HR & Bad Brains, ou como construir uma lenda viva

por - 14:07

[caption id="attachment_20214" align="aligncenter" width="640"]ingressos #1 e #2 do show. sou fã mesmo, juro! ingressos #1 e #2 do show. sou fã mesmo, juro![/caption]

pensei em várias formas de começar esse relato, mas até agora nenhuma das formas saiu satisfatória sem parecer ou tendencioso, ou cruel, ou conivente. pois bem, então a gente conta a história e tenta deixar livre pra que cada um forme sua própria opinião.


sexta feira dia 5 de abril, zona oeste de SP. a casa de shows Via Marques se prepara pra receber uma banda histórica e seu mitológico frontman. é um sentimento unânime no universo punk/hardcore: o quarteto americano Bad Brains "foi" a banda que melhor representou/sonorizou o estilo. foi ou é?... essa é a primeira questão.


o lugar mais alto no pódio do punk/hc seria colocado em prova pra mais ou menos mil espectadores que, em sua maioria arrebatadora, nunca haviam visto o Bad Brains na vida e só degustavam do mito. uma boa parte ali já tinha visto a banda numa tour de 2008, mas com o jovem rasta Israel Joseph-I nos vocais, que por sinal foi um show incrível e arrebatador: desloquei meu ombro direito com um stage-dive mortal nessa ocasião, quando o hino I Against I veio à tona. foi a primeira vez em 20 anos de "punk rock listener" que me arrisquei num stage dive, pra ter ideia do que essa banda significa pra mim. sou fã incondicional, não nego, repito quando puder. mas concerto-fetiche pros fãs, aquele com o vocalista original, o incrível HR, ainda era um sonho quase inalcançável pra todos os entusiastas do estilo - aí onde eu me elevo acima dos meros mortais! porque tive a oportunidade de presenciá-lo (Bad Brains com HR), ainda que tardio, em 2000, quando passava minha temporada no Japão.




[caption id="attachment_20215" align="aligncenter" width="640"]bad_brains Foto por Danilo Souza para o site Zona Punk[/caption]

na ocasião aconteceu um festival em Tokyo, ao lado da Disney japonesa, onde também tocaram outras interessantes atrações: H2O, De La Soul, Dog Eat Dog (sic), Dance Hall Crashers e... MC HAMMER (sério!). fechando a noite, Bad Brains com o mito HR nos vocais. na época a excentricidade de HR já estava em níveis altos a ponto de mudarem o nome pra SOUL BRAINS: de acordo com HR, a expressão "bad brains" havia se tornado um ponto negativo. esse show eu posso dizer que foi EXCÊNTRICO. HR me aparece no palco vestido de boneca vudu: um casaquinho justo dourado e cheio de bordados primorosos, em cima de um imenso e amarelado vestido de noiva (!!!) e na cabeça um chapéu mesopotâmico no melhor estilo rastafári selassieniano. e com um violão quebrado na mão. ele dividia o tempo no palco entre tentar tocar o violão quebrado e equilibrar aquele chapéu maldito na cabeça. mas cantava. entre intervalos das músicas, se abaixava e pegava uma bíblia comum, de onde recitava um salmo e abençoava a japonesada com um um tom jamaicano: "JAH BLESS YA, MA CHILDREMMM..."; foi um show incrível que levarei pra sempre comigo nas minhas melhores lembranças.


voltando pra 2013, zona oeste de SP. depois da banda de abertura, o Paúra, cumprir seu prometido tanto em sonoridade quanto em horário, o público que se amontoava na casa esperou cerca de 50 minutos até alguém convencer HR a subir no palco com seus velhos companheiros Dr Know, Daryll e Earl. aqui já transformado num velho senhor, HR aparece usando as mesmas roupas que já circulava desde sua chegada no país: um agasalho verde da adidas sobre um composto camisa/gravata bem discreto, botas, e uma boina na cabeça. trouxe algumas mochilas pro palco também. estranho, mas é o HR.



o que se passou nos 40 ou 50 minutos seguinte foi realmente estranho, bizarro, quase inexplicável, pra não dizer "depreciativo": uma centena de pessoas enlouquecidas apenas com a presença de HR no palco. digo apenas com a presença, porque não houve muito mais que isso; HR se prostrou sobre o palco a uma certa distância do microfone, e apenas gesticulava com os braços, hora em processo de louvor, hora sem nenhum significado comum aparente, fazendo caras e bocas. demonstrava visivelmente que havia algo de errado. seu rosto não demonstrava, digamos, sanidade. como posso explicar?... bem, você já viu um morador de rua, daqueles que conversam fervorozamente sozinhos, que gesticulam bravos pro céu, que sorri ao mesmo tempo que se espanta? sabe do que eu tô falando? essas pessoas que você vê claramente que a crueldade do mundo abalou sériamente a sanidade mental? sabe? então: HR estava exatamente com essa expressão no rosto.


