Geração Ritalina

por - 14:20

Ritalina

Eu adoro a cidade de Natal, não necessariamente pela cidade mesmo, mas muito pelas pessoas que conheço e moram por lá. Mesmo que boa parte dos papos sejam rápidos, vez por outra dá pra aproveitar os momentos, tantos nas conversas entre shows com os integrantes das bandas, ou nos botecos. Uma das pessoas com quem mais conversei quando fui por lá foi Dante Augusto, vocalista da banda Calistoga. Não sei se pelo fato de que temos afinidades ou simplesmente porque duas das vezes que estive na capital Potiguar, fiquei hospedado na casa dele, tendo então mais tempo para conversas aleatórias. Em uma de nossas conversas aleatórias e sobre o último disco da banda (antes mesmo dele sair), falamos sobre uma música especifica, na qual Dante fala sobre sua experiência com ritalina durante a adolescência. A música é muito boa por sinal, se chama Junkie Generation, ouça ai...



Este papo com o Dante me lembrou de uma coisa que aconteceu comigo nos tempos de colégio. Durante a infância eu fui o que se chamava de aluno modelo, até a quarta seria do primeiro grau eu passei por média em todas as matérias, boa parte delas ainda na terceira unidade do ano, cumprindo o resto do ano por tabela, mas não era das crianças mais sociáveis. Na quinta serie houve um remanejamento das turmas e eu acabei numa turma totalmente nova e desconhecida, boa parte dos meus amigos antigos migraram pra mesma turma a pedido dos pais, mas os meus decidiram que eu precisava interagir e conhecer novas pessoas. A quinta série foi um caos, tanto que pela primeira vez tive uma nota vermelha na vida. Conseguir me adaptar e faze amigos, mas as notas baixas continuavam aparecendo, até que na sétima serie eu fui para minha primeira recuperação na vida.


Meus pais preocupados e se sentindo culpado por terem me separado dos amigos de infância fizeram o que? Resolveram procurar um médico, um psicólogo. Lá ouvi pela primeira vez a sigla DDA e também tomei conhecimento do remédio ritalina. Meu pai, que tinha estudado medicina quase até o fim do curso, e gostava da parte neurológica da coisa, conhecia tal droga e tomou a sabia decisão de não deixar que eu começasse tal tratamento com a mesma. Resolveu admitir que seu filho não era um gênio da escola, apenas mais um aluno mediano normal, sem muitos interesses em todos os assuntos.


E porque eu estou contando isso tudo pra vocês?! Porque hoje eu li o melhor texto sobre ritalina da minha vida, totalmente condizente com tudo que sempre pensei sobre o uso do remédio e do nosso estilo de vida doente. O incrível texto foi feito por Juliana Szabluk, ou pelo menos postado por ela no facebook. Como acredito que existem pessoas nesse mundo que não estão no facebook, resolvi disponibilizar ele por aqui na íntegra. Lembrando que o texto NÃO É MEU,  não conheço a moça, mas que o mesmo me contempla por inteiro, leiam com atenção, é longo mas muito válido...


"Ligo a TV e, pra minha surpresa, vejo uma matéria sobre a venda livre de ritalina em Porto Alegre. Usei ritalina por muitos anos. Usei ritalina não porque sou dependente química, mas porque era dependente do modo de vida que exigia ritalina. Larguei a ritalina quando ela começou a ser o remédio mais difícil de encontrar. RITALINA SEMPRE EM FALTA. "Vendo mais ritalina do que aspirina", diz o farmacêutico. Pois é, pessoal. Uma triste realidade que parece loucura para meus novos amigos, mas uma realidade massiva nas novas gerações, que tanto pesquiso e amo.


Ritalina é o remédio pra déficit de atenção e hiperatividade. Ela trabalha no córtex cerebral, aumenta o fluxo de dopamina e noradrenalina, neurotransmissores que funcionam mal em pessoas com déficit de atenção. Mas é a geração que ama correr, que ama consumir sexo, consumir festa, consumir chocolate, que ama consumir tudo muito rápido, tudo ao mesmo tempo, tudo motivado pela dopamina. Ode à dopamina! Nos anos 90, éramos todos bipolares de acordo com a medicina e a mídia. Nos anos 2000, tínhamos déficit de atenção: toca ritalina na criança! Ela tem DDA.


