Sobre a Morte

por - 11:05

vanitas


Levantei da cama hoje de manhã estranhamente cedo pros meus hábitos atuais de vagabundo. Liguei o computador e vi a noticia da morte do Chorão, vocalista do Charlie Brown. Foi-se o tempo em que eu curtia a banda, nunca fui com a cara do vocal. Sabe como é, trair o movimento e a cena underground de Santos, aquele bla bla bla. Mesmo assim, aquilo me bateu numa espécie de tristeza camuflada no mau-humor de acordar com os vizinhos do lado assistindo globo rural como se estivessem dentro do meu quarto. O mesmo aconteceu quando fiquei sabendo da morte do Hugo Chavez ontem. Por esse, eu apresentava um pouco mais de interesse, seja pro mal ou pro bem. De qualquer forma, ficou o sentimento estranho; essa semana não vai ser como outra qualquer.


elo contrário meu caro, essa é uma semana como outras quaisquer (claro, excluídos os casos de membros de famílias e/ou amigos dos falecidos), afinal morre gente todo dia. Tipo, todo dia mesmo. Muita gente diz e reclama que a preocupação e a tristeza com morte de gente famosa é uma das mutações desnecessárias da midiatização das vidas e dessa mentira monstruosa e incrivelmente lucrativa que são as figuras publicas. Eu arrisco dizer que nesse caso, a questão vai um pouco além. Tenho a desoladora impressão de que as pessoas têm morrido mais do que antigamente, e isso é provavelmente uma grande bobagem. O nosso planeta tá ficando mesmo cada vez mais cheio e a coisa toda parece que vai explodir, então qual é o problema, afinal?


Hugo+Chavez


O que me parece é que a figura do Chorão, assim como a do Chavez, ou do Niemeyer, enfim, de figuras populares em geral, se torna um costume. Poxa, quando eu lia alguma coisa sobre Hugo Chavez e as brigas intermináveis com os Estados Unidos e o petróleo, ou quando eu recebia noticias do Chorão falando bobagem ou batendo em alguém, ou quando eu via o Niemeyer com vigor de menininho de 12 anos, por baixo das opiniões e das discussões sobre os assuntos em si, uma certeza confortável cantava baixinho no meu ouvido: as coisas continuam como são. Tirando os casos de fãs inúmeros que de alguma forma se identificavam com as obras desses caras (e isso tem que ser respeitado seja onde for, sejam eles intelectuais ou idiotas, esquerdistas cegos ou só esperançosos, skatistas geniais ou sem cérebro) e por isso se sentiam felizes, tudo que desaparece gera uma dor.


A morte parece ser um daqueles trabalhos de pontuação pequena que você tenta esquecer propositalmente quando está na escola. O que é a morte? “Oras, é o fim da coisa toda”. Talvez. Mas o momento não é de entrar em discussões de metafisica. A questão é que além da morte do individuo, é uma parte da gente que deixa de existir. É a nostalgia de lembrar-se da adolescência de metade do Brasil quando eu via o Chorão gritando “tcha pow Charlie tchpff tch Brown!” que não vai se repetir mais. É a lembrança um pouco assustadora de que as pessoas não se repetem, o mundo não se repete, a vida não se repete. O carinha da foice é, no final das contas, um alterador extremo de realidade. Um tapa na cara. E volta e meia, isso pode vir a calhar.


chorão


Os pensadores antigos e esses caras barbudos e sábios em geral pregavam o desprendimento das coisas, e eles tinham um termo exato pra isso: Memento Mori: Lembre-se da morte. Nesse aspecto, estamos prontos: O mundo é um constante lembrete de que as coisas passam, nos ônibus lotados que fogem do ponto no momento em que você chega, no dinheiro da cerveja que acaba instantaneamente, na oferta de emprego que você perde e em todo o resto dessa porcaria. Inclusive no cargo de presidente da Venezuela que vai ficar vazio pela primeira vez em anos, ainda que momentaneamente. Vazio: talvez seja esse o conceito mais difícil de entender e o responsável pela morte ser considerada algo tão horripilante. Pô, pode ser assim tão ruim?


E se não pela esperança na salvação das nossas almas perdidas, pela memória desses dois homens que essa semana se tornam exclusivamente memórias, acho bonito e um tanto quanto útil pensar no vazio como um piscar de olhos ou o pular de uma cachoeira. Boa sorte aos que pulam e que a vida tenha sido uma explosão gostosa. A gente fica por aqui lembrando (tentando, como é da natureza humana, guardar tudo aquilo que não pode ser guardado) e esperando a nossa vez. Somos todos afinal, de olhos fechados ou abertos, um amontoado curioso e singular de momentos na eternidade.

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