Velhas memórias

por - 15:06

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Ele levantou-se cedinho, antes da esposa, coisa que raramente fazia. Beijou-a no rosto com carinho. Preparou o café, tirou apenas a sua xícara e deixou-o descansar no bule. Encontrou o cachorro dormindo na porta da sala e o animal levantou os olhos, ansioso. Mas hoje não foi enxotado, como de costume. O dono se abaixou, acariciou sua cabeça e despediu-se como pra sempre. Vestiu seu sobretudo, seu chapéu, e fechou a porta atrás de si.


Dirigiu-se com um passo decidido à delegacia de polícia que ficava a poucos blocos dali. Disse ao policial que quase dormia na bancada, já no final do turno da noite: “Quero confessar um crime”.


O policial olhou-o desconfiado, batendo os dedos na mesa. Não acreditava que o senhor, que aparentava pelo menos setenta anos, pudesse ter cometido um crime. Parecia apenas querer atenção. Decidido que não era nada, pediu que o homem procurasse o detetive escalado e se resolvesse com ele.


O senhor, inabalado, entrou na delegacia. Encontrou um pequeno homem, calvo, camiseta branca e suspensórios, debruçado sobre uma mesa abarrotada de papéis, copos de água e bitucas de cigarro.


“Detetive?” – O pequeno homem levantou os olhos e disse: “Sim?”, enquanto tentava limpar seus óculos tartaruga.


“Eu gostaria de confessar um crime” e sentou-se, colocando o chapéu sobre suas pernas. Seu olhar pendia sob o peso de sua culpa.


“Pode falar”. O pequeno homem olhava com curiosidade para o senhor que lhe lembrava do pai. Puxou o maço do bolso e tentava tirar um cigarro sem desviar os olhos.


“Em 1954 fui chamado para o exército. Entenda, naquela época eu ainda era jovem…” O senhor falava com a certeza de quem tinha o discurso preparado. Ainda assim, não conseguia conter a emoção. “Era muito bonito na juventude, eu. Tinha algumas namoradas, o senhor sabe? Mas nenhuma igual Maria. Ela era o amor da minha vida.” O detetive conseguia notar as primeiras lágrimas se formarem no senhor que em nenhum momento encarou-o diretamente, sempre olhando o chão. O pequeno homem tragava com calma, tentando avaliar o que poderia ter acontecido de tão grave para trazer tanta culpa para este pobre senhor.


“Passei um ano no exército. Acordava cedo todos os dias, nunca fui disso, comia mal, era obrigado a limpar o banheiro dos oficiais, o inferno na terra. Ninguém gostava muito de mim por eu ser mulato, o senhor sabe? Mas eu trocava cartas com a minha Maria e isso me mantinha bem, saudável.”


O detetive começava a lembrar cada vez mais do próprio pai. Ele também fez parte do exército, mas, diferente desse senhor, tornou-se oficial. Foi graças a ele que o pequeno homem conseguiu subir na corporação. Seu pai dizia que eram as forças armadas ou a polícia. Ele preferiu a polícia, não podia se imaginar tendo que ir à guerra.


“Maria mandou carta dizendo que seu pai não queria mais que ela trocasse correspondência comigo e iria casá-la com um jovem boa-praça da vizinhança. O senhor entenda, detetive, eu não aguentei essa notícia. Era só Maria que me fazia feliz. Eu juntei minhas trouxas, o dinheiro que tinha economizado e me escondi num caminhão da lavanderia. Eu fugi do exército, o senhor entende? Fugi das minhas obrigações com o país para casar com Maria.”


O detetive, perdido em memórias, voltou de susto quando o senhor olhou-o pela primeira vez. Escorriam lágrimas daqueles olhos pretos de mulato, podia sentir a sua culpa. Mas o pequeno homem não pode conter o riso.


“Isso faz muito tempo, senhor!” – O detetive estava tão feliz de não precisar prender o homem que não percebeu que suas risadas poderiam ser mal entendidas.


“Mas detetive” tentou dizer o senhor, que foi pego de surpresa. Esperava estar sendo levado para uma cela.


O detetive o interrompeu: “Olha, o senhor me promete que nunca mais fará isso e está tudo certo. Pode voltar para casa tranquilo” dizia o pequeno homem, sem conter o sorriso. E então, ainda soltando seus últimos suspiros de alívio e riso contido, girou sua cadeira, voltou-se para sua mesa e continuou a fazer o que fazia antes de sua peculiar visita.


O senhor levantou-se sem saber o que pensar. Encarava as costas do detetive. Colocou o chapéu na cabeça, deu meia volta e foi em direção à saída. Nem ouviu o primeiro policial que o atendeu chamá-lo, para saber se estava tudo bem.


Caminhou para casa mergulhado em nostalgia. O senhor não sabia o que sentir. Viveu mais da metade de sua vida em culpa, pelo crime que havia cometido. Criou filhos e netos sem poder encarar-se no espelho diante do que havia feito. Nunca pode discutir ética e moral com ninguém, pois não se achava digno. E agora aquele homenzinho… ria de sua culpa. A culpa que tomou boa parte de seus dias durante quase toda sua vida.


Chegando em casa, pendurou o sobretudo e o chapéu. Ainda olhava para o chão, sem conseguir fazer sentido de seus sentimentos. Foi ao quarto, onde a mulher ainda dormia e sentou-se na cama. Apertava as mãos entre as pernas, olhando para o chão. Passados bons quinze minutos, se levantou e foi até o guarda roupa.


Abriu a última gaveta, onde guardava seu uniforme do exército junto da Colt.17 que era padrão na época. Mantinha a arma carregada e o uniforme sem nenhuma ruga. Deu dois tiros nas costas de Maria, que morreu dormindo. O cachorro, assustado com o barulho, correu para o quarto e levou o terceiro. O homem sentou-se novamente na cama, que aos poucos se encharcava de sangue e esperou até que a polícia chegasse para levá-lo a prisão.

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