O lobo na porta da inércia

por - 14:04

3 porquinhos


6/2/2013. O dia tinha sido ok, as coisas estavam mansas. Me sentei na frente do computador por volta das 20h, me deixei levar pelas ondas da internet e parei uns minutos pra visitar o meu Soundcloud. Eu tento uns bicos de músico de vez em quando, mas o meu cenário anda meio parado. Não quero de forma alguma insinuar que a música brasileira anda parada, ou que não vejo gente de qualidade tanto aqui em Belo Horizonte quanto no resto do país. É claro, é óbvio que tem. Mas eu tenho também uma rixa minha com a forma de divulgação da música em geral, não só por essas nossas terras tupiniquins. É o quesito mercadológico e o esforço descomunal que artistas independentes tem de fazer para conseguir que o seu trabalho chegue aos ouvidos dos outros que me instiga. Às vezes me parece que o problema não tem solução, mesmo dentro de um meio “independente”, não existe real independência. É tanto aperto de mão, é tanto contato e amizade de interesse, é tanta acrobacia sendo feita... E se o ouvinte procurasse a música, pra dar uma variada?


Navegar o Soundcloud e outros perfis de música acaba sempre sendo uma experiência controversa. Tem a sensação de satisfação e orgulho de quando a gente descobre alguém novo, alguém que faz música de verdade, no sentido mais amplo que a expressão possa ter - porque música não é só canção, nem só verso e ritmo ou pegada. Música também é trilha sonora, é textura, são aquelas faixas que fluem por você como um rio e que deixam sua cabeça completamente fora do lugar quando acaba o som – e isso sempre serve de inspiração, não importa qual seja a sua área de atuação. Mas também tem a triste parte de perceber que só você e mais um grupo seleto ouviram essa ou aquela joia. Porque, honestamente, essa babaquice de “eu gostava disso antes de ser cool” é pura e simples necessidade de atenção. É como querer armazenar felicidade: se existe músico que não quer ser ouvido, eu admito que não conheço nenhum.

E é aí que as coisas ficam espantosas: a internet é um labirinto aberto. As coisas estão todas lá, pra quem quiser ler, ouvir, assistir. A questão é que às vezes, são coisas demais. Antigamente era fácil escolher as bandas pra se ouvir: “não tinha tanta opção”. A internet trouxe uma liberdade de escolha assombrosa, e parece que nos tornamos preguiçosos. O horizonte do público consumidor (se posso assim chamá-lo) mediano hoje vai tão “longe” quanto seu feed de notícias do Facebook consegue alcançar e convenhamos: num mundo de diversidade cultural como o Brasil dos dias de hoje, essa área de alcance não é nada. Tento mais uma vez: e se as pessoas procurassem bandas novas, artistas novos? E se alguém se cansasse da homogeneização de todas as áreas de entretenimento e tentasse descobrir coisas do seu gosto por conta própria?


Not_facebook_not_like_thumbs_down


É importante perceber que isso não é sobre música, ou sobre o comércio, ou sobre sites de internet. É sobre o ser humano ir se tornando cada vez mais o estereotipo da bola gigante e fétida de carne tomando uma cerveja e assistindo televisão por toda a eternidade. Movam-se. Façam alguma coisa. Vivam. Em todos os aspectos e áreas possíveis. Talvez a maior parte dos problemas do mundo não seja resultado da ação de um vilão, ou de um grupo de seres humanos diabólicos. Tá cada um exclusivamente preocupado em tirar o seu da reta, e objetos que estão parados...tendem a permanecer parados. A comodidade é uma droga, no sentido mais literal da palavra, e é por isso que o sistema permanece tão intacto: o homem confortável é um homem morto.


Muita gente satisfeita discordaria e chamaria isso tudo de paranoia ou inveja, e eles não estão completamente errados. A encheção de saco e o constante reclamar do insatisfeito são, ao mesmo tempo uma maldição e uma herança, e quanto a isso só me resta consentir. Vou pois escrever, transbordar os perfis das pessoas e continuar incomodando. Talvez assim algum moleque aprenda a se incomodar e fazer alguma coisa, nem que seja contra mim.


Admito que uma das minhas maiores vontades sempre foi a de ser músico, ser ouvido, conseguir passar minhas mensagens pra outras pessoas, conseguir deixar gente feliz ouvindo música. Mas quer saber? Se eu puder ajudar outras pessoas a fazerem o mesmo, tá de ótimo tamanho. E se a preguiça puder ser dissipada aos poucos, acho que não faz mal tentar levar ao alcance desses ouvintes alheios ao redor um pouco de música desconhecida. Esperem um monte de bandas que vocês nunca ouviram por aqui, e eu espero um pouco mais de atividade e (na utopia crua mesmo) um pouco menos de inércia no coração das pessoas. Olhei pra rua oito andares abaixo de mim e ninguém percebeu. As pessoas nunca olham pra cima mesmo.

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1 comentários

  1. Me senti incomodado nesse ponto, o máximo que consegui foi expandir o meu "feed" um pouco mais. Mas já é alguma coisa: http://www.facebook.com/groups/159981834113858/

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