Ignorância é bênção

por - 11:06

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Jorge chegou envergonhado à entrada do pequeno prédio de três andares que tão bem conhecia. Passando pela roleta no saguão principal, cumprimentou o porteiro com um aceno de cabeça e seguiu até a entrada do elevador sem maiores interrupções: o porteiro era uma das poucas pessoas que sabia que Jorge vinha ali uma vez por mês, há mais de dois anos. E desde que fora contratado, sabia muito bem como lidar com aquela situação: retribuía o aceno distante, sem demonstrar muita intimidade. Aquele pessoal estava mais do que certo em querer esconder o que faziam ali. Não que os discriminasse; já era um ato de enorme coragem simplesmente estar ali todo mês. Mas é que o problema era tão deprimente, e tão assustador... Continuou observando Jorge enquanto as portas do elevador se fechavam: apertou o crucifixo que pendia do seu pescoço e rezou alguns segundos por aquela pobre criatura antes de voltar a assistir o jogo na TV.


Dentro da apertada caixa de metal, Jorge apertou o botão do terceiro andar e percebeu que suas mãos suavam. O clima não estava abafado e nem mesmo medo de elevador ele tinha. Por mais que tentasse disfarçar de si mesmo, ele sabia muito bem o motivo daquele nervosismo e tinha até anotado em sua pequena agenda de bolso os dias e horários das ultimas reprises daquela sensação. Buscou o cigarro no bolso da sua calça e logo percebeu que obviamente, não poderia fumar dentro do prédio. Afinal, era sempre essa droga de problema: disfarçar. Não conseguia entender como era tão difícil esconder a sua situação – por mais que os monitores insistissem que o processo de cura se baseava na aceitação da necessidade de cessar aquela loucura, Jorge já havia desistido dessa possibilidade. As portas metálicas se abriram num solavanco e o homem que suava seguiu pelo corredor escuro do terceiro andar. No final dele, encontrou a porta costumeira e tocou a campainha. Sempre se eriçava com o barulho agudo que ela fazia. Ele parecia errado, horrivelmente errado, como se precisasse de ajuda, algum tipo de conserto, alguém que o fizesse funcionar como devia.


E lá estava ele ali, mais uma vez, pensando naquelas coisas. Olhou ao redor para se esconder de tudo aquilo – ainda não haviam atendido a porta, e ele não sabia quão apto estava a lidar com aquela avalanche de vontades se estivesse ali, sozinho – uma daquelas escadas móveis descansava num canto e revelava uma pequena passagem para o teto do prédio. Jorge nunca havia visto a escada ali, e se perguntava como tinham coragem de deixa-la logo ali, exposta: alguém poderia fazer alguma coisa.


O ruído da chave girando a fechadura cresceu, até que a porta se abriu e o rosto condescendente da Luciana, a recepcionista do grupo, apareceu, aquele sorriso imenso, branco e quase irritante.


-Bom dia, seu Jorge! Como vai a vida, segurando com força?


Jorge odiava a forma como ela se dirigia a todos que frequentavam aquele lugar como se conversasse com uma criança idiota ou um pobre-coitado. Até porque a própria Luciana já havia frequentado o grupo, não muito tempo atrás. O problema começou nos últimos anos da escola. A família rica já dava saltos de felicidade com a vaga garantida da menina na escola de medicina. Luciana gostava da ideia, mas se sentia vazia: essas coisas de adolescente. O caso dela foi típico: num ambiente daqueles, esse tipo de impulso a rondava desde a infância, de longe. Aprendera naturalmente a se afastar daquilo, sabia que nada de bom poderia lhe trazer, mas o tédio da sua vida pedia por um espaço a ser preenchido, por algo que lhe desse um sentido maior, a euforia: antes que pudesse perceber, estava completamente afundada. Foram os pais que a levaram até o grupo, e em milagrosos dois meses, Luciana estava limpa e sorria aquele sorriso enorme enquanto guiava Jorge até a nossa sala de reuniões. Ele odiava aquele sorriso.


-Só faltava o senhor, seu Jorge! – disse ela animada.


De fato, o circulo de cadeiras já estava alinhado, e todas as cadeiras reservadas, ocupadas. Carlos, o mentor da palestra daquele dia levantou e guiou Jorge até sua cadeira com um meio abraço, e em seguida todos os cumprimentaram com uma só voz. As paredes exibiam cartazes com frases de incentivo como “Apenas deixe o tempo passar” e “Tenha força e não desista nunca!”, imprimidas pelo próprio pessoal. Depois de alguns minutos de bate-papo, Carlos pediu a atenção dos presentes.


-E então amigos, como estamos indo?


Seguindo sempre a ordem da roda, a sessão começou por José. José era pedreiro e pai de família, pobre e sempre muito ocupado. Sua presença ali era, até por causa disso, uma das mais inesperadas.


