Discutindo música e negócios no Porto Musical 2013

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Porto-Musical-2013

Durante três dias várias pessoas do Brasil e do mundo estiveram reunidos para discutir o negócio da música dentro da edição 2013 do Porto Musical no Recife. Essa foi a primeira vez que nós colamos no evento, e a parte mais interessante para nós foi a troca de experiências mundiais e a tal profissionalização do “bussiness” musical, muito difícil de ver na cena independente nacional. Por mais pejorativo que possa soar, é de enorme importância a participação de artistas do cenário independente nesses meios, não só para fazer contatos, mas também para pensar um pouco diferente o modus operandi de sua banda ou carreira musical. Eis um pequeno resumo do que achamos relevante do Porto Musical 2013.


Se existia um jeito melhor de começar o evento eu não saberia dizer, pois logo na primeira mesa redonda tínhamos representantes de seis festivais de diversos locais do mundo e estilos diferentes falando sobre a importância de seus eventos para o desenvolvimento de suas regiões. Boa parte dos festivais escolhidos já são eventos consolidados, com mais de 20 edições, as exceções foram Jonathas de Vargas, representando o Lollapalooza Brasil, que vai apenas para a segunda edição esse ano (mas a versão americana já existe desde 1993) e José da Silva, do Kriol Jazz Festival, que acontece em Cabo Verde.


Porto Musical01


Mesas redondas são divertidas, com pessoas de diversos locais do mundo ficam mais divertidas ainda, por demonstrar as diferenças culturais, seja para apresentar seu festival para o público, ou para demonstrar a abertura a novos artistas brasileiros. A Danni Colgan, por exemplo, do Sydney Festival, evento que acontece em cidades chaves da Austrália e já tem 26 anos, não pareceu ter interesse na música brasileira por lá, devido a enorme distância e custos de passagens. Já o dinamarquês Peter Hvalkof, representando o Roskilde Festival, que acontece desde 1971, falou sobre a necessidade de marcas locais parceiras e da criação de tours para que as bandas passem por outros locais próximos ao do Festival. Paulo André, responsável pelo Festival Abril Pro Rock, foi o representante local na mesa e falou sobre as experiências que teve como agente de bandas em tours pela Europa, e o que seria importante para o artista independente brasileiro numa primeira tour fora do país.


José e Fruzsina


Um dos principais destaques da mesa redonda foi a húngara Fruzsina Szpe, representando o Sziget Festival, que acontece todo ano durante uma semana em uma ilha que fica no meio da capital da Hungria, com público diário entre 60-80 mil pessoas. Um momento relevante na fala dela para quem vive no Brasil, onde praticamente todos os festivais independentes contam com apoio de algum edital público, foi quando ela deixou claro que o evento é totalmente privado, sem nenhum apoio do governo local, mostrando que isso era uma atitude política. Outro destaque, mais pelo evento em si que pelo seu representante, foi o Kriol Jazz Festival, que já levou artistas do Brasil como Yamandu Costa e privilegia a música criola (termo usado pelo José) em sua grade de apresentações, mas dando sempre espaço para sonoridades diferentes e relevantes de qualquer lugar do mundo. Em Cabo Verde, boa partes dos eventos são gratuitos, e no Kriol eles fazem questão de cobrar ingressos, o que também pareceu ser uma atitude política da organização.


Danka Van Dodewaard


As tardes eram das conferências e preciso dizer que no primeiro dia fiquei meio decepcionado. A primeira que conferi foi com o uruguaio Gabriel Turielle, falando sobre gerenciamento de carreiras musicais e o uso de estratégia e ferramentas digitais, ele mais falou sobre suas experiências e de relevante falou apenas sobre a “profissionalização” do RT, muito usada em outros locais da América Latina. No fim, parecia uma palestra de autoajuda, quando disse que o mais importante é a pessoa ser feliz. Depois fui conferir a holandesa Danka Van Dodewaard, especializada em festas brasileiras em Amsterdam, que parecia estar meio perdida em sua fala, mas que gerou uma boa discussão durante a abertura para o público e suas perguntas. Um comentário do Peter Hvalkof (que estava na plateia) foi interessante, quando falaram de ações estaduais, como a de Minas Gerais, que produziu compilações com artistas e distribuíram na última feira da Womex, segundo ele, seria mais interessante pegar o dinheiro gasto nas compilações e promoters e enviar dois ou três artistas locais para se apresentar por lá, pois chamaria mais atenção de todos. Concordo com ele.


Giordano Cabral


No segundo dia do Porto Musical, só estive durante o período da tarde para as conferências. A primeira que vi foi a de Giordano Cabral, falando sobre como a tecnologia digital pode mudar a indústria da música. Giordano tem empresas de mídia musical (uma delas a D' Accord) e soube dar bons exemplos de como a tecnologia pode mudar a indústria. Um momento bom da fala dele foi quando disse que é mais fácil conseguir trabalhos com artistas do outro lado do mundo do que no Brasil ou em Pernambuco, mesmo ele estando por aqui. Uma das justificativas, para ele, seria a falta de maturidade do artista nacional. A melhor conferência que vi durante o Porto foi a do inglês Lewis Robinson, responsável pelo selo Mais um Gringo, que mostrou entender e estar mais conectado com a música nacional do que muitos brasileiros. Ele já lançou vários artistas na Europa em suas compilações e deu algumas dicas de como os artistas independentes podem chegar ao mercado europeu, fazer tours e conseguir se promover na gringa.


Depois disso, era obrigatório conferir o showcase do Arto Lindsay, com participação do cantor pernambucano Siba e do músico R. Coelho, que juntos tiveram bons momentos. Ainda teve mais uma bela apresentação da banda Bixiga 70 em terras pernambucanas, com direito a homenagem a Luiz Gonzaga e diversos sons do primeiro disco do grupo.


Arto, Siba e Coelho


No terceiro e último dia do Porto Musical 2013, acompanhei apenas a Mesa Redonda sobre o lugar da música nos eventos esportivos internacionais, mas isso é papo para o Futebol de Bolso e minhas opiniões devem aparecer por lá em algum momento. De um modo geral, o Porto Musical é um evento interessante e que vem somar para uma melhor preparação para todas as plataformas musicais do Brasil, seja a parte de mídia, ou as bandas e músicos independentes. Lógico que algumas conferências acabaram caindo apenas para o lado comercial e venda de produtos com os quais os conferencistas trabalhavam (principalmente os brasileiros). Via-se claramente que o titulo da palestra era bem diferente do abordado na prática do momento, tornando algumas coisas desinteressantes (principalmente pra quem não curte o esquema publicitário da coisa ou não toma cerveja). Mas mesmo nessas conferências meio golpistas, pode-se tirar algumas considerações ou ter boas discussões ao final, quando o público pode participar de modo ativo e não passivo, como a maioria dos outros encontros.


PS: Todas as fotos retiradas do flickr do Porto Musical.

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