Resenha: Jair Naves - E Você Se Sente Numa Cela Escura...

por - 14:04

Jair Naves - E Você Se Sente numa Cela Escura


É inadmissível, ao menos na minha cabeça, que eu não tenha resenhado até agora o primeiro álbum de Jair Naves. Mas tudo precisa ter um motivo e revelo a vocês: era demasiadamente complicado descrever de algum modo que não fosse um breve relato – como na justificativa dele ser o melhor disco de 2012 nessa lista -, o quão isso era importante para mim.


Em E Você Se Sente Numa Cela Escura, Planejando A Sua Fuga, Cavando O Chão Com As Próprias Unhas o músico transcende o que havia criado até então: tanto em suas músicas ‘roqueiras’ de um passado nem tão longínquo assim, enquanto vocalista do Ludovic, quanto em termos mais líricos e numa linha mais ‘folk’, por assim dizer, de seus primeiros trabalhos solos: o EP Araguari, de 2010 e o single Um Passo Por Vez.


O título, enorme e claustrofóbico, acaba revelando algo diferente na carreira do músico: não é mais sobre a falta de esperança, o sufocamento das cobranças da vida adulta e nem mais sobre o amor e as peripécias adolescentes relacionadas a ele, agora o tema acaba sendo a existência de uma expectativa para uma vida melhor, como disse o músico em entrevista à Soma: “se você morresse hoje e aí, você está satisfeito com o que você fez, com o que você é? No meu caso a resposta era não, então é uma busca para chegar numa coisa que eu idealizo e que quero alcançar um dia”.


O álbum é mais rock do que toda a carreira de Jair Naves como músico solo, entretanto, o lado do compositor que escreveu “Unha e Carne”, “Sob o Tapete Vermelho” (ambas do álbum Idioma Morto do Ludovic), “Silenciosa” e “Um Passo Por Vez” continua firme e em notória evolução em canções como “No Fim Da Ladeira, Entre Vielas Tortuosas” e “A Meu Ver”, onde as ideias parecem estar mais resolvidas que em canções anteriores, como na última estrofe: “Então me recebe como eu te receberia no melhor dos momentos ou no pior dos seus dias. Eu estou tão esgotado, tudo é frágil demais. Eu posso não estar aqui quando você olhar pra trás. Então hoje me abraça como eu te abraçaria no pior dos seus dias”.



Voltando ao lado mais rock do disco, a faixa que abre o álbum (e que inclusive ganhou clipe), “Pronto Para Morrer (O Poder de Uma Mentira Dita Mil Vezes)” é a descrição clara dos momentos mais pesados: uma guitarra distorcida, um vocal mais urgente e uma letra enigmática com trechos fortes, feitos sob medida para o modo que ela é cantada: "Minha baixa escolaridade é um espetáculo à parte / eu sei que pode te entreter / já que você vê comicidade / em tanta desigualdade".


No decorrer do álbum, entre as dez faixas que estão presentes nele, alguns momentos acalmam, como em “Maria Lúcia, Santa Cecília e Eu”, música escrita à mãe de Jair, pois segundo ele “tenho problema com homenagem póstuma, não acredito que as pessoas irão ver isso, e eu queria fazer isso para ela, enquanto ela estiver por aqui” e nela a evolução como compositor do músico fica evidente: as palavras usadas deixaram de ser aquelas mais rebuscadas de letras anteriores de seu trabalho para dar espaço a algo mais corriqueiro.


Sobre as canções mais rotineiras e o modo que as composições foram escritas, há algo que evidencia tudo isso, além de “Maria Lúcia, Santa Cecília e Eu”. A última faixa do álbum, “Eu Sonho Acordado”, Jair Naves descreve momentos dentro de ônibus, conversas de pessoas que estão ao seu lado e inclusive os pensamentos mais distantes do eu lírico: “Nas três horas diárias que eu passo / espremido em um ônibus lotado / indo e voltando do trabalho / eu sonho acordado / com a vingança dos torturados, / com a mulher que vai envelhecer ao meu lado, / com o meu pai ressuscitado... / Enfim, eu sonho acordado”.



O rock nacional, por assim dizer, é um gênero dos mais maltratados por aqui. Perdoem-me, mas atualmente é complicado tirar algumas bandas que realmente merecem destaques e os motivos são vários: desde fazerem um indie rock completamente chato e bobo, a ficar preso em um role de mais de vinte anos, buscando influências oitentistas e estagnando-se no tempo. Mas Jair Naves com E Você Se Sente..., surge como a esperança, dita até nas músicas, de um tempo melhor para o gênero nessas terras: o tom confessional, corriqueiro e a ausência do “rock cantado por Machado de Assis” só ajudaram o músico a ganhar o posto de melhor artista do gênero no país.

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