tanto como cidadão, como consumidor musical.


A única coisa nisso tudo que me deixa triste, é saber que nunca irei ver um show dele, que não há mais a possibilidade de chegar no fim de uma apresentação, esperar o Sabota descer do palco, apertar a mão dele e agradece-lo do fundo do coração por tudo que seu disco, suas rimas e seu jeito humildão, trouxe para a minha vida. E lembrem-se, sempre, que o rap sempre será compromisso e nunca uma viagem.



Mais homenagens? Então segura!


Faixa a faixa com Daniel Ganjaman
Apuração do caso
Entrevista com Daniel Ganjaman
Homenagens póstumas

Você também pode gostar

0 comentários