Pedro Drumond e o Ânimo

por - 11:04

animo

Quando o piano começa a tocar, fica a sensação de saudade de alguma coisa que eu não cheguei a conhecer. O silencio quase submarino faz os olhos se fecharem e assim fica fácil de ver as baleias e outros animais marítimos que se escondem atrás dos nossos olhos e da imaginação. A batida constante e crescente resguarda o ambiente como um coração e um relógio, e faz acordar para as coisas passageiras das nossas vidas. As águas continuam a correr ao longo do resto do disco e as emoções se transbordam, misturam, confundem e transitam. O piano permanece constante durante quase todo o caminho, cedendo lugar ocasionalmente às guitarras etéreas e distantes, como se vindas também do fundo do mar ou do alto das montanhas. O silencio e os sons mínimos se revezam às explosões orquestradas e todo o trajeto parece uma só história que fica por conta da imaginação de cada um.


Ânimo, trabalho do estudante de cinema de Niterói, Pedro Drumond, parece mesmo ser a tradução de uma maré de ânimos, de todos os tipos e nuances. O apreço quase artesanal traz um carinho raramente visto na musica e a oportuna utilização de letras e voz que caem como luvas sobre o instrumental denso.


Depois de algum tempo de bate-papo virtual com o cara, vocês podem ver abaixo o resultado da nossa entrevista, com algumas indicações de sons novos do mesmo naipe e alguns clássicos esquecidos.



Desde quando vem a paixão por musica? Tem lembrança de quando começou a compor?


O território dos sons sempre foi onde me senti mais à vontade. Eu fui um tipo de criança que se divertia mais mexendo nos ouvidos, produzindo barulho ou usando o gravador do pai no lugar de desenhar ou colorir. Nunca poderei responder se isso foi causa ou consequência da minha tendência natural de expressar sentimentos através de música e som. Inclusive sensações pouco nobres artisticamente como fome ou sono. Eu comecei a compor desde o primeiro momento em que comecei a tocar violão, com nove anos de idade.


Apesar de feito no seu quarto, a gente percebe um certo cuidado a mais na gravação, fator que às vezes deixa muito a desejar em outros projetos dessa área. Qual o seu segredo?


Minha estrutura de gravação é quase risível. Eu sou defensor do Lo-fi e da opinião de que se reconhece uma boa composição até em MIDI, por mais que todo o seu potencial de soar bem fique muito comprometido. Acho que o segredo de projetos caseiros é dedicar um pouco de tempo não apenas nas questões de composição, como arranjos, mas também em como tudo pode soar no final. Muitas vezes alguns ajustes simples e mínimos na mixagem fazem muita diferença.


Pedro Dummond


No disco a gente ouve bateria, uma série de instrumentos de corda, piano... Você toca todos os instrumentos? As cordas são sintetizadas?


Acho importante dizer que todas as músicas do Ânimo são demos de referência que eu levarei para estúdio na hora de gravar o disco de verdade. O que aconteceu foi que esse sonho ficou cada vez mais distante e pela cobrança de amigos próximos eu acabei colocando o trabalho na internet mesmo assim.


O Ânimo é o projeto onde eu quis compor pensando em menos limites estruturais. Eu faço parte de uma geração que tem essa grande vantagem de poder escrever para instrumentos que normalmente demandariam uma estrutura de captação complexa e escutar o resultado com uma fidelidade bastante aceitável. A bateria, cordas e metais são sintetizadas.


Eu me considero muito mais um compositor do que um instrumentista e nos instrumentos que não são os meus principais como piano ou bateria eu geralmente preciso aprender a tocar o que escrevo. Eu me limito a escrever para algo reproduzível ao vivo com poucos músicos e conto com a consultoria de amigos instrumentistas para escrever arranjos dos instrumentos de maneira realista e adequada.


Pedro Drummond


O Ânimo é o seu primeiro projeto ou você já trabalhou com outros discos/banda?


Já toquei em algumas bandas na minha trajetória (inclusive em gêneros menos associados ao que faço agora, como metal extremo) mas acabo lidando melhor com o trabalho mais solitário. Eu tenho também um outro projeto, chamado Lifeline ends here... que é mais orientado para o rock e tem um disquinho muito ruim na internet. Planejo lançar mais coisas por ele no futuro.


O álbum tem uma identidade forte que passa por todas as musicas. Você trabalhou com algum conceito ou ideia específica por trás do álbum?


O Ânimo, por não ser um projeto de gênero, acaba se mostrando bastante livre de rótulos e isso reforça uma identidade pessoal. Apesar disso, eu acredito que não faço nada novo e tampouco tenho pretensão de fazer. As minhas influências são bastante claras e todas elas transparecem a partir dessa composição livre, por isso soa como uma coisa particular e não uma emulação de outro artista ou banda.



O que você pode citar de influencia pro seu som? O que você costuma/costumava ouvir?


De influências diretas no meu som eu sou obrigado a citar Rachel's, o Sigur Rós e o Khonnor, além de alguns medalhões como Erik Satie, Pierre Schaeffer, John Cage e Michael Nyman. De não música tem os livros do Haruki Murakami, os filmes do Tarkovsky, Harmony Korine e Béla Tarr.



Tem algum trabalho ou banda de agora que você curte muito? Algo que chama sua atenção ou que você ache que vale a pena ser mostrado?


Eu estou sempre buscando novas coisas para escutar e fico sempre surpreso em como existem coisas boas por aí. Em 2012 eu escutei sem parar o projeto chamado R.roo de um talentoso jovem da Ucrânia além de um cara chamado Asfandyar Khan que lançou um discaço chamado Elsewhere.


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2 comentários

  1. Esse rapaz tem talento.
    Com um pouco de coragem e menos autocrítica, ele consegue ir longe.

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