O que eu leio e o que eu faço: Tratak

por - 14:09

Matheus Barsotti - durante as gravações no Estúdio TOTEM


Conheci Matheus Barsotti ano passado. Na verdade, não. Ele já tinha vindo em Maceió antes, então posso dizer que o conhecia de vista. Era ele quem tocava alfaia e a segunda bateria da Labirinto. De repente ele volta à cidade, acompanhado pelo amigo, produtor e músico Heitor Dantas. A responsabilidade era grande, visto que ele ia abrir o show do querido Jair Naves. Matheus não é um cara alto, é pequeno, compacto, mas sentou no palco, colocou um violão de nylon no colo e, desde o momento em que começou a cantar, cresceu para quem estava vendo e embasbacou todo mundo. Naquele dia, em um show emocionado, seu projeto, Tratak, mostrou que veio para ficar e para confortar os corações que sofrem.


Não é fácil ouvir o som. Há músicas verdadeiramente tristes, em outras há aquele otimismo que invade as manhãs de segunda, quando você pensa que tudo pode melhorar. ‘Agora eu sou o silêncio’ é um disco muito bonito. Tão bonito que recebeu algumas indicações importantes e destaque nas listas de melhores discos de 2012 de sites de muita credibilidade. Esse ‘O que eu leio e o que eu faço’, o primeiro de 2013, é também um pedido de desculpas ao cara. Demorou mais saiu, Matheus. Vamos nessa que as respostas que vem por aí são lindas demais:


1) De baterista para cantor/compositor/multi-instrumentista. Como foi essa mudança?


Foi sorrateira e natural. A "mudança" toda aconteceu quase que por necessidade, só que não. Ou seja, é mais uma evolução e uma nova forma de encarar a música e a pontuar enquanto expressão artística e pessoal. Acho que não posso afirmar tudo isso como uma mudança propriamente dita pelo fato de que eu não deixei de ser baterista saca? Continuo tocando por aí e tendo um enorme gosto pela questão rítmica. Na minha família sempre rolou e rola até hoje muita roda de samba. Cartola, Noel, Chico, e assim aos 13 anos eu fui estudar na escola de música do Teatro Carlos Gomes, onde acabei virando percussionista orquestral e acompanhando a orquestra do teatro durante 2 anos. Aos 15, comecei a estudar bateria, mas sempre sentindo falta de algo melódico. De fato sempre quis tocar violão, mas meus amigos sempre me desencorajavam. Aos 17, fui para São Paulo estudar, comprei um violão, e como não conhecia ninguém, não tinha grana pra sair e não sabia tocar absolutamente nada no violão, comecei a compor. A composição veio como uma ferramenta de "livre associação", de leitura do inconsciente mesmo. Coisa que eu só me dei conta anos depois quando comecei a estudar Jung. E é justamente em função desse desapego do ego, e de encarar toda e qualquer forma de música como expressão, é que nunca me preocupei em não saber tocar um instrumento bem ou mal, mas apenas senti-lo e tocar. Então não sei se posso ter esse honroso título de "multi-instrumentista", sou apenas o cara que gosta de tirar som das coisas.


Matheus Barsotti (TRATAK) - percussões - grav. Estúdio TOTEM


 2) Você tem uma formação erudita em música, não é? Você acha que utilizou muito disso nas músicas do Tratak?


