Como a música está perdendo o campeonato para os VIPS

por - 11:06

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Cadeira, arquibancada ou geral? A dúvida é bem frequente nas partidas de futebol. Se você vai ver um jogo e torcer por um show do seu time, já sabe de antemão que pode ir pra algum destes lugares dependendo de sua condição financeira e se ainda tem vaga nestes setores. Mas independente do local onde estiver no estádio, você acaba indo pro jogo pra ver o jogo. Se chorar ou se sorrir, o importante é que a emoção que sentir vai vir da partida e do andamento do seu time.


Como os shows musicais em estádios e em grandes locais tem rolado com certa frequência, é bom ressaltar que neste caso de shows, quem garante presença em lugar privilegiado nem sempre vai pro show pra ver o show.


É um assunto batido, bastante comentado, mas que não dá pra ignorar enquanto existir esta segregação social em momentos de lazer que só vêm a refletir a injusta concentração de renda e uma mania feia da população nacional de querer ser melhor do que os outros até nesta hora.


Se até no carnaval os cordões de isolamento que criavam essa área de "gente diferenciada" estão deixando de existir, como é que retrocedemos tanto assim e deixamos criar estas pistas VIPs em shows? Oops... neste ano a Prefeitura do Recife criou uma mega área VIP em shows gratuitos no Marco Zero em pleno Carnaval. Como se já não bastassem os camarotes dos patrocinadores, agora até mesmo a área comum do chão está sendo dividida entre os meros mortais e os tais privilegiados.


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A questão é que essa VIPalização do setor de entretenimento no Brasil está se tornando uma coisa problemática. A criação de espaços VIP, Premium, Prime, Exclusive ou qualquer outro nome chique está condicionada de maneira inversamente proporcional ao interesse que a produtora que organiza o evento tem no show em si. O artista não gosta, o fã não gosta, mas o patrocinador e o organizador gostam. E agora?


Pelo lucro presumido que as empresas tem tido com esta prática, a tendência parece que vai aumentar até a área "comum" ser extinta e tudo ser uma imensa área VIP para uma galera que não quer ouvir música, apenas dar pinta e "socializar". Entretanto, no momento em que todos se tornarem VIPs, não duvide que algo a mais será criado para tornar ainda mais "especial" aquele que quer ser mais Prime do que os demais. Não duvide que repitam o esquema open bar+buffet que rolou em Belém em 2011 durante a passagem do Iron Maiden pela cidade.



O fato é que a ascenção econômica das classes sociais tem revelado este lado obscuro no comportamento do público, que até então parecia ignorar tal segregação do entretenimento. Parece que o aumento de renda acompanha um certo estilo Prime de ser em que o indivíduo, deslumbrado com o momento, necessita estar em evidência. Seja ocupando um lugar privilegiado, seja bebendo de graça ou simplesmente tendo acesso a algo que não vai usufruir. Nada mais do que o clássico "eu tenho, você não tem" que acirra ainda mais estas tensões existentes no país.


Ainda falta acontecer algo no Brasil como houve em Santiago em 2010, quando o público "comum" invadiu a área VIP e quebrou o muro de separação que havia no show do Rage Against The Machine.



Obviamente quem está na área VIP não quer abrir mão do seu "direito". Até porque dependendo de onde for o show, é bem provável esbarrar com famosos e globais neste cercadinho mágico, onde tudo pode acontecer. E tudo isso entra na conta do ingresso, onde "paga quem quer" e está preparado para pagar um salário mínimo por um ingresso de 1 ou 2h de show. Pra estas produtoras, a desculpa vai ser a mesma de que as carteiras de estudante prejudicam as vendas e que "estamos tendo muito prejuízo". Incrivelmente o fenômeno das pré-vendas esgotadas não parece refletir esta realidade de crise. Das duas uma: ou estamos ficando cada vez mais ricos, ou cada vez mais otários.


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Daí voltamos a nossa analogia do futebol e pensamos naquele torcedor que vai pro estádio pra beber numa área perto do gramado com direito a open bar, fica o jogo inteiro conversando e falando alto no celular, atrapalha até a equipe técnica e deixa de ver o gol do seu time. Situação improvável só no futebol porque nos shows de música que rolam por aqui...

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4 comentários

  1. Ótimo texto! Mas vale lembrar que já rolou isso aqui no Brasil sim! No show do Rage Against The Machine (pra variar hehe) no SWU, o próprio Zack incentivou a galera a pular as grades, e eles pularam!

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  2. No SWU de Itu, em 2010, aconteceu o mesmo que em Santiago.

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  3. Até fui rever a data do post.....realmente....isso aconteceu no show do Rage no SWU....e eu estava bem perto da grade qdo começou a pular....eu mesmo acabei sendo mandado pro "vip" pelos seguranças que não tinham mais como controlar a galera q estava caindo no corredor.....isso mostra alguma inconsistência no blog....

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  4. Capitalism is this.

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