Homem Binário

por - 14:05

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Lhe avisavam desde os tempos de infância: não sentirão sua falta. Ao nascer, foi o décimo do dia, o centésimo da semana. Era ainda de manhãzinha. Entre as trinta crianças da sala de aula, recebeu um número e ordenou-se junto aos outros nas cadeiras. Aprendeu a manter a cabeça abaixada e se familiarizou rapidamente com as contas e principalmente as subtrações. Talvez por isso não crescesse grande sua afinidade com palavras; lidava com números de forma natural porém, e se sentia mais apto e seguro quando o fazia. Nascera um numero, afinal.O agregar das letras, a união das palavras e das frases, isso não entendia. Nunca chegavam a lugar algum, não havia objetivo ou rumo final. Assim como as pessoas. Não as via muito, e se familiarizou rapidamente com as nucas e a parte de trás das cabeças que encontrava durante as aulas. Andando pelas ruas, devido à sua baixa estatura, acostumou-se à companhia de pés e pernas. Com eles reforçou cada vez mais a sua necessidade de ir a algum lugar, de estar em transito.


O pescoço lhe doía às vezes. Por instantes, se permitia pensar que talvez lhe exigissem demais, mas o que sabia ele, um numero tão pequeno e novo, naquela imensidão de dígitos mais responsáveis? Diagnosticaram-no com torcicolos constantes e estresse. As letras do médico na receita dos calmantes lhe pareciam muito com números. Aprendeu a apegar-se às coisas que tinha e às que lhe faltavam. Traduziu todo o seu mundo em operações lógicas enquanto pôde.Compraram lhe um belo terno para o dia de sua formatura. Olhando-se ao espelho, sentiu-se feliz e perigosamente excitado; nesses momentos em que ele não conseguia analisar ou entender o seu redor e se cobria de um calor que o envergonhava e deixava confuso, voltava-se mais uma vez ao mantra que regia suas fibras e lhe deixava novamente frio e no controle: não sentiriam sua falta. Da mesma forma se confundia quando acidentalmente, cruzava olhos que não os seus próprios no espelho.


Rapidamente conseguiu um emprego e mudou-se de casa. Seus pais ensaiaram uma despedida milimétrica e genialmente organizada, apesar de vazia; era o segundo filho de uma fila a se tornar adulto e deixar a casa. Saindo pelo mundo a fora descobriu que as outras pessoas eram como ele, de uma familiaridade curiosa. Era quase como se fossem iguais, pensava. Sentiu-se incluído como num sistema computacional: os números prosseguiam e se multiplicavam em padrões invioláveis e infinitamente rápidos enquanto formavam janelas e formulários na sua tela.


Tornou-se contador e conheceu as pernas de uma mulher. Elas eram lindas e lhe provocavam uma espécie de torpor insonso enquanto se movimentavam e exalavam perfume. Enquanto as olhava, o trabalho dos números se realizava automático, e aos poucos guardou seus dias inteiros para desejar as pernas e os carros que deslizavam silenciosos pelas ruas. Seus números aumentaram vertiginosamente assim como seus cargos e suas financias e a proximidade das pernas com quem se envolvia cada vez mais frequentemente. Àquela altura, uma espécie de orgulho doentio começou a abrir pequenas covas e rugas em seu rosto que apodrecia de forma matemática e gradual. Como uma doença repetida em sangue contra sua pele, escondido no banheiro de casa antes de ir deitar-se com aquelas pernas e novas pílulas adquiridas ele repetia: não sentiriam sua falta.Casou-se e produziu o numero de filhos igual ao de seus pais com a adição de um, mantendo a progressividade. Nasceram de madrugada, mas o numero de crianças nascidas anteriormente no mesmo dia era incalculável e foram transferidos ao hospital mais próximo pela falta de leitos disponíveis. Aos poucos, passou a ser assombrado por um numero incalculável de variáveis que se apresentavam, fantasmagoricamente, incalculáveis. Abriu um processo judiciário contra as pernas que adquirira no passado e que, após a geração dos filhos registrados, já não cumpria suas obrigações. Passou novamente a residir sozinho e terceirizou seus bastardos.


Envelheceu numa progressão geométrica enquanto seus lucros buscavam novos donos e suas faltas se tornavam mais sofisticadas. Suas próprias pernas entraram em choque depois de dado tempo. Os médicos culparam a busca desenfreada por novos lugares e objetivos, e lhe proibiram o querer. Um novo grupo de medicamentos lhe foi recomendado, e aos poucos suas habilidades matemáticas se deterioraram. Os pares e pernas que conhecia passavam rápidos demais pelo seu corpo sedento de transito.


A lógica já não lhe prestava e passou a odiá-la como às pessoas e às letras. Tornou-se um espaço vazio, e preencheu-se finalmente pela única coisa que ainda lhe restava n’alma: a certeza de que não sentiriam sua falta. Encheu-se a tal ponto de dígitos que explodiu no meio da avenida central. Dividiram suas partes em inúmeras outras pernas e minimizaram-se os danos. Numa despedida milimétrica e genialmente organizada, terceirizaram-se seus restos. Ao morrer, foi o décimo do dia, o centésimo da semana. Era ainda de manhãzinha. Entre as outras cerimônias que ocorriam, recebeu um número e ordenou-se junto aos outros que deixavam de existir. Abaixaram-lhe a cabeça uma ultima vez, e rostos lhe cercavam pela primeira vez; já não havia falta ou lucro a ser visto. Tatuado sobre cada centímetro de sua pele passada, a única certeza matemática de sua vida resistiria à eternidade: Não sentiriam sua falta. O tempo lhe subtraiu.

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