Nation Of Ulysses e o romantismo flamejante

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The Nation of Ulysses


Ruídos confusos de crianças gargalhando e de repente uma voz infantil anuncia: “Respect is due: Nation of Ulysses”. Logo em seguida o trem dá a partida como se tivesse acabado de explodir, mas quase automaticamente se desvia do bom caminho e desliza pelos trilhos sem qualquer controle de direção ou velocidade, saboreando o êxtase das colisões. Em meio aos instrumentos retorcidos, uma voz em convulsão ainda se faz ouvida, sublinhando no refrão o título da primeira faixa do disco: “Spectra Sonic Sound”. Era 1991 e o Nation Of Ulysses (Ian Svenonius – vocal; Tim Green – guitarra; Steve Gamboa – baixo; James Canty – bateria) lançava o primeiro álbum de uma existência tão curta como também influente. Apadrinhado pela mais que lendária Dischord, 13-Point Program to Destroy America trazia em seu título uma alusão aos dez pontos do programa dos Panteras Negras e aos panfletos produzidos na época pelo FBI como parte dos esforços para desmanchar grupos similares.


O produto de estreia do Nation Of Ulysses contém uma quantidade de confusão sonora suficiente para assustar mesmo os mais habituados aos alto-falantes da Dischord. A intenção da banda antes de finalizar o disco era apenas gravar uma porção de músicas em 2-track da forma mais precária possível, mas acabaram convencidos pelo Ian MacKaye a fazerem um trabalho de melhor qualidade técnica no Inner Ear Studios. A voz de Ian Svenonius mantém um certo tom de ironia semelhante ao do Jello Biafra, mas com uma natureza convulsiva próxima ao Guy Piccioto em tempos primaveris. Em termos de referência musical, 13-Point Program to Destroy America aponta tanto para grupos da época ou mesmo de alguns anteriores - Drive Like Jehu e as velozes guitarras pontiagudas como estilhaços, Black Flag e sua cacofonia e falta de ordem, Rites of Spring e sua entrega emocional - como também para o MC5 e bandas de garage rock dos anos 60 e 70.


Mas mais do que energia, desconstrução e experimentalismo, o Nation of Ulysses detinha um componente incomum que tornava o grupo bastante diferente e peculiar: um conceito por trás da sonoridade e da sua música, um véu que se dividia entre a mitificação política e a auto-ridicularização. A própria banda se intitulava uma espécie de grupo terrorista em seus manifestos – que, aliás, preenchem várias linhas nos encartes dos CDs, com referências a teóricos situacionistas franceses e grupos de esquerda norte-americanos como o Weather Underground e o já citado Panteras Negras. Os textos produzidos pelos membros da banda também eram reunidos no ”Ulysses Speaks”, um zine distribuído nos shows do grupo ou, como consta em uma das suas edições, “um complemento visual para a trilha sonora da revolução”. O conteúdo vagava entre planos para destruir a América e criar uma nova nação, passando por denúncias contra a complacência dos grupos de rock com a alienação social. O conteúdo, por outro lado, não era exatamente panfletário, mas contraditório e irônico. A banda era segura o bastante para rir de si mesma, ao mesmo tempo que inflava seus encartes e músicas com referências às teorias políticas de esquerda mais radicais. Nas letras e nos títulos havia brincadeiras e homenagens que se ligavam a nomes como o New York Dolls, The Ronettes e John Coltrane, sobrando até para Frank Sinatra. A séria piada se estendia até a identidade visual. No palco, prezavam por boas vestimentas, com ternos e roupas sociais - se a lógica do cotidiano apazigua o que lhe é nocivo e incoerente, o Nation Of Ulysses tentava contra-atacar da mesma maneira.


