Traçado

por - 11:09

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Havia uma voz atravessando um tubo de PVC até chegar ao meu ouvido, me perguntando coisas que eu não tinha a menor disposição de responder, porque eu tinha só uns seis ou sete anos e estava preocupado com outras coisas, como por exemplo, o tamanho da barriga da minha mãe. Diziam que outro de mim sairia de lá ou coisa parecida. Eu estava em pânico, sendo esmagado e logo depois triturado por essa coisa inominável, ao mesmo tempo tentava agir com sensatez diante de uma paixão não correspondida por mim.


— Você me ama?


— Não.


— Então por que você me beija?


— Num sei, porque você me obriga. Falei tirando imediatamente o tubo da minha orelha.


Ela não me obrigava, mas lá dentro da minha cabeça, minha curiosidade por saber de onde ela tirava aquelas ideias absurdas, tipo, na época eram ideias absurdas, me levavam a fazer a coisa só pela sensação estranha que sentia depois que tudo acontecia. Ela me beijava, roçava em mim, e depois dizia que me amava através de um cano que havia achado na rua, encostava o cano em minha orelha e com seu vestido amarrotado e sujo de areia do parquinho ficava a uma distância razoável, sussurrando perguntas.


Aquele dia, depois de fumar um, pensei que seria interessante falar com ela sobre essas coisas que aconteceram entre nós tantos anos atrás, esse romance retorcido.


Eu fui cruel? Acho que não. Queria fazer um telefonema para Deus e dizer que sinto muito se a magoei, eu estava preocupado demais com aquela coisa (meu irmão) se movendo dentro da barriga da minha mãe, e além do mais eu nem tenho o número.


Estava sendo um dia estressante para mim, eu não podia me desculpar com meu pequeno primeiro romance e não tinha dinheiro suficiente para ir ver o cara que imitava o Elvis no boteco perto de casa.


Damião era o nome da figura. Você estava lá bebendo numa boa e ele sentado duas ou três mesas à frente com seu amigo inseparável, o cara do chapéu marrom, e de repente ele se levantava e começava a cantar a plenos pulmões “Rubberneckin’”. Imediatamente o homem de chapéu marrom se levantava, dava um soco de baixo pra cima no ar e gritava: “yes!”.


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Eu já ultrapassava quatro anos de duas décadas, dentro de poucos meses eu teria um quarto de século e ainda ficava receoso do que minha mãe diria ao entrar no meu quarto.


Ouvi passos, era ela, parada frente a minha porta, tentando me ver através da madeira, a mulher mais preocupada do mundo pedindo pela terceira ou quarta vez naquela semana que eu fosse cortar o cabelo, e ela tinha razão, eu não penteava, tomava banho, passava a mão e pronto, tava no jeito.


— Calixto, você precisa ir cortar esse cabelo. E se te ligam pra uma entrevista? Eu não era um cara famoso, eu era um cara desempregado.


— Qualquer hora dessas eu corto, mãe.


— Nada de qualquer hora dessas, vai cortar agora, toma o dinheiro. Vi a fortuna


escorregando por baixo da porta, mania besta que ela tinha desde que eu ouvia declarações de amor por um cano.


Quinze reais, ou como diria um tio meu, “quinze dinheiros”. Aquilo solucionava uma parte da minha inquietação, eu poderia procurar um salão assim, digamos, mais vagabundo se eu andasse um pouco mais lá pela W3 pra achar um lugar que cobrasse uns sete reais pelo corte e usar os outros oito pra tomar uma cerveja, e talvez umas duas doses de traçado. E pelo amor de todo ser que há na terra, ver o “Elvis”.


Botei a cara fora de casa e o ar quente típico de setembro, empoeirado e com umidade calamitosa adentrou minhas narinas. A solução? Acendi um cigarro, o primeiro do dia. As pernas amoleceram e senti aquela sensação engraçada e enfadonha de que agora podia chamar a cidade inteira pra cair na porrada.


Coincidentemente o boteco onde eu beberia mais tarde ficava no caminho do lugar que eu procurava para cortar o cabelo. “Elvis” já estava lá, sentado com o cara do chapéu marrom, esperando que a inspiração brotasse de suas vísceras para cantar.


Eu não resisti, eu acharia o lugar, era óbvio, então desci uma gelada. Tomaria só aquela por enquanto, torcendo pra que o cara não cantasse enquanto eu ainda não tivesse cortado o cabelo, as circunstancias prometiam uma noite de gala, ele estava com o violão encostado na mesa e vestido com uma roupa dourada. Quando voltasse, com o cabelo já nos trinques, eu tomaria meu traçado.


Como era de se esperar eu achei um salão dos que procurava, e para o meu


delírio o corte era apenas cinco reais com máquina. Não pensei duas vezes.


— O que vai ser, meu jovem?


— Zero. Já podia sentir a água do chuveiro batendo diretamente no meu coco.


— Tem certeza? Seu cabelo é tão fino. Ele disse isso como se me interessasse


muito.


— Pode passar a zero. Falei com a voz firme.


Acontece que a porra da máquina era tão escrota que minha cabeça ficou com alguns rastros, como se uma dupla de besouros tivessem feito nela uma festa. E agora, como ficaria minha noite de gala?


Eu senti raiva. Minha raiva era como as ondas produzidas na superfície de um copo de Coca-Cola depois de um soco forte dado na mesa. Eu fui sabotado. Queria dizer ao ser sem compaixão que havia feito aquela barbaridade que eu o odiava, que queria matá-lo, que ele era um imaturo, um cretino, um verdadeiro facínora, e que eu nunca mais pisaria naquela espelunca. Mas que diferença faria?


Já era quase noite quando desci da W3 para o boteco na 312, estava envergonhado pelo corte de cabelo absurdo que estava comigo. O Desfrut Bar haveria de dar um jeito.


Sentei e pedi um traçado, dali pouco tempo, a coisa aconteceu. Seu Damião levantou-se e encarnou o Elvis com direito a violão e tudo, o homem do chapéu marrom e seu entusiasmo com a imitação tosca do amigo me causaram risos de novo.


Como ele estava com o violão eu pedi que dessa vez cantasse algo romântico para os apaixonados do bar. Ele olhou para os lados, ajeitou a gola e o pingente do colar, duas moças fumando cigarro paraguaio estavam conversando numa mesa próxima. Ele então cantou “Love me Tender”, e meu cérebro ficou repleto de uma espuma branca, suave, agradavelmente inexata, e eu não me importei mais com meu cabelo, com meu romance retorcido, com a falta de umidade nem com meu desânimo. Ele era um artista e tanto.

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4 comentários

  1. Fantasticamente seco, como a umidade de brasilia....

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  2. Poxa, gostei muito do escrito aqui postado. Parabéns!

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