La Haine: rancor e cólera

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Uma panela de pressão sopra na Europa, treme lentamente e explode entre curtos intervalos. Foi assim na França, em 2005, ou na Inglaterra, em 2011. La Haine, filme de Mathieu Kassovitz funciona como um catalisador dessa onda contemporânea.


Após a Segunda Guerra Mundial, durante a reconstrução da Europa, imigrantes recém-chegados de países pobres colonizados foram muito bem vindos, pois representavam a possibilidade de mão de obra barata e poderiam ocupar os subúrbios e os subempregos. Esses imigrantes tiveram filhos, netos. Passadas algumas décadas, os europeus não sabem mais o que fazer com esses imigrantes. Surge do Estado o argumento de que a crise assola a população.


Esses jovens, filhos dos tempos de crise, cresceram longe de suas terras ancestrais e de suas respectivas linhagens culturais, em meio a uma avassaladora influência do consumismo norte-americano. Estudam em escolas ruins, moram em conjuntos habitacionais e são vítimas constantes de violência policial. A repressão vinda do poder público contra esses jovens é o principal estopim para que a panela de pressão estoure, quente, borbulhante.


A Europa branca encara o acontecimento como um problema social e trata o imigrante como se fosse uma bactéria que se prolifera e que deve ser erradicada. Para eles, qualquer revolta desses jovens suburbanos resume-se a puro vandalismo. La Haine expõe ao público o olhar objetivo do subúrbio, de dentro pra fora. Notamos que o problema, acima de tudo, gira em torno do preconceito étnico.


Os principais personagens de La Haine são Vinz, judeu (Vincent Cassel), Saïd (Saïd Taghmaoui), de ascendência árabe norte-africana e Hubert (Hubert Koundé), de ascendência africana. Os três estão preocupados com Abdel (Abdel Ahmed Ghili), o qual está em estado de coma, vítima de violência policial. O pano de fundo da trama é um confronto de rua entre jovens e policiais, por conta do estado de saúde de Abdel.


O filme se inicia em tom jornalístico, mostrando confrontos gravados em vídeo. Ouvimos a canção Burnin’ and Lootin de Bob Marley: “give me the food and let me grow”. Entre a música de Marley e as imagens de caos instaurado, somos informados sobre o que está por vir.


A tensão pré-explosão permanece no decorrer da fita. Os três amigos vagam pelo bairro periférico, sem emprego, ocupação ou perspectiva. Alguma coisa está prestes a acontecer, como se o chão tremesse. Abdel está no hospital entre a vida e a morte, surge no ar um sentimento de revolta que se manifesta em diversos formatos: ódio, ansiedade e busca por espaço e voz na sociedade. Embora eles pareçam calmos, fumando maconha e fazendo pequenas transações com drogas, estão tensos, como se estivessem com uma pedra no sapato.


Vinz, Saïd e Hubert estão em crescente processo de marginalização, longe de qualquer estrutura familiar mínima. Vinz mora com a irmã, a mãe e a avó num minúsculo apartamento; sua avó vive lamentando o desprezo dos netos pelas tradições. O pai de Saïd está na cadeia e sua irmã mais nova vive na rua para o desassossego do irmão. A cena que talvez mais demonstre essa característica em comum entre as personagens seja aquela em que Hubert, ao chegar em casa, beija a irmã mais nova e é informado pela mãe que um de seus irmãos acabara de ser preso. Nem ele nem a mãe esboçam a mínima reação, ao contrário, agem como se fosse um fato rotineiro, desprovido de surpresa.


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Cada personagem tem o seu trajeto particular rumo à marginalidade. Hubert pratica esporte, luta boxe, mas divide a atividade fornecendo drogas para os amigos. Sereno, parece ser o mais sensato e consciente. Saïd é o mais novo, mistura ansiedade sexual, revolta e instinto de sobrevivência. Vinz é a personagem mais à flor da pele, acha a arma de um policial no meio de um confronto e estabelece uma relação instantânea de poder. Ao descobrir que Abdel morre, Vinz promete aos amigos que matará um policial para compensar a morte do amigo.


Vinz é obcecado pelo filme Taxi Driver, de Scorsese, e fica a reproduzir a cena em que Travis (Robert De Niro) aponta uma arma para o espelho. A arma na vida de Vinz vira uma chave de comunicação com o mundo externo, mesmo que essa comunicação seja por meio da violência, como se o revólver fosse capaz de resolver todos os problemas do mundo. Kassovitz habilidosamente faz com que muitos problemas sejam criados a partir dessa mesma arma. O sonho de Vinz é ser gangster, lamenta por ser um dos únicos do bairro a não ter passado pela cadeia. Para ele, a criminalidade é a maior possibilidade de alcançar status social. Embora Vinz exercite o estilo rude das ruas, se assusta constantemente com as condições estipuladas pelo mundo marginal. Esse conflito entre fragilidade e luta pela sobrevivência torna a personagem cada vez mais angustiada.


La Haine parece ser dividida em dois capítulos: no primeiro, o olhar da periferia para a periferia; no segundo, o olhar da periferia para a o centro. Quando Vinz, Saïd e Hubert vão para o centro, é o momento em que mais notamos a dificuldade das personagens em se encaixar em algum lugar na sociedade. Promovem confusão por onde passam, o mundo não está preparado para eles e vice-versa. Levam cano de um traficante, Saïd e Hubert são presos e torturados, perdem o último trem para o subúrbio e perambulam por uma cidade estranha, inóspita. Na madrugada de Paris, as personagens ocupam o tempo como podem, invadem um vernissage em uma galeria de arte e acabam expulsos, tentam roubar um carro e acabam se encrencando com um bando de skinheads.


Chegamos em dois pontos cruciais para a trama: o revólver de Vinz e o grupo de skinheads. Acostumados à violência policial, os protagonistas, na cidade, se deparam com outros meios de preconceitos.


Na cena da galeria de arte, enquanto abandonam o local, promovendo uma espécie de terror, um senhor da galeria exclama: “É o mal dos subúrbios”. No momento em que são abordados covardemente por skinheads, surge a oportunidade de Vinz finalmente usar sua arma, promovendo a cena mais densa do filme. Daí em diante, os três jovens não estão apenas de frente para uma disfarçada sociedade racista. No confronto com os skinheads, o racismo é escancarado, explícito, e faz com que o filme caminhe para o ápice de sua tragédia. Não há mais máscaras.


“Essa é a história de uma sociedade que cai”, diz uma das personagens. O fantasma da intolerância continua a assombrar a Europa, e notamos, seja no filme de Kassovitz, seja nos telejornais, a sua dificuldade em conviver com a diversidade.


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França (1995)
Direção: Mathieu Kassovitz
Produção: Christophe Rossignon
Roteiro: Mathieu Kassovitz
Com: Vincent Cassel, Hubert Koundé, Saïd Taghmaoui, Abdel Ahmed Ghili, François Levantal
Música: Assassin
Fotografia: Pierre Aïm
Montagem: Mathieu Kassovitz e Scott Stevenson
Distribuição: Canal+

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