É, a minha formação inicial é clássica, e isso não se perde, só se agrega cada vez mais. Tenho um gosto enorme pela obra do Phillip Glass, Tchaikovsky, Villa Lobos e do Rachmaninoff, mas ao mesmo tempo tenho uma admiração igual ao "Roots" do Sepultura, a obra do Caetano, aos sons do Mars Volta e a poesia quase perfeita de Fernando Pessoa. Desta forma então não consigo mensurar o quanto de cada tem em cada arranjo, em cada letra. Não consigo decupar em mil pedaços cada canção e rotular individualmente e essência de cada parte. Mas tenho plena consciência de que "nada se cria, tudo se copia", e que tudo é resultado da simples soma de todas as experiências, e informações que absorvi até hoje. Em certas partes é clara a influencia da música clássica, e talvez venha até desta a explicação do meu gosto "torto", de valorizar mudanças rítmicas e gostar mais do bizarro do que do óbvio. De forma sucinta, a resposta é que sim, até porque, na produção, junto comigo trabalharam 2 amigos os quais tem também uma base clássica e cada um com um olhar completamente diferente sobre a coisa. Mas desta forma então fica impossível negar a influência da música erudita no "Agora eu sou o silêncio" (AESOS), e que fique bem claro... Influência.


3) Pergunta chata de jornalista besta. Por que Tratak?


O nome inicial do projeto, desde que foi idealizado cerca de 3 anos atrás era D.D.B (Dadaístas de Berlin), e os porquês disso são uma longa história. Talvez uma longa "pira", sei lá... Mas o nome Tratak surgiu durante a pré-produção do disco. Nessa época eu andava um pouco chateado com a vida sabe? E com isso veio a insônia. Procurei então diversas técnicas de meditação para me "acalmar" e tentar dormir, e o "Tratakan" foi a escolhida. Como a técnica consiste em focar a visão em um ponto fixo de luz, favorecendo assim a meditação, acabei enxergando semelhança no que foi a produção desse disco pra mim. Num momento onde tudo parecia fora do lugar, procurei me focar em uma única tarefa. O disco. Não nego que em inúmeros momentos quis desistir, mas foi aí que fez toda a diferença do mundo ter amigos como Heitor Dantas, Fernando Riscbieter, Elson Barbosa e Joaquim Prado ao meu lado.


Fernando Rischbieter  -Matheus Barsotti - Heitor Dantas - fim da pré produção no apê paraíso


4) Em momentos assim, de se estar "chateado com a vida", você sente que a literatura pode ser uma aliada para a superação, ou mesmo o entendimento desse período?


Acho que a literatura ou qualquer outra coisa que traga conhecimento é válido para entender melhor o que se passa na vida. Sempre gostei muito de psicologia, e foi nessa época que comecei a estudar mais a fundo Psicologia Social, mas confesso que não consigo enxergar nenhuma relação direta entre o estudo e um hipotético bem estar que se instaurou aos poucos. Acho que o estudo coube pra levantar mais questões e não para responder o que me afligia. Neste período em específico a melhor coisa foi realmente escrever. Durante a pré-produção e gravação do "AESOS" eu passava praticamente todo o tempo trancado no meu quarto escrevendo. Hoje entendo que ali, sem direcionamento algum eu acabei exercitando a livre associação, que por fim me ajudou bastante. Então foi nos meus textos e poesias que encontrei alguma explicação para certos questionamentos que eu tinha. Inicialmente eu escrevia apenas por escrever, e na época lia e relia 2 ou 3 livros, entre eles a obra completa de Fernando Pessoa. Desses exercícios despretensiosos de livre associação alguns viraram música, as quais não estão no disco, mas foi muito interessante porque neste ponto a minha forma de composição mudou drasticamente.


5) O que vem primeiro pra você, letra ou melodia?