o show inteiro se discorreu dessa forma. ele ocasionalmente murmurava no microfone em pontos-chave das canções, e realizava algumas inflexões vocais nos momentos que a banda emendava, de forma ainda excepcional e concisa, os seus hinos reggae que sempre foram de qualidade indescritíveis, facilmente acima de qualquer fulano que se entitule um verdadeiro regueiro/guerreiro de JAH e que puxe melequinhas bunda-molescas de reggae fuleiro. Bad Brains não. Bad Brains nasceram pra isso tanto quanto pro punk rock. Voltaram pra um único bis, e pela terceira vez na vida eu vi o Bad Brains tocando I Against I, e quase me emocionei de novo vendo HR se esforçar pra desenvolver sua parcela no conjunto todo. e foi isso. fim de show.


cheguei em casa tarde da noite e, por algum motivo que eu sabia mas não queria admitir, fiz questão de botar pra tocar esse video, ao vivo no CBGB's - 1982, com o Bad Brains na sua mais perfeita forma, com HR sendo um monstro no palco, uma performance amendrontadora e insuperável:



preferia ficar com a imagem dos BB que eu já tinha nesse vídeo, do que a que eu vi no palco daquela noite. mas ver esse video logo após o show físico foi doloroso: ficava óbvio que HR não era mais o mesmo fazia era tempo. havia algo de errado com HR, isso ficava claro e visível. o que teria acontecido com o velho afro-punk? a velhice não foi gentil com ele, mas por quê? será que a junção de extrema idiossincrasia com muito haxixe na cabeça abalaram uma mente sadia? ou será que essa bomba só ajudou a fomentar um mal que, de qualquer maneira, clean ou junk, ocorreria com a pessoa quando ela atingisse uma idade avançada? bom, eu não sei. e apesar de muito apreciar o trabalho da banda e de HR, não é de meu interesse buscar por informações de atos corriqueiros nas vidas de meus ídolos, não sou desse tipo. mas confesso que fiquei com um sentimento de pena terrível do que eu vi. e acho que trazer ele foi um erro.


mas né! quem sou eu, quando um batalhão de fãs, produtores, e até dos companheiros de banda, pra dizer como, onde e quando HR pode sair de casa e encarar um palco com centenas de pessoas que, de qualquer maneira, irão se regozijar só da presença da criatura ali, mesmo que estática e sem desenvolver o que veio pra fazer? quem sou eu?? não sou ninguém. apenas mais um espectador. mas eu acho que algo deveria ser repensado nessa situação toda. e pensando nessa situação, eu ali, no meio das centenas de pessoas maravilhadas/estupefatas com aquela situação incrédula, e HR lá no palco, sem conseguir imaginar o que se passava no universo particular da mente dele, finalmente compreendi o que é construir uma lenda viva, algo que se estendeu bem além de uma simples cena local temporal, muito além de um quarteto punk tocando em extase o que gosta de tocar. HR e seus companheiros hoje são alvos de respeito e admiração mesmo sem fazer nada, mesmo sem abrirem a boca.


de qualquer forma, o show não mudou nada do que eu penso sobre os Bad Brains. me esforcei pra ver a banda quantas vezes me foi possível. na volta do show de 2000, no Japão, quase bati meu carro por causa de sono e cansaço de trabalhar e dirigir e ver o show as 6 da manhã e dirigir de volta pra casa. quase quebrei meu braço no show de 2008. quando montei minha primeira banda punk/hc, a primeira ideia que eu e meus dois companheiros de banda tivemos foi incluir Right Brigade no set list. meu tributo à esses quatro caras permanece aqui e pra sempre em minha mente, como a melhor banda de punk/hardcore da historia do estilo. inclusive aceitando até no meu coração ateu um pouquinho de JAH, só porque esses quatro faziam algo com perfeição e talento natural, dessa forma aí, do vídeo acima, em nome dele. JAH RASTA FAR-I.

Você também pode gostar

12 comentários

  1. Cara, que texto!

    Muita falta de sensibilidade botar o HR neste estado em cima do palco. Diria até falta de respeito por tudo o que ele representa para os fãs.

    ResponderExcluir
  2. Olá, Wash.
    Concordo com o que você escreveu. Fui ao show de 2008, que achei foda, e fui nesse show de sexta pra "finalmente ver Bad Brains com H.R"... é duro dizer, uma vez que sou muito fã da banda, mas me senti enganado; pagar pra ver o H.R balbuciar foi foda. Muita falta de respeito da parte deles... haja PMA pra aguentar uma merda daquela...

