D Mingus fala do seu novo álbum, "Fricção", e as expectativas sobre o lançamento

por - 11:08

DMingus na MI

Domingos Sávio é velho conhecido dos leitores desse site e do Hominis Canidae, talvez não por esse nome e sim pela alcunha dada por ele ao seu lado artístico e musical. D Mingus é um dos músicos favoritos da casa, o último disco dele Canções do Quarto de Trás, lançado em 2012, entrou na nossa lista de melhores do ano. É uma dos artistas pernambucanos que mais se reinventam na cena independente local. Depois de um trabalho psicodélico e outro mais voltado para sua verve folk, ele está as vésperas de lançar seu terceiro disco solo, que segundo o músico utiliza muito kraut-synth e influências eletrônicas.


O lançamento de Fricção, novo rebento musical de Domingos, vai ser em um show na sétima edição do festival A Noite do Desbunde Elétrico, que acontece na próxima sexta, dia 17 de maio (REMARCADO para sábado, dia 1 de Junho), no bar Experimental, no Recife (está rolando promoção de convites (já acabou a promo) para o evento na fanpage do Hominis Canidae). Além do D Mingus, se apresentam no festival Zeca Viana, Juvenil Silva, Aninha Martins e Jean Nicholas.  Aproveitando o evento e o lançamento do novo disco do D Mingus, resolvemos bater um papo com o camarada sobre os novos caminhos a serem seguidos, como foi o processo de criação do novo trabalho e quais as expectativas dele para o show de lançamento do álbum, saca aí.


Pra começar, fiquei curioso com o nome do novo disco. Por que  Fricção?


Escolhi esse nome de uma forma meio inconsciente, imediatista. Quando fui nomear a pasta com os arquivos de algumas músicas que estava gravando para o disco, veio-me à mente, de primeira, "Fricção" (e acabou ficando). Ainda não tinha uma noção muito detalhada de como o disco seria, mas sabia que ele seria bem diferente do anterior. Depois comecei a refletir sobre o que a palavra representava pra mim, porque havia a escolhido, e percebi que o termo tem sentidos múltiplos. Talvez, entre eles, o que mais se aproxime do universo do disco é uma aparente contradição de coisas naif, introvertidas e lúdicas, de um universo meio infantil (como carrinhos de fricção) com algo mais malicioso e sensorial (como a fricção do ato sexual). Quando tinha cerca de nove anos comecei a gravar música do rádio em k7s e a querer de alguma forma mexer com isso. E o que pegou-me pelos ouvidos foi a música eletrônica dançante de bandas como o Kraftwerk e Depeche Mode. Então essa contradição do título adquiriu esse sentido arqueológico-pessoal, expressa também na sonoridade do disco e nas letras.


Você falou que esse disco é bem diferente do anterior, que é folk. Qual a relação dos seus dois primeiros discos com esse terceiro, se é que existe alguma relação entre eles.


Acho que esse disco dialoga com os anteriores. Apesar de ser diferente, mais eletrônico, ele mantém uma continuidade na linha de composição e na exploração das possibilidades de gravação/produção "one man's band" - tentando sempre dar um passo à frente. Algumas pessoas que escutaram as pre-mixes comentaram sobre certa fusão estética do primeiro com o segundo disco.


desenho 5_Fricção


Quem fez parte do processo de composição e gravação do Fricção? Como surgiu a ideia dessas artes loucas ai?


Inicialmente tinha pensado nesse disco ter muitas participações. Tinha feito uma listona com a galera que eu queria que participasse. Mas por insegurança, comodismo e outros fatores, acabei sem executar esse plano. Ainda assim, tem participação especial de dois caras onipresentes no estúdio da Pé-de-Cachimbo Recods (Graxa e Marditu Soundz) e de um figura chamado Daniel Liberalino (saque outros desenhos dele aqui), que também fez a arte do disco. Esse bicho foi muito importante na concepção geral do disco (juntamente com Marditu, que é minha principal "escuta crítica"). Curioso é que não o conheço pessoalmente. Temos poucas, mas significativas, conversas textuais e ele tem um nível de compreensão das coisas que sempre me surpreende. Mandei-lhe as faixas do disco pra escuta e o dei total liberdade de criação para a arte gráfica do disco e as faixas que ele achasse pertinentes. Posso dizer que o danado não me decepcionou.


E como tem funcionado esse ritmo de produção pra você. É praticamente um disco por ano, bem diferente dos tempos de Monodecks. Você tem se forçado a isso ou é tudo naturalmente?


Acho um ritmo natural esse de um disco por ano - na verdade daria até mais do que isso, mas pelo trabalho todo de gravar, editar, lançar, prefiro maneirar pois também gravo outras pessoas e tenho vida social, família, além de "empregos" mais oficialescos, digamos assim. Se eu vivesse só de música acho que lançaria uns três discos por ano. Quanto aos raros registros do Monodecks, isso se deve a um dos principais motivos pelos quais a banda morgou: a dificuldade para deliberações coletivas. Já gravar em casa, sozinho, pra mim é uma velha rotina conhecida e hoje a tecnologia me permite voos maiores.


desenho 8_Fricção


Você vez por outra reaproveita partes de suas músicas antigas. Nesse disco isso acontece ou é tudo inédito? Pergunto porque lembro uns sons eletrônicos antigos seus.