DÉFICIT DE ATENÇÃO? Eu fui professora sete anos da minha vida e dava aulas pra essas crianças e adolescentes. Eram centenas de jovenzinhos correndo e gritando ao redor. Conversei com cada um deles e ninguém está desenvolvendo tais doenças. O que acontece é consequência natural do modo de vida atual. Nossos parâmetros não acompanham a mudança estrutural do próprio cérebro. Queremos ter o cérebro do artesão na era da separação máxima, a separação da experiência de vida do próprio indivíduo. TOCA RITALINA NA CRIANÇA. Ela emagrece, foca, fica quietinha e produz que é uma beleza.


NÃO EXISTE DÉFICIT DE NADA, EXISTE UM SISTEMA IMPOSSÍVEL DE VIDA. Acordar 6am e ser paga pra pensar, pensar o dia inteiro e concluir o dia pensando na faculdade até 23h. Pensar com prazo, pensar pra ontem. Pensa isso, lê isso, sabe aquilo, decora aquilo outro, o sistema do conhecimento exige potencializadores cerebrais, OBVIAMENTE. Não é à toa que descobrimos as falhas no córtex das novas gerações. Mal posso esperar a vinda de Susan Greenfield ao Brasil este ano. O que está acontecendo com o cérebro dos jovens?


É UM NOVO CÉREBRO, NÃO UM CÉREBRO DOENTE. Não existe mais emoção alguma nas coisas que fazemos, é isso que eu concluo. Símbolos se tornaram ícones, situações se tornaram fatos. Consequentemente, a memória de curta duração se expande e a memória de longa duração se perde. Trabalha, memória de curta duração!!! Decora fatos, ícones, nomes, imagens. É isso que te forma. É isso que forma teus dias. E é o que mais ouvimos: O BOM DA TECNOLOGIA É QUE PODEMOS FAZER TUDO AO MESMO TEMPO. É a frase favorita da geração Milênio, a geração da perda de significado, como tem sido chamada por grupos de psicólogos. Sem significado, sem memória de longa duração. Trabalhando na curta, precisamos da ritalina pra focarmos, pra não esquecermos o que fizemos há 5min.


Eu tive provas exigindo o placar do jogo do Grêmio de ontem. No mesmo dia, me exigiam redações emotivas sobre qualquer coisa que também não fazia parte de mim. Não existe coerência alguma e o conhecimento é sempre descontextualizado. A culpa não é da academia. A culpa é de todos nós, que aceitamos o modo de vida do conhecimento separado. Ah, Fedro. Teu diálogo nos avisava que o primeiro livro faria isso conosco. Mas, mesmo que o livro seja a primeira tecnologia da inteligência a separar o conhecimento, a culpa não é do livro. A culpa é nossa por viver os fatos cotidianos como histórias em livros. Tragédia x catarse em seu ápice. Taí a consequência que pedimos há séculos. Finalmente, estamos separados de tudo. Finalmente, não temos ligação com os próprios fatos que vivemos. Finalmente, preciso de uma droga pra me ligar à minha própria vida.


A culpa é nossa por aceitarmos cada experiência de vida como instagram. Por viver cada momento como um show no palco, como uma festa no álbum do face, como um relacionamento que se apaga no status. Preciso lembrar/preciso esquecer. São as chaves da era da rede. Adiciona/exclui. Brincamos com o cérebro como cobaias num experimento. GERAÇÃO RITALINA, a geração sem foco, a geração sem significado, a geração sem memória de longa duração, a geração ícone, geração fato, geração manchete, geração avatar facilmente deletável. Não adianta se opor à Ritalina. Quanto mais lutamos contra a indústria farmacêutica, mais ela cresce, porque ela é consequência de um modo de vida que pedimos diariamente. Tua contradição alimenta a indústria.


Ode ao texto que escrevi no perfil antigo e que apavorou todo mundo: eu não uso drogas, minha vida é uma droga. Nada é mais verdadeiro do que isso. Nossa vida é a droga, a ritalina é uma consequência da nossa aceitação e potencialização do sistema. Se não querem ritalina, mudem todo sistema, que já está falido mesmo. Quanto mais falido o sistema das imagens, mais as novas gerações potencializam as imagens.


