O que eu leio e o que eu faço - Barulhista

por - 14:04

[caption id="attachment_19964" align="aligncenter" width="648"]GA_3 Foto: Cezar Fernandes[/caption]

Ele abandonou seu nome de batismo para estar atrás de duas identidades. Para os amigos é o GA, sigla que, a cada vez que alguém pergunta, um significado diferente surge, seja ele Geraldo Azevedo, Giorgio Armani, Gaby Amarantos. Outro codinome é o musical, Barulhista. Atualmente GA vem trabalhando na procriação de sons e ruídos, sejam eles orgânicos ou eletrônicos. Seu parceiro mais próximo na música é o também mineiro Daniel Nunes, e seu Projeto Lise. Atualmente GA também é o “sanfoneiro” da excelente banda mineira de música instrumental Constantina (da qual Daniel é baterista). Todos os álbuns do Barulhista estão disponíveis para download em seu site, www.barulhista.com. Tudo muito organizado e bem-dividido.


Não sei bem se escolhi o GA para ser o próximo entrevistado da coluna ‘O que eu leio e o que eu faço’, que demora a sair, mas que eu não deixo mais morrer. Penso que fui escolhido. Semana passada o cara foi citado na revista Veja, em uma entrevista com Marcelo Yuka. O que poucos sabem é que, além de músico, GA também é escritor. Tá com um livro pronto, atualmente em processo de edição e finalização, mas que já tem título, se chama Roça, e data de lançamento: 15 de junho.


Ler as respostas para essa entrevista foi ser transportado para as ótimas semanas antes e depois do LAB, evento de música diferente realizado em Maceió desde 2009, e que já trouxe ótimas bandas para a cidade. GA é um cara tímido de início, mas que vai cativando a cada sorriso e a cada piada. Uma informação sobre um ônibus a caminho de um bairro boêmio de Belo Horizonte é coisa de ter crises de risos. Perguntar se tem WI-FI nos lugares mais insólitos, também. Essa entrevista ta de ler com um sorrisão no rosto. Olha aí:


Músico, escritor, criador de trilhas, quem é GA por GA? (risos)


Em 15 de junho de 1924 o “20 poemas de amor e uma canção desesperada” foi publicado. Em 15 de junho de1981 minha mãe me publicou, desde então não faço outra coisa além de barulho, seja chorando, sorrindo, escrevendo ou tocando. De vez em quando, a gente topa a suposição de que escolhemos o que queríamos ser quando adultos, (nem sei se de fato me tornei adulto) comigo isso não aconteceu. Nunca soube o que queria ser, quando vi havia um par de baquetas numa mão e um livro na outra. Nunca tive problemas em me definir, apesar de meter o nariz além do olfato, penso que sou um músico e que todas as produções extra musicais são também feitas com o pensamento e as mãos de um músico. No fim baquetas e canetas se tornam ferramentas muito parecidas, pois a matéria prima é sempre a mesma: O Ouvido.


Muito do que eu vejo do seu trabalho tem a ver com sensações. E as da leitura, como são para você?

Caóticas, assim como as sensações da vida. A minha forma de leitura é a seguinte: preciso ler com música, preciso ler escrevendo e leio muitas vezes a mesma coisa (pode ser um parágrafo). Existe uma necessidade sonora nas minhas leituras, quando leio Eco preciso ouvir Cage e rabiscar muito. Imagine a tragédia. Ler é sempre uma forma de criar. Dependendo do que se lê, e eu prefiro as obras abertas, é possível resgatar as sensações da infância – quando se podia construir na imaginação o cenário, o rosto e o cheiro de um lugar ou uma cena – hoje em dia, temos essa infinidade de livros filmados e essa imensidão de resenhas cheias de interpretações pessoais em blogs sobre literatura. O que me prende numa leitura é justamente essas sensações e descompromissos de como “ganhar o diálogo” ou o mercado. Me interessa muito mais pensar num livro como companhia do que como mero objeto de culto intelectual.


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Me conta um pouco dessa passado punk/hardcore, e da ligação disso com as suas subversivas ideias anarquistas.

Cá estou, na janela ouvindo o som dos trovões, olhando para um arco-íris e respondendo suas perguntas no meu caderninho. Não me considero nem anarquista e nem budista, e ao mesmo tempo pratico uma mistura dos dois (Anarcobuda?). Eu escovo os dentes enquanto tomo banho, ouço Deftones, dance-music, boleros e depois Caetano Veloso, gravata sem camisa e sapato social. Subversátil.
Eu ficava gritando e batendo num baixo velho com alguns amigos em 1998, a banda se chamava Quetçal, era muita vontade de fazer barulho – a mesma de hoje. Antes era o overdrive, agora é o delay – as ferramentas servem apenas para buscar leveza em bigornas.


Como foi sair da bateria para a produção de diferentes sons e ruídos?