Exato. Os discos anteriores tiveram muito de reaproveitar composições (ou trechos delas) de outras épocas. Eles são quase coletâneas - só que com regravações rearranjadas, reelaboradas. O disco novo tá meio a meio - metade das músicas foi composta mais ou menos durante o período em que eu já havia começado a gravar o disco (no final de 2012). Tem umas coisas mais antigas também, mas já não é a maioria do álbum. A tendência é do meu "baú" ir minguando, dando lugar para canções mais recentes mesmo, que representam mais quem eu sou hoje. É o que me deixa mais satisfeito artisticamente.


E ao vivo, o que muda na banda desse novo disco para os anteriores? Podemos esperar um DJ no D Mingus?


Ao vivo, continuo com o suporte da Kazoo Orquestra, que é formada pelos bróders Tiago Barros (bateria), Hugo Coutinho (teclado / vocais), Ricardo Rama (guitarra / percussão), Aninha Martins (vocais) e Angelo Souza (baixo / vocais). Nunca tive muito compromisso em reproduzir 100% os arranjos das músicas dos discos ao vivo. E nesse disco então, precisaríamos de bateria eletrônica e outros equipamentos - que não possuímos - pra deixar a coisa mais "eletro" sem ficar aquela coisa muito preset, pré-gravado. Mas a gente adaptou ao formato da banda algumas músicas do disco novo para o próximo show (no festival A Noite do Desbunde Elétrico) e elas ficaram muito boas, enérgicas. Acabaram ganhando outras nuances que não estão nas gravações. Quanto a um DJ ou um engenheiro de som seria interessante pra remixar o nosso som ao vivo e fazer algumas interferências sonoras também. Quem sabe num futuro próximo.



Falando nesse show do Desbunde, você vai tocar as músicas do disco novo ou irá misturar o repertório? Diz uma faixa sua que você sente prazer tocando ao vivo, que você acha que realmente funciona.


Vai ter músicas dos três discos. As que mais têm funcionado pra instigar o público são "Colmeias" e "Oroboro". Quanto a ter prazer tocando o que toco, acho que não faria isso se não o sentisse - pela grana definitivamente não é. Mas músicas novas sempre costumam ser mais instigantes pra quem está tocando - dentre as que vão rolar no show eu destacaria "Eno" (uma singela homenagem a Brian Eno).



Interessante ver os caminhos que você vem seguindo, expondo diversas influências distintas em cada um dos trabalhos. Que influências você ainda não explorou em suas gravações?


Acho que o primeiro disco foi meio caleidoscópico nesse sentido, de abrir um leque de referências estéticas correndo até o risco de estar atirando pra muitos lados ao mesmo tempo. Já o segundo fez isso mais contidamente - e com uma palheta sonora bem mais delimitada. O terceiro tem um acento kraut-synth pop na sonoridade. Acho que algo que ainda não explorei mais explicitamente nas gravações - e que talvez seja uma das minhas influências pessoais mais fortes - é o rock n' roll mais simples e dionisíaco. Muito provavelmente farei algo assim num futuro próximo. Mas nunca com purismo revisionista.


suvacodosdeuses


Esse disco novo vai sair em LP, é isso mesmo? Qual outro formato o álbum terá?


O "LP" aí é referente à duração do disco: ou seja, é um "disco cheio". Devo fazer umas cópias em formato CD também. Costumo fazer poucas cópias físicas (no momento não tenho nenhuma). Portanto, se algum selo se interessar em lançar fisicamente algum desses discos (ou os três) oficialmente - e poupar-me desse trabalho -, podem contatar-me.


Pô, pensei que ia sair em LP mesmo, propaganda enganosa! (risos) Massa Domingos, acho que fechamos por aqui, quer dizer mais alguma coisa?


Oxe, a galera não usa "EP" pra falar de CD também? São termos que surgiram na época do vinil, mas que a ultrapassaram como categorias de duração mesmo. Bem, se esta entrevista for publicada antes do dia 17 de março (Lembrando que o desbunde vai ser nesse sábado, dia 1 de Junho) de 2013 gostaria de convidar a todos - os que tiverem condições de ir - para o festival A Noite do Desbunde Elétrico (7ª edição). Não é só porque eu vou tocar não. Posso afirmar que fui a todas as edições do Festival (a maioria delas como espectador) e nunca deixei de ter ótimas surpresas. E se você nunca foi ao Experimental (ex-Curupira) - lugar do evento - saiba que você não vai se decepcionar. O lugar é mágico, quase dentro da Mata de Dois Irmãos, ótimo pra ter exxxperienças fora de ambientes de concreto e metal. A galera vai amanhecer por lá curtindo um som e o pôr do sol. Então, relax, float down stream e se aprochegue. E estejam atentos para o lançamento - muito em breve - desse fabuloso disco que é Fricção. O Recife vai tremeeeeerrrr...


A Noite do Desbunde Eletrico


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