Sobre vícios e fome

por - 12:06

[caption id="attachment_19386" align="aligncenter" width="567"]João Carvalho Foto por João Carvalho[/caption]

As velhas teclas empoeiradas me chamavam como um remédio barato pra vida toda. E no final das contas, é sempre assim. Muda o nome, o gosto, o cheiro, muda o formato e a quantidade, mas a canção é sempre a mesma. Altos de vinho, de saudade, da fumaça do incenso, de incerteza, de vontade; da mais perfumada e inebriante vontade. Drogas das mais variadas intensidades, vindas do Rio, do Mar, de lugar algum.


Eu já sei o final. Não é burrice, não é cabeça dura. É a mais pura e irritante falta de opção. A mesma maldita tecla que não funciona, mas eu não quero trocar.


As teclas. Voltando.


Meses se passaram desde a última vez em que os vizinhos se incomodaram com os pigarros desenfreados da minha máquina de escrever. Não por um flash de compreensão deles mesmos acerca do barulho daquela coisa velha e da importância que ela tem pra mim; mas simplesmente porque os pigarros se foram. Dois poemas e meia folha de papel amassado foram suficientes para que meus dedos cessassem a busca pelas teclas por mais ou menos meio ano. Naquela época, eu ainda não sabia a diferença entre a máquina de escrever, e uma pílula pra dor de cabeça. A segunda, porém, se mostrava requisitada mais frequentemente do que a velha máquina que pertencera ao meu avô (que curiosamente, nunca me proporcionou dores de cabeça). Mas remédios não fazem mal. A gente não toma o tempo todo mesmo, é só quando a dor é muito forte. E nem sempre dói. Nem sempre é tanto. Controladamente, as pílulas e as palavras me pareciam de grande ajuda. E nada mais “são” do que manter as coisas dessa forma.


A música também veio desse jeito. Ocasional, analgésico pra dores no peito. Acho que eu nunca vou saber se eu me tornei um viciado em pílulas, ou se é necessidade vital. Ou é tudo a mesma coisa?


Imagino que não seja nada fácil sair de vício. Seja químico, seja psicológico. Ao meu ver, a gente se preocupa demais com os nomes, mas de um certo ponto, a raiz é a mesma. Cigarrinho do seu José, a internet do ciclano, o baseado do fulano, a namorada do Mané. Sexo, ópio, televisão, a vida, a morte. Muda o nome, o gosto, o cheiro, muda o formato e a quantidade (podemos relembrar que nos itens supracitados, mudam também os danos ao nosso corpo, a doença, a brisa, a ignorância, o mistério, o fim, variando juntamente com a forma de uso. Não necessariamente nessa ordem, de fato), mas a canção é sempre a mesma.

Sempre tive uma certa dificuldade em diferenciar a legitimidade de uma necessidade vital do lado podre de um vicio. Acho que no final das contas, a gente escolhe o que é, e o que não é bacana viver sem. Somos legalmente viciados em alimentação, por exemplo. Muito moleque por aí não pode se dar ao luxo de sustentar o vicio, nem se for em marmita. Enquanto outros têm estocado pra vida inteira e passar no supermercado não é nada além de rotina e encheção de saco. Mas quem sou eu pra me preocupar com isso, não é mesmo? A Psicologia e a Medicina que me perdoem, mas de um ponto de vista meio trôpego e instintivo, me parece que a gente vive de vícios. Alguns aceitos; outros não. E eu sei que a essa altura do campeonato, estou soando como um panaca, mas eu me sinto na obrigação de avisar que a coisa deve seguir por aí.


Dá pra pensar que o vicio se diferencia da necessidade vital pelos efeitos colaterais negativos, mas eu ainda os vejo em tudo. Viver as vezes me parece ter mais efeitos colaterais do que qualquer possível batida de comprimidos com vodka e sei lá mais o quê. Por favor, não pretendo passar a imagem do Junkie-Paz-e-amor-libere-as-drogas, até por que isso levaria a uma discussão infindável, e não é o meu propósito no momento. Resumindo meus pensamentos na medida do possível: o ser humano vive de drogas, como a sua própria vida. As coisas viciam. Carinho vicia. Diversão vicia. E tudo o mais.


E assim me aconteceu com a música, e posteriormente, com a escrita. É curioso pensar que hoje, dos referidos comprimidos, maquinas de escrever (devo me declarar, finalmente, viciado em escrever), e música, o primeiro me é o mais saudável. Na medida, apenas de tempos em tempos. Me vejo hoje a prova viva de que cocaína e outras tretas não são as únicas que podem foder com você. A (minha) triste verdade é que a própria existência faz isso. E aparentemente, senhoras e senhores, faz parte.

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