Ian Svenonius


Em 1994 veio o segundo e último disco, intitulado Plays Pretty For Baby, trazendo uma maior influência de soul, r&b e jazz avant-garde, incorporando esses componentes ao subtexto de descontentamento político. A velocidade típica continuou intacta. A banda manteve seus sentidos aguçados como os de um navio de guerra. Mas a urgência passou a abrir mais espaço para guitarras arrastadas que remetiam ao pós-punk do fim dos anos 70. O sax ocasional, que apareceu de forma tímida no primeiro disco, dessa vez é ouvido com maior frequência, ainda que de forma espontânea e descompromissada. Importante mencionar nesse momento que as referências sonoras e estilísticas nas composições do Nation Of Ulysses fazem parte muito mais do espírito da banda do que da sua arquitetura musical propriamente dita. As influências do jazz, por exemplo, se mostram, mesmo que de maneira mais mascarada, nas construções dissonantes e nas variações perturbadas das músicas. Contudo, como dizia o próprio saxofonista e um dos pioneiros do free-jazz, Ornette Coleman - músico reverenciado pelo Nation Of Ulysses -, a ideia é mais importante que o estilo que você está tocando, e o grupo parece ter se apropriado desse pensamento de um jeito selvagem e enérgico. Por dentro da própria pele do jazz, afinal de contas, está o desejo de romper e ir de encontro a limitações e restrições tradicionais. Sentimentos diferentes do que costuma ser visto no cenário apático da indústria musical tradicional e mesmo em seus recantos mais alternativos.


A banda acabou no meio dos anos 90 antes de finalizar o seu terceiro cd, mas o estrago já havia sido feito: o rastro da pólvora já estava posicionado e um grupo europeu chamado Refused encontrou esse rastro e o fósforo. Com uma identidade conceitual semelhante, é possível, no entanto, que a influência não tenha sido tão direta como aparenta e que na época os rapazes da Suécia nunca tinham ouvido falar muito no Nation Of Ulysses. Mas essa questão é pouco importante e, seja como for, o Refused não perde em méritos, originalidade ou competência. Apontar a banda como uma cópia estilizada do grupo da Dischord é injustiça frente às inovações promovidas pelo Refused, desconstruindo o punk em músicas quebradas com intermitências de drum n' bass e jazz, sem perder nada em voltagem e vigor – aliás, muito pelo contrário. A ligação entre ambos os grupos, no entanto, aparentemente não é escondida - o quarto álbum do Refused se chama The Sound Of Shape Of Punk To Come, uma referência a Ornette Coleman, mas também - com probabilidade - à oitava música do segundo CD do Nation Of Ulysses, The Shape Of Jazz To Come. A identidade conceitual também se assemelha bastante: a mesma atmosfera de clandestinidade e o apreço por posições políticas similares.


The-Make-Up

Outra conformidade surge com o percurso seguido ao fim de cada banda – o garage-rock tóxico e uniformizado do The Make-Up e o mesmo para o The (International) Noise Conspiracy. Do término do Nation Of Ulysses até hoje muita coisa aconteceu e talvez o evento mais importante deste trajeto foi justamente o surgimento do The Make-Up, o próximo passo do Ian Svenonius ao ataque. Contando com integrantes remanescentes do Nation Of Ulysses - o baterista James Canty, agora na guitarra, e Steve Gamboa , antes no baixo e agora na bateria – o grupo reafirmava novas possibilidades ao se deslocar para as direções do gospel e do soul music, algo antes feito apenas timidamente pelo grupo anterior. Em 2012 o Make-Up anunciou sua volta ao menos parcial com o convite do Les Savy Fav para tocar no All Tomorrow Parties. Em 2013 o Coachella, maior ressuscitador de bandas extintas da atualidade – no ano de 2012 o Refused esteve presente em seu line-up -, também anunciou o grupo em sua programação, provando por outros termos que poucos fins são definitivos no universo da música.


Afora os projetos musicais Ian Svenonius se aventurou como apresentador de TV do programa de entrevistas Soft Focus da Vice e na literatura com The Psychyc Soviet, uma coleção de contos sobre música e outros temas diversos. Além do Make-Up, outros projetos e grupos estão relacionados ao Nation Of Ulysses, como o Cupid Car Club e o Weird War, ambos liderados pelo Ian Svenonius. Uma das relações mais inusitadas é a surpreendente The Fucking Champs, que conta com o Tim Green, integrante antigo da banda. James Canty, que é irmão do Brandon Canty, baterista do Fugazi, também toca no Ted Leo & The Pharmacists.


E a piada maníaca do Nation Of Ulysses continua a ressoar.


*texto escrito por Rafael Santos

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