Na cova dos leões

por - 15:05

Na Cova dos Leões

"Você foi exilada e sabe muito bem disso"
"Eu estou procurando meus filhotes e não é você que vai me impedir", rugiu Safa, antes de iniciar sua corrida, avançando ainda mais para dentro do território de onde havia sido exilada, meses atrás.


A outra leoa seguia em seu encalço. Era mais jovem, mais rápida. Carregava um estômago satisfeito e água era abundante por onde vivia. Safa não comia direito há dias. Os poucos javalis que conseguia capturar - presas de pouca carne - os dava quase inteiros para seus filhotes, que se perderam enquanto ela saía para caçar. Sua boca era tão seca quanto a savana ao seu redor. A área em que, à essa época do ano, ainda havia água era território de seu antigo bando - para onde ela foi conduzida enquanto seguia o cheiro de seus filhotes, que sumiram enquanto ela caçava.


Safa era uma caçadora, quando o bando ainda era jovem. Foi a responsável pelo seu crescimento, sem saber que isso ainda a custaria. Fêmeas mais jovens surgiam, poucas tão forte quanto ela e nenhuma arriscava enfrentá-la. Ela contava também com a proteção dos machos, que não permitiriam disputas em seu território.


Os filhotes dos quais ela corria atrás não eram os seus primeiros. Há muito tempo ela havia engravidado de um dos machos do bando. Um dia, porém, enquanto os machos do bando patrulhavam as fronteiras do território, um leão nômade invadiu.


Leões nômades têm apenas um objetivo: procriar. E uma leoa só pode fazê-lo se ela não possuir nenhum filhote. Enquanto Safa dormia, o invasor matava seus filhotes. Ela acordou com os gritos do pequeno e avançou para cima do nômade, que já tinha a pata em cima de seu filhote, mas não havia nada que ela pudesse fazer. Leoas eram caçadoras; leões, lutadores. E o nômade era um lutador especialmente cruel.


Safa foi derrubada e, em seguida, estuprada. Os seus rugidos de dor foram o bastante para atrair os dois machos do bando, que não eram fortes o bastante para abater o leão inimigo antes que ele pudesse fugir.


Ela engravidou e o orgulho de seus machos estaria para sempre ferido. Eles não a protegiam mais e o número de fêmeas com idade o suficiente para desafiá-la crescia. Safa não se sentia mais segura em meio ao seu bando e abandonou-o, sendo assim exilada para sempre do território que ela havia ajudado a desenvolver.


Safa não iria ver seus filhotes morrer de novo. Ela corria o mais rápido que podia, mas ainda não era o bastante. A jovem ganhava distância e Safa percebeu que estaria em vantagem se desferisse o primeiro golpe.


A leoa virou, pegando de surpresa a inimiga com uma patada no focinho. Sua agilidade de caçadora ainda intacta. Antes que ela pudesse se recuperar da pancada, Safa pulou em cima dela, como fazia com suas presas. A outra fêmea podia ser mais jovem e estar alimentada, mas as garras de safa já haviam abatido muitos animais, seus dentes penetrado os mais diversos tipos de carne. Safa venceu a batalha, mas a sua idade mostrava: havia levado uma mordida profunda que só uma mandíbula forte e jovem poderia dar. Isso não teria acontecido há alguns anos. A jovem jazia morta ao seu lado.


O seu rugido de dor, porém, foi reconhecido pela sua prole, que veio ao seu encontro. Safa percebeu que se eles ainda estavam vivos - outros filhotes seriam mortos imediatamente - era porque o seu antigo bando ainda a respeitava. Mas se descobrissem de sua invasão e da leoa que havia matado, o pouco que restava também se esvairia. Safa saiu dali junto de seus filhos, em direção ao presente que havia conseguido na caça, horas antes.


Eles, famintos, correram em direção ao gnu morto que a mãe havia caçado. Seus dentes rasgavam a carne, quase que desesperados. Safa não comia. Ela apenas os lambia, em uma tentativa frustrada de limpar o sangue de seus focinhos enquanto eles mergulhavam a cabeça nas entranhas do animal. Desistindo, ela se deitou no chão, observando-os com amor. Tremia para afastar as moscas de sua ferida, que ainda sangrava, mas também pelo frio que alcançava-a de repente. Safa sorria porque seus filhotes estavam maduros o bastante para caçar sozinhos, daqui em diante. Ela havia os criado bem. Então fechou os olhos e deixou que o sono a derrubasse, enquanto ouvia o farfalhar da grama ao seu redor, os pequenos rugidos satisfeitos das crianças, as asas de uma águia voando à distância.

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1 comentários

  1. Gostei! Sou sua fã, desde que escrevia sobre baratas hehehehe

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