Teatro das Bestas

por - 12:06

Der Blaue Engel


Assistindo a Der Blaue Engel, comecei a refletir sobre uma possível trama circular da estória passional do professor puritano, solitário e opressor Immanuel Rath (Emil Jannings), obcecado pela vedete Lola (Marlene Dietrich), e que desce ao grau mais baixo da dignidade por conta de sua paixão. A tragédia que testemunhamos nos cem minutos de filme talvez esconda em suas margens um fenômeno de repetição do enredo.


Um enredo pode extrapolar os limites temporais de um filme. O desfecho de uma trama, sem um final definido, por exemplo, pode continuar perambulando em nossas vidas para sempre, independentemente das duas horas em que passamos em uma sala de cinema. Abbas Kiarostami provoca isso em vários de seus filmes, enredos que nos acompanham para além do tempo/filme.


No caso de Der Blaue Engel, acompanhamos a descida ao inferno do professor Immanuel. No início do filme, a personagem é um moralista, professor respeitado, com status. Na defesa de sua moral intocável, vai até a boate Anjo Azul para afastar as influências libidinosas de seus alunos, mas se perde no caminho ao se apaixonar por Lola. Perde o emprego e a moral de outrora e segue a estrada com o grupo de artistas ao qual Lola pertence. Eles se casam mas Immanuel torna-se um peso na vida da vedete. Passa de professor a vendedor de cartões postais obscenos e depois se transforma num mísero palhaço deprimente. Até aí, parece ser um enredo trágico como qualquer um. Mas o diretor Josef von Sternberg exibe alguns indícios de que essa trama já fora usada por Lola antes, como se assistíssemos no tempo do filme apenas a uma entre as várias repetições da estória trágica.


Nos primeiros contatos entre Immanuel e Lola, surgem algumas personagens-chave que propõem a característica cíclica do enredo. Talvez a mais importante seja a do palhaço triste (Reinhold Bernt). O palhaço é a principal testemunha da queda de Immanuel. Além do olhar melancólico, o palhaço demonstra uma certa compaixão pelo professor perdido, acompanha cada passo errado de Immanuel, parece saber de seu destino trágico, mas é incapaz de alertar, parece traumatizado. Um grito parado no ar.


No momento em que Immanuel também se torna um palhaço melancólico, notamos que esse enredo já pertencera ao mudo do outro palhaço triste (Bernt), em outros tempos, antes do espaço físico da película. Os dois foram vítimas da vida ou de Lola.


A personagem de Dietrich é enigmática, indomável e sobretudo um anti símbolo sexual. Lola é uma mulher poderosa, seu estilo de vida livre é o que tira o chão de Immanuel. Ao contrário da atriz contemporânea Louise Brooks, Dietrich excita mais pela persona forte do que pelos dotes físicos. Immanuel, o palhaço triste, nós… todos nos tornamos fracos em sua presença. Assim, Lola quebra a rotina solitária do professor, o faz conhecer a vida de forma mais intensa, porém, mais arriscada.


Der Blaue Engel


Alguns presságios da tragédia se apresentam durante o filme. O mais significativo é na cena do casamento entre Immanuel e Lola. Após Kieper, o mágico (Kurt Gerron) fazer um tuque no qual faz surgir ovos de sua mão, Lola imita uma galinha. Entusiasmado com a brincadeira, Immanuel imita um galo feliz. Todos riem.


Após cinco anos de degradação do professor na companhia de artistas, Immanuel recebe a notícia de que o espetáculo fora convidado a retornar à sua cidade natal, na boate Anjo Azul. A volta do professor, agora em sua forma grotesca e decadente será a principal atração do espetáculo. Atormentado pelo fracasso, pela depressão, pela humilhação contínua, Immmanuel está prestes a explodir, está em seu limite.


A figura de Kieper, o mágico, se revela aos poucos um grande inimigo de Immanuel e também cúmplice de sua desgraça. Kieper leva uma sequência de tapas na cara dadas pelo professor no início do filme. O mágico, logo após o incidente, diz não guardar rancor e oferece a Immanuel um coquetel que o leva a embriaguez total; o palhaço triste apenas testemunha. Ao longo da decadência de Immanuel, Kieper se mostra cada vez mais rancoroso e hostil. Aproveita-se do momento de maior demonstração de felicidade do protagonista (a imitação de galo) para torturá-lo no final em um número tosco, no qual quebra ovos na testa do ex-professor, então palhaço decadente, que em seguida deve imitar novamente um galo.


O professor, já humilhado em sua cidade, vendo Lola flertar com um novo amor, surta em pleno palco, sua imitação de galo se transforma em um grito surtado de horror. Essa cena talvez seja uma das mais atormentadoras do cinema. O grito de Immanuel causa horror no público do Anjo Azul, no mágico, na esposa e seu novo amante (talvez o próximo a estrelar no teatro trágico da vida), sobretudo em nós, meros espectadores de sua desgraça.


Apesar do filme terminar com a última tentativa de dignidade de Immanuel, que caminha até a escola na qual lecionava para enfim morrer agarrado a uma mesa de professor na sala de aula, de madrugada. Lola continua a cantar e a nos apaixonar, nos levando aos passos tortos, seja dentro do filme ou nos enredos da vida. Voltando à primeira cena do filme, vemos uma mulher lavando o vitral do Anjo Azul, no qual está pendurado o cartaz “Lola Lola”, como se lava a vida para seguir em frente, como se diz: lavou tá novo, como se a vida continuasse a seguir, com dramas humanos que se repetem.


Texto escrito originalmente no blog O Olho Derramado

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