Quanto a essa questão nunca tive regra alguma. Nunca compus pelo ego, pra mostrar à alguém, e muito menos com a intenção de agradar alguém. Nunca compus preocupado com a forma que as pessoas viriam a ouvir e interpretar. Na verdade nunca me preocupei nem se alguém realmente iria ouvir. Por isso nunca apliquei regra alguma na questão de quem nasceu primeiro, "o ovo ou a galinha". As minhas composições sempre me pagaram de surpresa. De tudo que compus até hoje, a única que eu parei pra escrever a letra com atenção (pois foi meio que uma brincadeira com um colega de faculdade que me desafiou a escrever sobre um tema dado) foi "Querida" que narra a conversa de um pai infiel e de uma filha que tem um namorado cafajeste, mas mesmo nesta vejo claras expressões pessoais. A maioria das composições foram praticamente "vomitadas", se me permite a comparação. Sentava pra tocar alguma outra música e de repente estava cantando algo novo. A história de "Cantar só por cantar" exemplifica muito bem isso, pois foi uma música que foi feita em 5 minutos. Eu estava alegre, arrumando a mala na véspera de um mochilão, e me veio a cabeça uma ideia pruma música instrumental que eu estava fazendo. Sentei, coloquei o celular pra gravar e numa busca de acorde toquei sem querer um acorde que me soou bonito. Só sei que comecei a cantar de forma completamente segura e despreocupada, e o que saiu é exatamente o que está gravado no disco. Não mudei nenhuma virgula, mesmo tendo certas frases que julgo que podiam ser melhoradas, mas enxerguei uma beleza única na expressão original e crua, e é até por isso que o título da música é "Cantar só por cantar" porque é um exercício de livre associação propriamente dito. De forma geral pode-se afirmar que a maioria das canções do disco foram feitas desta forma e depois dei uma breve revisada nas letras, buscando concordâncias impróprias e palavras melhores, mas a essência delas nunca mudou.


Matheus (reparos de última hora no Estúdio USLUGA)


6) Surgiu alguma letra nesses momentos de meditação tratakianos?


Não. Durante a meditação própriamente dita não. O que acontecia é que após a meditação eu sempre conseguia escrever melhor. Mas não durante. Porque pra meditar você tem que chegar num nível de relaxamento absurdo, e é bem difícil aprender a fazer isso. A mente humana é naturalmente inquieta, então quando você chega lá, não quer voltar ao "mundo real". Então após o relaxamento, quando não dormia ficava com os vários cadernos e canetas que nunca saiam da cabeceira da cama. Tenho uma foto do quarto onde passei esse período, e ela, obviamente, ilustra bem isso. Eram diversos caderninhos, canetas, uma garrafa de água e o violão.


7)Me conta um pouco mais da influência da sua família na música que você faz. Os livros estiveram presente também?


Tenho uma teoria que defende o seguinte: a base musical de cada um é algo que está completamente fora da opção de escolha. Ou seja, quando somos pequenos ouvimos a música do meio o qual estamos inseridos. Isso para um músico pode ser um presente ou um assombração. A música que ouvimos quando pequenos servirá como base de comparação pra toda música que optarmos ouvir depois. E assim ninguém deixa de gostar exatamente de algo, mas vai agregando novos gostos naturalmente e por fim ouve novos sons. A música na minha família sempre foi algo muito presente. Minha mãe ouvia "Maria Bethânia" o dia inteiro no último volume, meu pai gostava do "João Bosco", do "Placido Domingo" e do "ABBA". Meu tio, um grande violonista sempre esteve presente como peça principal nas rodas de samba que até hoje rolam. As canções são as mesmas, e a família inteira canta, e toca. Então a minha base inerente é a música popular brasileira. Em relação aos livros, desde pequeno sempre fui presenteado com eles. Meu padrinho, o "Dindodilon" sempre (aniversário, natal, páscoa e por aí vai) me presenteou com bons livros. Todos com suas devidas dedicatórias, e assim sempre abrindo novas portas que vão desde a poesia e a fotografia até a reflexão política. Era tanto livro e disco bom que tudo que me restava comprar foi o disco do "Jordy" pra ficar cantando ‘Dur Dur D'etre Bebe’ e Playboy pra... ler as piadas no fim da revista.


Matheus Barsotti, Heitor Dantas, Fernando Riscbieter, Yuri Kalil e Daniel Ribeiro - durante as gravações - Estúdio TOTEM


8) Por ser do Sul, você sente alguma diferença entre suas composições e o que é feito em outros cantos do país? O quanto do lugar que você nasceu está na música que você faz?


