Mente vazia num ônibus lotado: viajando em novos ecossistemas

por - 14:08

cientista de buso


Um dia desses estava atrasado pra ir trabalhar. Aliás, eu me atraso bastante pra ir trabalhar. Não que seja o pior trabalho do mundo, eu só não sou o melhor dos funcionários mesmo. As pessoas falam tanto pra gente aproveitar a vida que quando você se atrasa pra ir trabalhar, já nem se sente tão culpado quanto deveria. E nem é pelo clichê de comercial de absorvente, é só pela desculpa esfarrapada de se poder explicar um atraso sem passar a imagem de ser um cuca-fresca que acha que ainda pode viver como se estivesse no ensino médio. Reflexões a parte, não era um atraso considerável, eu conseguiria chegar a tempo se pegasse o primeiro ônibus que visse pela frente. E assim o fiz.


Só não sabia o que me aguardava no coletivo que peguei. Na verdade, nunca dá pra esperar o que virá nos coletivos da vida. Pagando a tarifa mais cara do Brasil, a única coisa que não dá pra esperar é o cobrador servindo piña colada pra galera. Já peguei ônibus com baratas, já vi moshpit pós-catraca e até já senti amor dentro do ônibus, mas nunca iria esperar o que vivenciei naquele dia: um ônibus com ar-condicionado. Eu sei, eles não são novidade nenhuma. Porra, nem mesmo o ar-condicionado é novidade nessa São Paulo privatizada, ainda que se dependesse do Geraldo Alckmin, uma licitação já estaria rolando só para que eu pudesse expressar minha singela opinião, mas o que realmente me impressionou no tal busão com ar-condicionado foram as condições do mesmo.


Havia lugares disponíveis, o que é sempre bom, mas as janelas eram meramente ilustrativas. Elas não abrem para o ar frio não vazar e não destruir completamente a ideia de ar-condicionado, mas o problema estava na atmosfera própria que o ônibus havia criado. É quase normal ver baratas dentro de um ônibus. Ok, não é tão normal, mas seria normal reconhecer uma barata. Entretanto, naquele coletivo, era provável que insetos adaptados a outro tipo de ecossistema aparecessem naquela atmosfera de tosse de criança, cheiro de fralda geriátrica e óleo monange azul, que a Xuxa passava na pele pra ficar macia e sedosa. A mistura era como napalm para as narinas. E eu não era o único a achar aquilo, já que as tosses dos outros passageiros não me deixavam pensar em outra coisa. Cobrador e motorista respectivamente eram habituados com tal bioma ou deviam ser Wolverine e Homem Aranha em seus empregos diurnos.


O bizarro é que já peguei outros ônibus com tal recurso refrescante, mas nenhum deles tinha sua própria atmosfera. Cheiros num busão são bem comuns, sejam eles ruins ou piores, afinal coletivo é coisa de gente que trabalha o dia inteiro igual um castor e depois só quer ir pra casa descansar e exalar o cheiro que bem entender. Talvez não tão literalmente, mas feder é perdoável num ônibus. Quer sentir cheiro bom? Passeie num jardim botânico. Ao pagar aqueles chorados três reais, você assina um contrato imaginário com sua saúde física e mental a fim de descobrir se ambos andam em dia ou se vão entrar em colapso em algum momento. No meu caso, sobrevivi. Possivelmente ninguém morreu por entrar num bio-tubo contendo a atmosfera de Júpiter quando se estava atrasado para trabalhar, mas bem que esta foi uma experiência que vale a pena ser contada como troféu de guerra. E se você vier a entrar neste ônibus em específico e tiver lido este registro, você vai se lembrar. Só espero que sobreviva também.


somos nos

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