-Sabe seu Carlos, eu tenho estado orgulhoso de mim mesmo. O senhor vê, faz muito tempo que eu não me sinto mais perturbado. A Sônia, minha mulher, reclamava muito desse meu comportamento. Ela dizia que tava tirando meu foco, que eu não tava fazendo o meu papel direito e que essa porcaria ia acabar me destruindo – todos olhavam o pedreiro, comovidos e em silencio. – Mas sabe, de um tempinho pra cá, ela nem tem reclamado mais. Eu sinto que minha cabeça tá bem mais livre, meu corpo não dói mais, e a minha enxaqueca, ih, eu nem sinto! Uma vez ou outra, eu ligo a tevê e o noticiário tá passando...e algumas coisas ainda me dão aquela vontade desenfreada... mas aí dói tanto, e eu me lembro do tanto que essa porcaria me fez sofrer. E aí eu deixo a minha cabeça vazia de novo e sigo em paz! – concluiu José, orgulhoso. Depois de uma rodada de palmas, o grupo se silenciou mais uma vez e foi a vez de Waldo. Esse último, ao contrário de José, era a vitima típica. Nascido numa família muito paz e amor, Waldo cursou filosofia e trabalhava como professor. Levava aquilo por toda a sua vida, e ela era uma das coisas que mais apreciava na vida. Mas ultimamente, começava a sentir os efeitos colaterais, e a fome desesperada que nunca cessava. Pensou pela primeira vez se aquele era o caminho certo a se seguir e se, talvez, aquilo que aprendera naturalmente na sua vida não era algo que o machucasse e fizesse mal.


- Larguei o emprego semana passada – resumiu Waldo, triunfante. – o ambiente era mais forte do que eu, a influencia sempre me levava à mesma ação...e se sei que ainda não sou forte o bastante para resistir, tenho que encontrar os meus meios de avançar.


Parade

Mais uma dose de aplausos, e a roda seguiu. Os casos variavam: André, novo, não conseguia entender porque ainda existia fome no mundo; Paulo quase se matava com as doses pesadas de ânimo que despendia enquanto tentava entender o que fazia as pessoas se corromperem; Laura, apesar de católica fervorosa, não conseguia passar uma noite sem, às escuras, se embriagar na dúvida a respeito do que existe ou não depois de morrermos; Mathias, um militar durão, havia a pouco tempo chegado ao extremo de se perguntar se a aristocracia da violência no mundo era mesmo legítima; Ana terminava grogue e sozinha todas as vezes que tentava entender porque o amor tendia, quase sempre, a acabar; Waldo não aguentava mais a ideia de tentar entender o mundo, e quase desistia quando se via questionando o materialismo do mundo de hoje; e até mesmo José, que tinha todos os artifícios para evitar tais questionamentos, secretamente não resistia à insegurança que o prefeito eleito, também por ele, gerava nas suas veias. Mario por fim, admitiu embaraçado que havia lido uma notícia sobre a avenida do seu bairro que havia sido refeita cinco vezes com dinheiro público e que se perguntara na última semana inteira sobre como o sistema jurídico foi criado de forma que tais brechas enormes pudessem surgir e engolir a esperança do povo. A sala se silenciou uma última vez enquanto todos esperavam que Jorge falasse. Suas mãos suavam ainda mais e os lábios se moviam em vão. A vontade primal no seu peito implorava para que ele pedisse ajuda, que admitisse que estava perdido, que não podia mais aguentar.


- Minha semana foi ótima. As coisas estão bem. Não tenho pensado em nada e meu dia a dia tem seguido, tranquilo e produtivo. – as palavras saíram vagas e indecisas, e ele esperou cabisbaixo pelo veredito. Uma chuva de aplausos deu seguimento ao fim da reunião. Todos os presentes se levantavam e se cumprimentavam, dando tapinhas nas costas uns dos outros, felizes pelas conquistas: todos sorriam.


Jorge manteve-se ocupado procurando algo em seu paletó até que a sala estivesse vazia. Apenas então se levantou, e correu até a porta. Por sua sorte, Luciana estava muito distraída rindo ao telefone para ver seu corpo anormalmente trêmulo passar pelo arco da porta e subir a frágil escada móvel. Um sentimento roía as entranhas de Jorge como se fosse algo vivo, físico. Ele sabia que não deveria pensar tanto. Sabia por experiência própria que por mais promissor e transcendente que aquilo parecesse, ele sempre terminaria daquela mesma forma, trêmulo e vazio. Acendeu enfim o desejado cigarro e deu algumas baforadas sentado próximo à borda do edifício. Apesar de tudo aquilo, algo o fazia pensar, e era exatamente isso que acontecia naquele instante. E como se sentia bem, como as perguntas sem respostas eram as suas favoritas e aquelas que mais lhe causavam dor. Pensando cada vez mais, rendeu-se à terrível verdade: invejava o sorriso enorme de Luciana e dos outros, simplesmente porque sabia que jamais poderia consegui-lo. Resolveu então, apenas aceitar aquele fato. Suas mãos se tornavam cada vez menos trêmulas enquanto Jorge aceitava a sua maldição. De pé, como um equilibrista trôpego, deu uma última vista desinteressada naquela cidade silenciosa que sorria, por tudo aquilo que não sabiam e haviam aprendido a controlar, a tudo aquilo que ignoravam e aprendiam a esquecer. Sabia que ninguém acreditaria se voasse, então simplesmente saltou e suas asas fizeram voo.


Em cerca de duas reuniões, Jorge não existia mais para aquelas pessoas. Curiosamente, o número de pessoas que jurava ter visto um pássaro sobrevoar o pôr-do-sol entre os prédios e que sofreram recaídas irrecuperáveis de pensamento (e acabaram também, simplesmente deixando de existir) cresceu absurdamente nas próximas semanas, mas esse fato alarmante também deixou logo de existir para eles. Em lugar de tudo aquilo surgiram sorrisos, aqueles demoníacos e lindos sorrisos abertos e completamente vazios.

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