    ResponderExcluir
  3. ´Otima resenha!
    Estive no show, pensei e senti o mesmo que você. Quando cheguei em casa tratei de pesquisar textos e ver videos, tantos antigos como os mais recentes para ver se tinha algum show em que ele não cantasse. Não achei. Pelo twitter alguem postou um entrevista da banda em 2008, explicando porque o HR não viria ao Brasil. Foram sensatos, mas porque deixaram de ser dessa vez?
    Gostaria muito de saber o que se passa. O que percebi vendo o show foi que os outros músicos não estranharam a reação, ou falta dela, do HR.
    Pelo o que vi, ontem no show no Chile foi parecido, mas lá ele soltou mais a voz.
    Triste.

    ResponderExcluir
  4. Fiquei triste por não ter podido sair do Rio para ir, mas depois de ler seu texto, sinto-me melhor. Alguns revivals não deveriam acontecer, em nome do legado dos revividos. Excelente resenha. Parabéns!

    ResponderExcluir
  5. Ótima resenha. Eu fiz exatamente a mesma coisa assim que cheguei em casa, vi o mesmo vídeo.

    ResponderExcluir
  6. Concordo, Wash. HR não deveria estar ali em cima do palco. O que presenciámos foi algo triste, na minha opinião. Faltou respeito e bom senso. Não conosco (todo mundo meio que sabia que a coisa seria por aí), mas sim com ele.

    abs!

    ResponderExcluir
  7. H.R. foi diagnosticado a alguns anos atras como schizofrenico e claramente nao tem mais condiçoes fisicas nem psicologicas para ser aquele frontman que todo mundo espera!!!

    ResponderExcluir
  8. HR tem esquizofrenia diagnosticada, agravada pelo fato de, devido a sua crença extremada no rastafarismo, se recusar a se abster definitivamente da ganja, o q ajudaria a medicação q ele toma a funcionar adequadamente. Então show dos BBs hj em dia é uma loteria, vc pode ver uma excelente banda liderada por um vocalista q já teve dias melhores ou... o q aconteceu sexta. Fui consciente disso no show, p honrar minha promessa de ir se o HR voltasse pra banda, justificativa de ter me recusado a ir no show anterior no Brasil. De certa maneira, mesmo no seu alheiamento total da função, o homem cumpriu a função de ser o ponto focal da banda, e me diverti bastante. Cumpri meu dever de fã de ir lá pagar p ver e cantar junto. Seria bom se todos q foram lá tivessem a hombridade de fazerem o mesmo, ou se informassem direito e tivessem ficado em casa ao invés de ir lá p ficar mostrando as tattoos e fazendo cara de mau p depois sairem dizendo q se decepcionaram c um show q tinha 95% de chance de dar errado do ponto de vista estritamente profissional de qualquer maneira.

    ResponderExcluir
  9. Ola Wash, eu tambem soul um fa ferenho da banda,Desde meados de 1997.Dai em diante eu tatuei em meu coracao esta banda.Nao tive essa honra que vc teve de ver os caras no Japao na formacao ORIGINAL, na unica chance que tive em ver eles aqui na epoca com o Israel Josefh-I nao fui porque falei que veria BB se fosse com HR, idiota eu pra caralho! Meu imao Sergio HC viu o show e disse que foi um dos melhores. Beleza,quando eu soube que BB viria ao Brasil fiquei louko porque de um jeito ou de outro eu iria mas nao foi possivel.Mas soube por intermedio do meu Irmao Sergio HC que a apresentacao ficou a desejar . Logo meu irmao falou pra eu ler tua materia que eu iria entender porque o show foi um fiasco.Agora sim eu entendi.E eu nao queria acreditar nisso mas nao teve como,agora so me resta ver o DVD deles ao vivo no CBGB`S DE 82 pra igual a vc ter o HR no auge de sua forma e nao deste jeito que eu vi ele na foto.Eu sei que ele nem eu vms ficar jovens pra sempre mas ver o cara que eu sempre admirei assim e FODA! Abraco Wash! Jah Rasta Far I.

    ResponderExcluir
  10. o cara tava na noia seus pregos vcs ja viram alguem fumar um mesclado ê a mesma brisa,entendamm

    ResponderExcluir
  11. Parabéns pelo texto e relato.
    Compartilho do mesmo ponto de vista.

    ResponderExcluir
  12. Ótimo texto! Só a parte sobre o nome "soul brains" ter sido por imposição do HR não procede. A banda perdeu os direitos do nome "Bad Brains" por um tempo, e teve que se apresentar com esse nome para evitar problemas judiciais.

    ResponderExcluir