"Tudo é trauma"

por - 14:15

coragem


Estive pensando nas criancinhas essa semana. Ninguém mais pensa nas criancinhas, se refletirmos um pouco. Mas digo isso literalmente, não no sentido puritano-falso-moralista. Quando foi a última vez que você pensou ou fez algo sem antes pensar se tinha alguma criança por perto? Eu duvido que você tenha sequer pensado nisso quando foi xingar, beber, se drogar ou falar da sua última fodinha. E se pensou antes provavelmente é porque você estava no meio da festinha temática da Barbie da sua priminha distante de seis anos. Se bem que mesmo assim as vezes a informação irrelevante escapa. Porra, se o WikiLeaks faz um trampo a nível global, você não está salvo. E aí temos duas possibilidades: a sua amada priminha estava ocupada demais se divertindo com o resto da molecada ou ela gosta tanto de você que ouviu tudo e guardou na mente para desenvolver aquele trauma bacana depois.


Uma vez fui a uma palestra em que um psicopedagogo disse “um pouco de trauma na infância melhora o caráter”. Concordo em partes. Não acho que as mamães gostosas que leem revista Marie Claire e possuem babá que veste branco tenham que traumatizar suas crianças para torná-las cidadãos exemplares. Digo isso porque elas adoram levar esses profissionais muito a sério. Se você quer que seu filho tenha uma mãe gostosa, prepare-se para ter um filho cobaia de psicopedagogo, principalmente se ele der uma entrevista pra essas revistas. Além do mais, também acho que a molecada tem muito mais motivos pra ter medo hoje do que antigamente. Se você ouvir alguém dizendo que brincar na rua era bom, pergunte se na rua em que ele brincava existia violência urbana, carros agressivamente apressados, lixo, enchentes, movimentação intensa e uma mídia sensacionalista ao final da tarde pra botar pavor em todo mundo. A resposta provavelmente será “é, acho que não”. Se for sim, a pessoa em questão brincava armada com uma Glock na lancheirinha do Mickey Mouse.


E pensar que os traumas da infância não somem totalmente das nossas vidas. Se antigamente o medo era do bicho papão e do capeta te pegar quando você usa o banheiro no meio da noite, quando crescemos o medo vai todo para o plantão da Globo e o leão do imposto de renda. O primeiro é e sempre será sinal de que a merda aconteceu, mas com relação ao outro, fico meio apreensivo. Por que intimidar tanto por algo que já tem um nome intimidador? Imposto já é uma palavra bastante forte, até porque é o que mais pagamos enquanto brasileiros. Veja bem, não estou reclamando, só pontuando mesmo. Como todo brasileiro, sou mansinho, principalmente porque comprei um videogame novo. Pena que os jogos são caros feito a porra. Culpa dos impostos. Mas tudo bem, quando rolar uma passeata na Avenida Paulista, tenha certeza que estarei usando um nariz de palhaço lá no meio. Mentira, protestar assim é pior que não fazer nada a respeito. Se você faz isso, tenha vergonha e vá queimar prédios ou ler um pouco de Engels na biblioteca mais próxima. Agora.


Tentando não me aproveitar do grandioso clichê ao qual estou me encaminhando, sou inclinado a imaginar que somos criados para temer aquilo que não conhecemos. E isso faz sentido, afinal, se fossemos uns porraloucas o tempo inteiro, não teríamos sobrevivido por tanto tempo enquanto espécie. Sabendo disso, fica mais fácil controlar o ser humano em maior escala. Basta criar inimigos ameaçadores que o deixarão acuado e submisso até que ele descubra que a luz acesa ou apagada não faz muita diferença quando se sabe que o escuro não faz medo nenhum. Claro, tem gente que tem medo do escuro ainda assim, mas aí já é outro caso. Talvez até mesmo o nosso caso. Nada que o tempo não resolva e nos fortaleça para o grande dia em que o ser humano libertará seu verdadeiro potencial, ultrapassando os poderes do lendário super sayajin. No sentido figurado, claro. Sayajins não existem.


kid_goku

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