É meio como encher a geladeira de livros. Se trata de pensar música, respirando e caminhando, sendo sincero, sabe? Um dos meus primeiros presentes de aniversário foi um par de baquetas, mas de fato eu nunca fiquei preso num só instrumento (a propósito no Constantina tenho sido o sanfoneiro). A potência da música está nos timbres, eles carregam as surpresas que a gente encontra quando caminhamos pelas ruas da cidade. De vez em quando, eu ouço um caminhão passando e penso num beat, recentemente usei algumas fitas cassete emboladas para fazer isso. Algo próximo de quando você está andando com a chave no bolso e percebe um ritmo. A bateria é um instrumento, e por isso mesmo, limitado – com esse mundo de timbres disponíveis para o barco correr, não consigo mais pensar em música sem “ruído”.


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Nas suas memórias de infância os livros estiveram presentes?

“A porquinha do rabinho enrolado”, foi o primeiro livro que li e ainda o tenho. Lembrar esse primeiro contato com papel, cores e letra foi muito revelador, tenho alguns cadernos aqui que mostram que eu gostava muito de escrever, uma pena que não se pode entender uma palavra. Por outro lado, me lembro de usar os livros como bateria, espalhava sobre a cama e “largava a mão”, era bom bater neles depois de ler.


Você falou que não consegue ler sem escrever. É sempre à mão? Como ao responder essas perguntas? 

Exato, sempre escrevo e sempre à mão. Será medo de perder ideias? Será. No caso dessas perguntas, estão escritas num papel que levo comigo e respondo quando termino de pensar sobre elas. Não tem muito segredo, escrever é terapeutico.

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Você já conheceu alguma banda por causa de um livro ou algum livro por causa de uma banda? 

Acho que a única experiência que tive desse tipo foi com o The Doors e o Huxley, acabei lendo muita coisa dele por conta do primeiro contato com a história da banda.

Você é bem cuidadoso com sua imagem na internet, tudo é bem catalogado e organizado. Existe um método?

Quando encontrei esse meio, fiquei imaginando o que eu poderia fazer, a internet é realmente um campo minado. Essa organização toda é reflexo do que sou fora daqui, tento não me atrapalhar muito, sabe? Aqui cabe a escuta particular e exemplar simultaneamente. Existe sim um método, mas não existe uma fórmula, já que por aqui tudo está em constante mudança. Certa vez soltei um link de uma música nova de madrugada e consegui mais visualizações do que quando, noutro caso, soltei no horário comercial. O contrário também já aconteceu. Logo, não é possível criar uma fórmula mágica para divulgação, o que faço é compartilhar (palavra mágica) tudo que faço e tudo que me faz bem com os amigos. Sinceridade é a única coisa que funciona dentro e fora da internet.


Como era o GA estudante? Seus dias de escola foram proveitosos?

Como aluno fui um ótimo músico, meus professores devem se lembrar de mim como: O menino doido que batia em tudo. Sempre tentei ligar a música com tudo, mesmo quando parecia impossível. Eu poderia deixar aqui uma serie de ações de como não ser um bom aluno, mas no fim das contas fui uma pessoa feliz nos tempos de escola. De fato, aprendi muito mais depois que saí de lá.


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Dá para sentir que você é um cara um pouco avesso ao ensino formal, como se dá esse lance do faça-você-mesmo em sua vida?

Afeto-cultura. O ensino formal é lento, a imaginação é rápida. – ouvi essa frase de um senhor ou posso ter eu mesmo dito e estou mentindo. Sabe aquela frase do Duchamp “más ferramentas requerem maior destreza”? Pois bem, eu descobri isso na infância, carrego comigo essa vontade de resultado independente da ferramenta. É mais simples atender suas próprias exigências com o que se tem nas mãos.


Algum livro te traz à memória alguém importante na sua vida?

Todos os livros carregam, por aqui, uma história que ultrapassa o conteúdo das páginas. Há sempre uma lembrança quando tenho um livro nas mãos.


Para fechar. Me diz 5 álbuns de música que combinam para ouvir com 5 livros diferentes

Roland Barthes – O óbvio e o obtuso // Tim Hecker – Haunt me, haunt me do it again
Nuno Ramos – O mau vidraceiro // Múm –Please smile my noise bleed
Umberto Eco – A obra aberta // Greg Haines – Until The Point Of Hushed Support
John Cage – De segunda a um ano // Ethan Rose – Transference
Rodrigo de Souza Leão – O esquizóide // Andre Titcho - Ecolog

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2 comentários

  1. Acabo de ler a entrevista. Acabo de perceber também que tem exatamente dois anos que foi feita... hehe Como eu não li isso antes?? Muito bom ler essa entrevista e constatar que meu amigo GA, ou GArte para alguns.. está tendo todo o reconhecimento que merece! Você é sensacional!! Abraço afetuoso!! Kelly

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  2. Ah menino! Que bom ler tudo isso. Muito bom saber no que deu aquele barulho todo da infância. Que orgulho ter o mesmo sangue que corre nas suas veias. Voe alto que você tem asas pra isso. Beijos, Deus abençoe (saudades)

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