OS PAIS PERMITEM E SE APAVORAM COM O USO DE DROGAS. Pai, menos. Tu aceitou isso, agora abraça o kit que tu deu pro teu filho. Teu filho é parte do sistema com o teu aval. Teu filho é a geração da ode à dopamina. E eu...? Eu cortei até o chá de São João. Nenhuma ina no meu corpo será permitida. Dia após dia, corto mais e mais. Meu objetivo é a saída total disso daqui. Fim de ritalina, nicotina, cafeína, taurina, efedrina, dopamina. Fim de imagem, separação, contradição. Quanto menos ina no meu corpo, melhor. É o que eu posso fazer pelo mundo, por mim, por ti e por meus filhos. Não adianta lutar contra a indústria quando tudo está interligado. Não existe separação. Tua luta separada contra a indústria alimenta a indústria da separação."


calvin-e-haroldo-deficit-atencao

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5 comentários

  1. Tantos remédios pra dormir
    tantos remédios pra acoradar
    sente o coração bater
    vai funcionar.

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  2. Esse texto é meio preconceituoso e a autora ou é meio desinformada ou ignora boa parte da realidade para construir seus argumentos.

    Esse é um olhar muito ideológico a respeito do tratamento farmacológico. Ele ressalta um lado em detrimento dos outros. Eu tenho TDAH desde sempre e meus problemas com isso passam pela minha vida acadêmica e por minha vida pessoal e não só a ritalina, como todo um acompanhamento médico e psicológico me ajudaram com tudo isso.

    O TDAH (ou DDA) fez de mim uma pessoa completamente impulsiva e desesperada. Meu relacionamento com as pessoas que amo foi prejudicado por isso. Um aspecto que não é ressaltado no seu texto é que esse distúrbio também prejudica nossa capacidade de inibição, e sem ela não existe quase diferença nenhum em pensar e falar, consegue imaginar como é isso?

    É verdade que nosso estilo de vida é muito acelerado e o mundo por isso tem cada vez menos espaço para pessoas complicadas. Mas a maneira como foi ressaltado o papel da ritalina nesse cenário foi meio bobo. Existem pessoas que apresentam traços comportamentais muito específicos da doença, apresentando inclusive achados de neuroimagem (atrofia cortical frontal principalmente) e que utilizam conscientemente do tratamento para poderem ter uma vida saudável.

    Se hoje consigo ter uma relação harmoniosa e ter condição de pensar antes de agir foi por todo meu acompanhamento psicológico e inclusive farmacológico, e eu conheço muitas pessoas na mesma situação e que foram igualmente beneficiados. Assim como conheço pessoas que tomam o medicamento sem um motivo real e pessoas que não tomam quando visivelmente se beneficiariam do tratamento e não o fazem por preconceito.

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  3. Gostei do texto. Somos tão fortemente exigidos o tempo todo que ficamos assim, sem foco, sem atenção..sou uma dessas.

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  4. Rets, tu já leu essa matéria da Trip? http://revistatrip.uol.com.br/revista/203/reporta...
    Fuderosa, por sinal :)

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  5. Concordo.
    TDAH existe e parece que só quem tem sabe disso.
    Essa impulsividade é algo marcante. E você foi mui feliz ao descrever as alterações de neuroimagem que já são verificadas em algumas pessoas portadoras de tal transtorno. No meu caso o polo dominante é a hiperatividade e essa dificuldade de percepção entre pensar e falar atrapalha o convívio social e até acadêmico.
    O que não vale é dizer que todo mundo tem TDAG e usar do tratamento farmacológico de imediato. Passei a infância e adolescência inteira apenas com tratamentos não medicamentosos (psicologo e psicopedagodo), só vim abrir mão de uso de drogas no início da carreira acadêmica pois tal polaridade do TDAH estava prejudicando meu rendimento acadêmico.
    Vejamos até quando pessoas sem TDAH terão que alimentar compulsivamente a indústria farmacêutica, já basta os portadores de de diversos transtornos mentais que geram um bom lucro para essas indústrias.

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