Calcanhar

por - 14:06

O Fantástico Mundo de Bobby


Preciso comprar meias novas. Aquele dia saí de casa com uma meia diferente em cada pé.


A constatação foi feita numa segunda de manhã enquanto me aprontava para o trabalho. Uma grande parte estava furada ou gasta demais nos calcanhares, mas não dei muita importância, podia até transformar aquilo em um hábito, usar meias trocadas para sempre. Talvez até aparecesse uma garota que achasse aquilo simplesmente um charme. Cruzaria uma perna por cima da outra lendo o jornal enquanto esperava pelo cappuccino em uma cafeteria perto do centro da cidade e ela atravessaria meu caminho percebendo que eu usava uma meia branca da Wilson e outra da Nike, e diria após morder o lábio o quanto era sofisticado um homem que ousa usar meias trocadas. Era óbvio que aconteceria, inevitável, não tinha forças para lutar contra aquilo. Deus gastou os calcanhares de algumas de minhas meias a fim de proporcionar o encontro entre eu e a mulher da minha vida, não havia outra explicação.


Um pedaço de bolo de milho frio mastigando rápido dava azia, mas eu gostava. Infelizmente não ia dar tempo de ver O Fantástico Mundo de Bobby até o final, aquele episódio em que ele tem medo de dormir por conta de monstros vindos do espaço durante a noite, uma lástima, tio Ted estava absolutamente fantástico naquele episódio, mas não podia me atrasar.


Catei as chaves, desliguei a televisão e saí repetindo diversas vezes que precisava me lembrar de abastecer o carro, o marcador de combustível do camarada Opala não estava funcionando, e, creio eu, já havia abusado da quilometragem.


A rua como sempre, as pessoas como sempre, tudo como toda segunda de manhã, aquele resto de preguiça dominical que ainda não teve tempo de abandonar o espírito das pessoas perambula pelas ruas.


No rádio novas notícias sobre as mesmas coisas de sempre, e claro, pesquisas comparativas sobre o comportamento sexual dos brasileiros, americanos e ingleses, e outros tipos de coisas indispensáveis para o bom funcionamento de nossa semana, como os benefícios da berinjela e os cortes de orçamento do governo.


Fiquei passeando pelas estações e encontrei os Mutantes, a jovem Rita cantando que eu precisava me lembrar da gasolina me apaixonou e fez com que eu me desse conta de que repetir continuamente algo que devo lembrar antes de sair de casa não funcionava. Parei no posto seguinte sem a certeza de que realmente precisava, mas era um Opala.


Saí do carro enquanto o frentista abastecia, olhei ao redor, uma senhora comprava chocolate diet, deve ser como mastigar uma barra de sabão, pensei. Placas circulares com um cigarro atravessado por uma tarja vermelha me presentearam com um jato supersônico quebrando a barreira do som dentro da minha cabeça.


O jato era assim, uma bola alaranjada descomunal tomando conta do posto logo que eu acendesse um cigarro perto da bomba de combustível, talvez uma quadra inteira pelos ares, o inferno na terra, um comércio inteiro em uma única tragada, uma explosão digna de John Woo, um monte de gente indo pelos ares numa segunda feira triste, e eu com um pretexto um tanto quanto razoável para não ir trabalhar, tirar férias na lua. Depois da explosão eu seria projetado direto pra lá.


Corri até a loja de conveniência e comprei um maço de cigarros e um isqueiro, nem fumava (mero detalhe), mas a possibilidade de não ir trabalhar me acendeu a vontade.


Saí da loja já carregando um entre os lábios, o frentista me observando indiferente. Fui ao seu encontro, ele me devolveu a chave e disse que o devia oitenta reais. Dei-lhe o dinheiro e me encostei ao lado da bomba, ele não entendeu. O olhei fixamente e trêmulo risquei a pedra do isqueiro levando-o aceso até o cigarro. O frentista me engoliu completamente em dois passos, arrancou o cigarro da minha boca e soltou um “Filho da puta louco.” meio não querendo, assim como se estivesse de boca cheia em seu horário de almoço. Pra ele era só a primeira do dia, o bom gosto pode até ser discutível, mas era uma piada.


Eu podia ter contado a ele sobre uma ressaca que tive uma vez na qual comi uma melancia que era tão grande que dava para deitar e dormir na casca, mas entrei no carro absolutamente atordoado, com pena daquele pobre homem. Fui embora, trabalhar para comprar meias novas, triste, sem dizer palavra, ele nunca havia assistido ao Fantástico Mundo de Bobby.

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1 comentários

  1. Com certeza,,já saí com uma camisa do lado avesso,depois que vi tava na rua,e mais: meias trocadas também.

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