Explosions in the sky e outras bombas menos agradáveis

por - 14:06

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Quem lê os meus textos já deve ter percebido uma afirmação constante: lutar contra o que é errado hoje é mais difícil do que nunca, porque é tudo muito discreto e disfarçado. Nos últimos meses eu estive numa vibe de descrença, vinda principalmente da morte inesperada da Trama Virtual e o cancelamento chocante do Sonar, em São Paulo. Eu assisto um discurso constante – e não exatamente errado, mas absurdamente inocente – de que o Brasil é o país da cena independente. Pô, shows bacanas, bandas fodas... A parte dos músicos tá até sendo bem realizada. Mas... e o apoio? Não sei se esse pensamento ronda também a cabeça dos leitores e filósofos de boteco em geral, mas existem momentos, escondidos e envergonhados, debaixo da cama e no escuro da noite, em que eu desacredito de manifestações populares. É um vicio e um instinto errado, eu sei: mas tem sido muito mais fácil tomar a ineficiência da vontade publica como explicação para os dias em que vivemos. Se não vivemos numa democracia tão democrática assim, por que fingir que está tudo bem?


Ao contrário do que eu já li em muito lugar, a resposta mais simples não costuma ser a verdadeira quando os envolvidos são seres humanos, e não eventos científicos. Até porque muitas vezes nós não agimos naturalmente e temos a habilidade afiada de nos enganarmos. Em qualquer quiproquó, treta ou desentendimento maior, fica então muito complicado encontrar culpados; informações são discretamente disfarçadas e perguntas são aleatoriamente (?) esquecidas. Num mundo de doenças que aprendem os mais inesperados jeitos de se transformar, a censura encontra seu jeito brasileirinho de agir.


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Volta e meia surgem pessoas e grupos que parecem ser um fino feixe de luz derramado nesses assuntos obscuros, encontrando uma forma mais acessível e popular de abordar coisas que antes eram consideradas distantes, inalcançáveis (seja a noção de que abaixo-assinado deveria ter poder sobre politico, seja a descoberta de que você e seus amigos podem conseguir a vinda da sua banda favorita para a sua cidade). Era a impressão que eu tinha do Queremos. Crowdfunding, uma iniciativa popular e uma ferramenta sem precedentes pra trazer shows pra sua cidadezinha que, por azar e por questões logísticas econômicas, fica fora do eixo Rio-São Paulo de cultura. Com a vinda da lendária Explosions In The Sky para o Brasil, eu gostaria de compartilhar uma história um tanto quanto desagradável que nós, postrockeiros de Belo Horizonte, vivenciamos. A vinda inicial da banda ao Brasil era programada para o Sonar, festival destinado a musica “alternativa” que chamou a atenção do Brasil numa edição de sucesso que ocorreu em 2012. Com o cancelamento do evento, a maioria do publico voltou às posições iniciais e às caras fechadas; era só esperar mais alguns anos. Eis que, alguns belorizontinos que eu conheço de muito perto tiveram a ideia de pedir o Explosions em Belo Horizonte. No Facebook mesmo, com um evento qualquer. A coisa cresceu mais do que o esperado e recebemos a tão necessária atenção do Queremos. A partir daí, o evento no site deles foi criado, e a oportunidade da vinda se tornou mais concreta. Foi um momento de esperança incomum. Sabe quando você assiste algo sincero crescer, espontaneamente, e parece certo o desfrute de um trabalho baseado puramente na vontade? Infelizmente, a minha amargura não vem sem motivos.


A iniciativa belorizontina (que até o final do evento, foi a responsável pela maior porcentagem de pedidos e votações) provocou manifestações também no Rio de Janeiro. O evento cresceu, o que nos deixou orgulhosos de nossos vizinhos, ainda que não fosse uma expressão tão significativa em números quanto a que ocorreu por aqui. Só mais uma mostra de como não concordamos com a monopolização do mercado de eventos culturais. Vale lembrar que, após o cancelamento do Sonár, São Paulo não se posicionou, ao menos por meio do Queremos, quanto à vontade de algum outro show dos caras. Quando veio a noticia de que o Queremos conseguiu a marcação do EITS no Brasil, fiquei relaxado. A indignação veio quando descobri que Belo Horizonte, a cidade responsável pelo inicio do movimento e pela maioria isolada das mobilizações, não foi incluída. São Paulo hospedará os caras em dois shows, e o Rio os receberá no Circo Voador. Me encontro então, novamente na metáfora dos maiores enfrentamentos do dia-a-dia. É estupidamente claro que há algo de errado. E o responsável pelo erro permanece mudo, de forma que não fica exatamente claro o que fazer. Se o show carioca foi organizado pelo Queremos, qual foi o critério utilizado para a seleção do Rio de Janeiro? Belo Horizonte foi pioneira na participação (e em números) popular; nenhuma questão de agenda ou disponibilidade justificaria a exclusão de BH. Se outro critério foi usado para a marcação dos shows, como o interesse econômico, ou a necessidade de patrocinadores, fica difícil acreditar que a organização está realmente preocupada com os fãs. Quero deixar claro que são apenas especulações, e que a falta de respostas válidas por parte dos envolvidos é a principal culpada pela duvida e pelos desafetos. Não escrevo aqui como um mineiro revoltado, mas como um ser humano que não entende o que pode ser mais importante do que a manifestação popular e a vontade da maioria num caso como esse. Fica a reflexão, e o curioso fato de que a maioria dos problemas que ocorrem em tantas áreas da existência tem sempre algumas características em comum. No mais, temos que pensar em todas as possibilidades: Sempre existe a chance de que os caras do EITS simplesmente não sejam fãs de mares de morro, Drumond e café com pão de queijo.


