"O meu dia"

por - 14:04

vish


Pode soar hipócrita, mas não quero ser lembrado como um grande mentor quando morrer. Claro, não que eu seja um, mas acho que deu pra entender. Se minha hora chegar, quero que me empalhem e me ponham na sala de estar de casa, sentado numa posição confortável, como o Drummond de Andrade no Rio de Janeiro. Só não soldem os óculos no meu rosto, acho meio extremo ser obrigado a grudar uma armação de metal na cara só porque a molecadinha nunca viu gente míope na vida. Se bem que virar uma estátua ou um ursão ao contrário depois de morto deve ser meio complicado, a eternidade não me soa como uma boa ideia.



Tem gente que mesmo quando morre acaba não morrendo, né? Há quem veja Elvis até hoje andando pelos picos por aí, mesmo sabendo que o cara tá comendo mato pela raiz tem muito tempo. Rezava uma lenda que Michael Jackson estava vivo e se vestindo de mulher na França, só pra tirar uma onda, isso sem falar no Jim Morrison, que a galera custou a acreditar que foi embora mesmo. Este efeito só é válido pra quem é famoso, vale ressaltar. Ninguém nunca viu o seu Nivaldo passando pra dar um alô depois que teve um AVC ou o Joninha passando de bike depois do último acerto de contas lá na perifa.



Depois que o Fred Durst brasileiro se foi, vi um mar de gente o idolatrando como o novo Cazuza, que convenhamos, também não foi nenhum gigante. Com síndrome de Peter Pan e uma fama de “marginal alado” (adoro as notas dos sites de notícia), Chorão, que sempre foi playboy, se imortalizou nos orais (anais a gente só libera pra quem realmente gosta) da fama. Nada contra o garoto Chorão, aliás por questões nostálgicas, gostava muito dos primeiros dois ou três discos do Charlie Brown Jr.. A questão é a oligofrênica comoção de pessoas que cagavam duas bolas para o que ele fazia ou dizia. Talvez este tenha sido um grande lembrete à molecada/juventude de que até mesmo o mais jovem dos tiozões está a mercê da morte. Principalmente se o seu negócio é fungar um açúcar cabeludo para o nariz ficar divertido.



O dia internacional das mulheres foi marcado por um monte de mortes. De mulheres que se acharam no direito de reivindicar o que lhes era de direito. Mas que foram ignoradas e mortas em um ato desumano. Hoje em dia este caráter é diferente, as mulheres ganham um “parabéns” e um presentinho. Por que? Porque são mulheres e este é o dia delas. Ou seja, agradeça à morte de dezenas de mulheres pela lembrancinha que você ganha no dia oito de março. Acho que estou soando feminista demais, até porque essa data é culturalmente comemorada dessa forma, mas acho que a reflexão para o dia das mulheres vai um pouco além de uma mulher te cutucando no ombro e perguntando “não vai me dar parabéns pelo meu dia?”. Espero que o dia da conscientização de que homens e mulheres possuem o mesmo valor chegue antes do meu dia. Do dia em que me vou, eu digo. Não comemorem nada neste dia, por favor. Aliás, podem tomar uma cerveja e aproveitem pra botar na minha conta.


lol

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