O quarto poste de Ferreira

por - 14:06

[caption id="attachment_19500" align="aligncenter" width="435"]poste poste[/caption]

Já passavam das sete da noite e Ferreira, que havia acabado de sair de um ônibus apinhado, caminhava para casa, como fazia todos os dias. Era um homem comum, de feições ordinárias, vestido como era de se esperar: a camisa social para dentro da calça jeans, um cinto preto para amarrar aquele pedaço insosso de gente.


Eram sete os postes de luz, do início da rua até a sua casa. Ele contava-os sempre que chegava um pouco mais tarde. Passado os três primeiros, THACK, o quarto apagava-se logo quando Ferreira passava por debaixo. Ele carregava um esgar no canto da boca, o mesmo sorrisinho que se repetia há três anos, desde que se mudou para esse bairro na Zona Sul de São Paulo.


Ironicamente, quando o poste se apagava, acendia-se uma nova luz em seu dia. Ele trabalhava em um escritório comum, no centro, onde fazia um trabalho esquecível que o autor nunca poderia explicar para não matar seus leitores de tédio. Cumprimentava o porteiro do prédio da empresa todos os dias e até o chamava pelo nome, pra receber de volta um: "até mais, seu Gonçalves!". Masturbava-se durante o banho para a loira do RH ou a ruiva da contabilidade e estava na cama antes das dez, onde lia exemplares de Como Crescer em sua Profissão, Dez Dicas para ser Promovido, Técnica Infalível para Perder a Timidez, e afins.


Mas sua vida pacata e sem graça pouco o incomodava quando ele passava debaixo do poste e ouvia o THACK. A voz do seu chefe gritando, o barulho do ônibus, o silêncio que recebia quando comentava algo perto do bebedouro dissipava-se por completo quando ele escutava esse barulho, o mais satisfatório de seu dia.


Ele não sabia porque, ou como, isso acontecia. Quando notou que esse evento se repetia, duvidava da vizinha que morava na casa atrás do poste. Ela tinha duas filhas jovens e ele pensava que elas poderiam estar tirando um sarro bem elaborado da cara dele. A desconfiança esvaiu-se quando as viu brincando na rua repetidamente e o THACK ainda era escutado todos os dias. Incomodava-se tanto, no começo, que inclusive chamou a companhia elétrica para dar uma olhada e ele supervisionou todo o serviço. Diziam que não havia nada de errado com o poste, com a lâmpada e que ele deveria ir para casa dormir que já estava ficando tarde.


A irritação direcionada àquele poste absurdo foi passando com o tempo. Ferreira tentava ignorá-lo, mas o THACK penetrava os seus tímpanos e atrapalhava os seus pensamentos. E então ele passou a esperar o barulho. E ele passou a gostar do barulho. E o barulho, que nenhum morador além dele notava, passou a fazer parte de seu dia. A companhia elétrica poderia duvidar, os vizinhos podiam não dar a mínima, mas ele sabia que o poste apagava-se numa breve saudação quando ele passava. Durava apenas alguns segundos - o tempo de chegar à porta e colocar a chave na fechadura -, mas ele sorria de volta pois sabia que Deus, ou o Diabo, observava-o e sabia quem ele era.


Era o vigésimo nono dia de fevereiro, um ano bissexto, sinal de mau agouro para os superticiosos. Ferreira não era um desses, se é que sabia o que isso significava e fazia o caminho para casa no ônibus das dezoito horas e quarenta e sete minutos. Bastou puxar a cordinha e o seu estômago já se retorcia todo.


Hoje havia sido um dia particularmente estressante: encontrou a loira do RH perto do banheiro e, lembrando das dicas lidas no dia anterior, criou coragem para falar com ela, que nem se deu ao trabalho de responder. Seu chefe estava mais irritado que o normal e gritava uns dez decibéis acima do volume costumeiro. Diziam as fofocas de corredor que ele havia sido descoberto pela esposa transando com a secretária.


Descendo do ônibus, a sensação de expectativa que afligia o seu corpo continuava. Desprovido de esposa, filhos, dinheiro, beleza, e talvez até de uma personalidade interessante, tudo o que restava era o THACK. Ele já podia ouvir os ecos de seu barulho favorito enquanto percorria o primeiro e segundo postes da rua, já apressando o passo. A excitação, enquanto atravessava o terceiro, tomava conta de todo o seu corpo. Ele estava para pisar debaixo do quarto poste: fechou os olhos e apurou os ouvidos, esperando ser envolvido pelo som divino e... nada. Ele estancou. O seu corpo inteiro amoleceu e ele teve de se sentar no meio-fio para não desfalecer. Estava catatônico, encarando o asfalto.

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