Como esperado, o problema do EITS não é com o pão de queijo. Hoje recebi (e agradeço por)uma resposta esclarecedora de um dos fundadores do Queremos, dando uma ideia do que realmente aconteceu. Aqui eu reproduzo a mensagem:

“Queremos

Oi João,
Tudo bom? É o Bruno Natal escrevendo aqui, um dos fundadores do Queremos!

Acompanhamos a sua empolgação com alegria e felizes de ver a plataforma do Queremos! ser usada para computar os pedidos pelo show.

Vendo os números (que sim, eram mto bons) tentamos incluir um show em BH. O show do Rio estava sendo negociado desde dezembro, quando eles ainda vinham ao Brasil tocar no Sonar e nos foi oferecido para cidade.
Nós tínhamos a possibilidade de uma data no Rio acertada com a banda. Em SP os shows não são produzidos por nós ou organizados através da plataforma do Queremos.

Infelizmente, não deu. Primeiro pela indisponibilidade de datas da banda, que já estava com a agenda fechada no Brasil e com data pra ir embora (inclusive em relação aos vistos). Mesmo assim, pesquisamos pra ver se conseguíamos fazer uma proposta que fosse atraente para banda e tentar mudar esse panorama.

Nenhuma das casas com que falamos tinha disponível o que seria a possível data. E os custos e riscos envolvidos não interessaram nenhum produtor local. A conta simplesmente não fechava (custos x preço de ingressos x tamanho das casas x reembolso dos empolgados).

Li seu texto e entendi que, baseado nas informações que vc tinha disponível, essa era análise que vc podia fazer. Justo. Mas está equivocada. O Multishow teria apoiado o show em BH de toda maneira, por exemplo, pois é nosso parceiro de mídia, ajudando na divulgação.

Tendo ideias e sugestoes de solucoes para proximos shows será um prazer conversar. Nossa ideia é fazer mais shows em mais lugares, sempre. Já fizemos três shows em BH e é a cidade que temos a parcerias mais adiantadas (além de ser a campeã de participações nas campanhas no Rio).

É um processo que as vezes leva mais tempo que gostaríamos, por não controlarmos todas as etapas do processo.
Fique a vontade para compartilhar essa resposta com seus amigos e leitores, se achar conveniente.
Espero ter respondido suas questões.

Abs,
Bruno."

Isso aí é muito importante pra que a gente entenda os problemas e continue encontrando soluções. Esse é o tipo de conversa que precisaria de mais alguns textos, mas fica pra depois. Conclusões equivocadas substituídas, vamos ler e pensar no que aconteceu. Eu prometo que farei isso!

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9 comentários

  1. Excelente texto!

    Só queria fazer uma observação: não é diferente do mundo inteiro. Nós sabemos onde estão as boas bandas. Algumas delas no mainstream e a grande maioria segue 'desconhecida' . Mas o mundo todo está desse jeito, exceto 2 ou 3 países que investem na cena ou que, culturalmente, já tem tradição em música para entretenimento . Os outros duzentos e cacetada passam pela mesma dificuldade.

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  2. João, pelo que sei, o Queremos depende de um produtor local, não? Alguém aqui em BH se dispôs a produzir e mesmo assim não rolou?

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  3. Herbert, a informação passada pro pessoal de BH não incluia a necessidade de que a gente buscasse um produtor... E inclusive, a justificativa dada pelo pessoal do Queremos foi a de que o show não poderia acontecer por um problema de "agenda". Uma banda desse tamanho, e a quantidade de pessoas que se interessaram, encontrar um produtor seria a coisa mais tranquila, se a busca de um produtor fosse tarefa do publico que deu a ideia.A questão é que isso não foi dado como motivo, e eu não acredito que o Queremos não tenha conseguido ( caso tenha tentado) um produtor pro evento em BH. Com certeza não encontrariam um tão grande como o Multishow, isso é verdade.

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  4. Concordo contigo, Marlo. E é exatamente por isso que eu acredito que os eventos de cunho "não-mainstream" tem que ser feitos e discutidos por parte da gente, os poucos que se interessam. E se todas as partes envolvidas puderem tratar o assunto com seriedade e (em primeiro lugar) atenção às bandas e ao publico, fica mais agradável seguir em frente.

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  5. É triste, mas o fato envolve ainda n variáveis. Produzir um show do porte da banda numa cidade como BH requer uma precaução redobrada (acredito eu). Infelizmente, mesmo com a grande mobilização em redes sociais, nada garantiria (como nunca garantiu) movimento real no show. Nem acho que sejamos um público inerte, acomodado, mas em questões logísticas deve haver o risco de ser algo oneroso para banda/produtores. Não sei...

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  6. É uma justificativa bastante contraproducente à proposta do Queremos. Mas, isso também não é de hoje. Quem sabe não aparece uma nova solução por aí. (rs). (PS - Ontem, quis "twittar" o artigo, acompanhado do perfil no twitter, no autor. Não encontrei e desisti. O Sr. João Carvalho, tem perfil no Twitter?). Abç.

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  7. Entendi. Uma pena. Alguem poderia mandar um email para a banda, pelo site oficial, contando essa historia.

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  8. Pô Marcos, muito obrigado, e tenho sim! Mas sabe como é, tem trezentas dezenas de milhares de Joões Carvalhos por aí, então tive que achar alguma coisa diferente. O twitter é @umjoaoqualquer .
    Obrigado pela atenção : )

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  9. Herbert, sabe que não tinha pensado nisso? Acho uma boa! Vou dar uma rearranjada no texto pra não queimar muito o filme de ninguém, sabe? e quem sabe a gente consegue marcar um show aqui pra mais tarde? Valeu pela ideia!

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