Dirigindo em uma noite chuvosa de verão

por - 14:05

parabrisas


Dirigia a caminho de casa enquanto escolhia uma rádio para ouvir durante o percurso. Foi quando a felicidade me surpreendeu como o relâmpago que cortava o céu e assustava a família que andava na calçada (a filha logo se agarrando à perna da mãe e o pai rindo devagarzinho, como é de se esperar de um pai comum às dez da noite).


Guiava o carro com essa imagem na cabeça, pensando que hoje, talvez só hoje, eu poderia evitar a rádio de notícias.


Minha mente brincava com a percepção do espaço. Divertia-me percebendo o carro parado ao lado do meu, no semáforo. Ele acelerou e eu me aproximei, até que alcançamos a mesma velocidade; e, por um instante, parecia que estávamos os dois inertes no espaço pelo que restava do infinito. Não tardou, porém, para ele acelerar um pouco mais, fazendo com que aquele instante se estilhaçasse no vazio onde pendem os momentos.


Passando pelo cemitério, faltando ainda metade do trajeto a percorrer, me dei conta de que o relâmpago era, na verdade, um presságio: gotas de chuva caíam, gordas e alegres, sobre o parabrisa. Fiquei hipnotizado por aqueles pingos que fazia do meu carro um instrumento de percussão. Eles acompanhavam melhor que qualquer baterista a voz alta e suave da cantora que derramava seus desamores sobre as notas líquidas da guitarra.


De repente as poucas gotas se dividiram, tornando-se muitas, incontáveis. Podia-se ver as rajadas despencando sobre o carro, como se Deus estivesse tampando o buraco da mangueira com o dedo, da mesma forma que meu pai fazia comigo quando eu era moleque.


Os carros não excediam os trinta quilômetros, pois mesmo com os limpadores agitados, quase sucumbindo sob o esforço gigante de escoar aquela quantidade monstruosa de água, era impossível ver muito além dos faróis.


A noite parecia um sonho: carros dirigidos por ninguém, uma pista sem fim, ruas vazias de gente e a matéria não existia além de meu limitado campo de visão. A música, como que presa entre as quatro portas metálicas, e eu, como que preso dentro de mim mesmo. O mundo parecia um globo de neve – mas era tudo luz, vibração, e água.


Poucos minutos depois, a chuva vacilou e minha ansiedade, aos poucos, esmaeceu. Os olhos se faziam novamente capazes de captar o que havia ao redor. Ao parar no sinal vermelho, observei a enxurrada, rente ao meio fio. Levava copos de plástico – daqueles que comportam refrigerantes em festas de aniversários de sobrinhos chatos de irmãs fofoqueiras de tias Lurdes.


Era uma terça-feira como só as terças feiras sabem ser: impossivelmente comuns. E apenas copos de plástico carregados por uma enxurrada podem atiçar sua curiosidade em dias como esse.


A água violenta me incitou a levantar o olhar. A cena lentamente se montava diante das retinas: cadeiras plásticas jogadas por toda a calçada, sacos plásticos arrastados pelo vento e um isopor tombado. A chuva viera impiedosa e a barraca de cachorro-quente não aguentou: veio ao chão. Um furo enorme estampava a lona que cobria os fregueses e pelo menos duas mesas exibiam suas pernas quebradas. O dono, não se via; devia estar esperando o fim da chuva para analisar o estrago, talvez correndo atrás do que se perdera com o vento.


Aquela visão me cortou mais fundo do que o frio que fazia lá fora jamais poderia. O meu carro subitamente se transformara em um ambiente inóspito do qual eu queria desesperadamente fugir, pelo simples motivo que outros não tinham nem ao menos essa inútil possibilidade.


Alguém saíra para trabalhar esta noite e voltará para casa com sua lona furada e duas mesas quebradas.


Senti-me como quem não dorme há dias, com olhos pesados e a cabeça pendendo, guiando o corpo que quer ir ao chão.


E se a felicidade surpreende como um relâmpago, a tristeza só pode ser temporal.

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