Por que vamos sentir falta do Trama Virtual?

por - 11:06

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Acho que já falamos muito sobre isso neste último mês. Ainda assim talvez menos do que deveríamos por conta de outros assuntos em pauta que roubam nossa atenção. O fato é que a partir de abril, a Trama Virtual será uma página virada no capítulo da internet brasileira e da história da cena independente na última década.


É claro que o cenário mudou, o mundo mudou e quase ninguém mais visitava a Trama Virtual pra pegar downloads. Mas o importante não era isso. O importante mesmo era o acervo. Era ter o portal como referência para buscar aquilo que você precisava conferir, ouvir e entender em um momento histórico.


Tal como uma biblioteca ou um arquivo público, a Trama Virtual hoje em dia era isso. Um local para consulta sempre que rolasse aquela curiosidade acerca daquela banda...


Pense como sendo aquela locadora de bairro que parou de comprar VHS e para dar fim ao estoque, resolveu vender tudo a R$ 1,99. Bem triste. Nem pelo fato da situação financeira da locadora, mas sim pelo destino do acervo que ficará agora espalhado pelo mundo em mãos que você não conhece e que não sabe se vai compartilhar o que tem.


O site da Trama Virtual era aquele ponto de referência onde você sabia que poderia encontrar a demo, o primeiro disco ou aquele single que você tinha em CD, mas não faz ideia de onde encontrar. Não raro, era um dos primeiros resultados do Google para sua busca de bandas nacionais nascidas entre 2001 e 2010.



Logo mais não teremos este catálogo de referência ali do lado. Suas músicas, arquivos e informações agora ficarão espalhados pela Internet ficando a critério de cada artista saber se vale a pena resgatar aquilo que um dia lhe foi tão importante. E considerando que boa parte das bandas brasileiras independentes não dura mais do que cinco anos, anote aí que 70% do catálogo de 78.731 artistas e 205.381 músicas vai parar no limbo.


Teremos que confiar agora nos serviços similares que existem e que tenha guardado músicas destes arquivos. Mas convenhamos... nunca usei ou baixei música de artistas que tenham se cadastrado em um site como o PalcoMP3. Primeiro pela falta de critério, ou você acha que iria procurar uma banda legal num portal que abriga músicas de Aviões do Forró, Exaltasamba e Bruno & Marrone? É o mesmo que procurar disco de grind nas Lojas Americanas.


Retomando o papo... o que diferenciava uma Trama Virtual de um Palco MP3 que tem quase o mesmo número de artistas e músicas cadastrados? Eu diria que é pelo histórico e conjunto da obra. Quando a Trama Virtual teve seu auge, mais ou menos entre 2005 e 2008, estar lá era o que havia de mais legal pras bandas, artistas, produtores e festivais.



A equipe do portal era antenada com o que estava rolando, tinha carta branca pra circular pelo país e ainda fazer um belo mapeamento da cena independente. Ter notícia do seu evento no portal era equivalente a uma matéria de página inteira em seu jornal impresso local, que talvez nem soubesse da existência dele. O ícone de "joinha" para artistas em destaque já era suficiente pra que as bandas o mencionassem em releases. Ou seja, a Trama Virtual era um selo de qualidade.


E quando o portal foi para a TV foi ainda mais incrível. Deve ter sido o canal de YouTube que mais assistia por um tempo, vendo as peripécias de Dago, Fernanda e cia pelo país em coberturas de festivais e eventos que dava vontade de ir só de ver as matérias. Por um tempo foi sintomático ver que a cena brasileira de festivais e bandas ia crescendo e tendo um respaldo ainda maior com a cobertura que a galera da Trama dedicava.



Mas como o que é bom dura pouco, depois que a "equipe clássica" foi saindo de lá, as mudanças começaram a aparecer. O modelo de "Download remunerado" aposentou o "joinha". Agora os grupos que tivessem mais músicas baixadas é que poderiam ganhar dinheiro. Um dinheiro, que na verdade, iria ser dividido do montante de acordo com o número total de downloads de maneira proporcional.


Ou seja, nada tão simples como prometia. Não cheguei a ver nenhuma das bandas que gostava aparecer no ranking de mais baixadas, mesmo com o lançamento que rolou em seguida do "Album Virtual", sendo este um hotsite pra divulgação de músicas de um determinado artista.



Os modelos pareciam promissores e tudo deveria seguir este caminho, mesmo que o público deixasse de frequentar esta locadora. Deveria, não é?! Mas se o aluguel continua a ser cobrado, as contas continuam chegando e o dono não tem mais vontade de promover a festa, o jeito é se mudar e os artistas procurarem um novo ponto pra descarregarem seu material.


Os serviços existem aos montes: Bandcamp, Soundcloud, Apps de Facebook... resta saber qual será, no entanto, a tendência a agrupar a maior parte dos artistas que gostamos. E num país onde a memória é precária e a preservação do patrimônio ainda pior, uma iniciativa como a Trama Virtual deveria ser tombada e guardada como um retrato do passado recente que corre o risco de se perder em meio a efemeridade da Internet.


RIP TRAMA VIRTUAL

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5 comentários

  1. A importância está exatamente em ser a Trama Virtual, a fama que ela ganhou que o artista estando em destaque lá, era garantia de qualidade. O que já é perigoso. Mas é isso. Uma pena. Também nunca baixei em Palcomp3 e similares, agora baixo pelo bandcamp. Mas muito pouco.

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  2. Por que é/era perigoso, Hugo?

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  3. Eu acho perigoso quando existe outros interesses, vide as bandas que ganham destaque na MTV. Mas não sei se chegou a rolar isso no TRAMA, dando mais destaque para bandas de selo ou "patrocinadas".

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  4. Na minha opinião, o bandcamp é o sucessor. O soundcloud não me parece um canal feito para bandas(mesmo que as mais mainstream usem), apps do facebook limita muito o uso, e palco mp3 é aquilo que foi dito, não da para misturar os estilos. Até da, mas não me parece uma boa idéia.
    E tem o quase finado myspace ainda alias, quando é o enterro?

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  5. O bandcamp é o caminho para qualquer banda independente, é uma ótima alternativa para as bandas nacionais.

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