Acho que tanto a música quanto qualquer outra manifestação artística não deve ser classificada metodicamente, de forma que não há música ruim ou boa, mas sim gostos variados. Mas de forma parcial, e direta, creio sim que o ambiente tem forte influência na estrutura criativa. Como base podemos utilizar uma teoria contemporânea de administração que é a "Teoria das Contingências" para fazer um paralelo. Entende-se contingência como o caráter interdependente dos fatores que influenciam a estrutura, no caso da arte a criatividade e a composição. É claro então, o papel que o ambiente tem na estrutura (criatividade + expressão artística), de forma que diferentes ambientes geram diferentes experiências. Assim pode-se afirmar que o regionalismo tem sim seu papel na expressão artística. Por exemplo, é mais comum termos "maníacos depressivos na região sul e sudeste que no nordeste onde aparentemente de forma geral as pessoas são mais descontraídas, mas isso não exclui o fato de que em ambas regiões encontraremos expressões artísticas significativas que contradizem o senso comum regional. O lugar que eu nasci junto aos lugares que vivi tem uma influência plena sobre a minha arte, principalmente porque a minha forma de expressão é completamente sincera e natural, desta forma então é via de regra que minha música seja um retrato claro das minhas vivências e obviamente dos lugares onde estas se desenvolveram.


Quarto


 9) Existe alguma adaptação de livro para filme que você admira particularmente?


Sinceramente, não. Quando morava em São Paulo costumava ir muito ao cinema além de ler, fazia parte de um cineclube, inclusive. Em Blumenau não temos boas opções, de forma que o que chega as salas é geralmente o "mainstream". Assim hoje não vou mais ao cinema (quando quero ver um filme compro), e no meu tempo livre leio. A minha casa tem uma regra básica, não tem televisão nem computador, assim consigo estar mais em paz e num ambiente que valoriza apenas a música e a literatura nas minhas horas vagas. Sobre a relação "livro x filme", quando leio um livro e este sai em filme, confesso que evito assistir. As minhas experiências com adaptações são bem decepcionantes, então mesmo quando fico sabendo de um filme recém lançado, do meu interesse, no qual o roteiro é baseado num livro, procuro ler o livro. Não que eu esteja afirmando que não existe uma adaptação boa (lembrando novamente que essa questão de bom ou ruim é completamente relativa de acordo com o gosto pessoal), mas eu pessoalmente costumo me irritar com elas, então declaradamente as evito. Acho que isto se deve ao simples fato de que ao lermos uma história, temos a oportunidade de imaginarmos os personagens, ambientes e situações, o que num filme acaba engessado. Assim pelo menos para mim o livro é sempre mil vezes mais interessante que um filme.


10) Se você pudesse dar um conselho a alguém que está começando a compor, qual seria?


Recentemente um amigo me questionou exatamente isso e a resposta foi a seguinte: "se conselho fosse bom não se dava". Mas de acordo com minha experiência e a minha forma de expressão, aconselho inicialmente que se crie o hábito de escrever. Uma escrita despreocupada e sincera, assim como, do meu ponto de vista, a arte deve ser. A licença poética está aí justamente para nos defender, então façamos bom uso. Simples assim. Sinceridade absoluta e completo desapego à preocupação de criar algo já pensando no que "os outros" vão achar (como o ambiente externo vai julgar sua arte), pois essa postura impede a expressão em sua forma plena. Creio que uma expressão artística sincera é sempre válida, e bonita.


11) A clássica: quais seus cinco livros favoritos?


Pô, só cinco? Sacanagem heim...
Ta, então que sejam cinco igualmente bons e não um "top-five" pode ser?


- Sem Plumas (Woody Allen)
- Poesia completa de Fernando Pessoa (Fernando Pessoa)
- O Homem e seus Símbolos (Carl G. Jung)
- Entre a Paixão e a Razão (Max Weber)
- O Menino Maluquinho (Ziraldo)


Obs: aposto que em alguns minutos vou pensar em outros cinco igualmente bons e começar a me questionar sobre a resposta dada.

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