Mente vazia num ônibus lotado: a menina randômica

por - 11:07

Shuffle_FrizzoEstava saindo da Universidade Federal outro dia, quando vi que o ônibus estava chegando na parada, corri para tentar alcançá-lo e mesmo suando um bocado, consegui adentrar no busão. Agradeço ao motorista por esperar, olho para frente e percebo que o ônibus estava lotado. Passo a catraca e fico encostado nela, quando uma jovem de cabelos encaracolados, que acho eu não tem nem vinte anos ainda (arriscaria uns 18, provável caloura) pergunta se eu quero que ela segure minha mochila. Tudo certo, pelo menos não ficaria em pé carregando o peso extra, fiquei então parado em frente dela, enquanto ela acomodava minha mochila sobre a dela.


Tenho um grave problema de me deter a detalhes quando estou entediado e frequentemente é assim que me sinto dentro dos ônibus e parado num trânsito de merda como é o de Recife, que só fica pior com as mil obras para a tal Copa do Mundo, que nem vai ocorrer na cidade de Recife, e sim na região metropolitana, mas por que não fazer obras milionárias, não é mesmo? Aproveita pra desviar mais grana, além do que já foi desviado para construção do elefante branco de São Lourenço. Mas voltando ao ônibus, comecei a prestar atenção nos trejeitos da guria com os fones de ouvido e celular em mãos. Confesso que a princípio não entendi porque ela segurava o celular, já que não precisa estar com o celular na mão para ouvir músicas.


Percebo que ela está escutando Paralamas do Sucesso, eis que de repente ela pula para outra música e aparece Raimundos no player. Por mais que as músicas do Raimundos sejam rápidas, não deu nem dois minutos e estava escrito Nando Reis no celular da moça. Durante os 45 minutos de viagem que fiz parado em frente dela dentro do ônibus, passaram pelo visor do celular dela nomes como Paramore, Arnaldo Antunes, Barão Vermelho, Jota Quest, Pink, Avril Lavigne, entre outros que não conhecia. Vários foram repetidos, todos espaçados por pequenos intervalos de minutos, quando a menina apertava para a próxima música, num random interminável e completamente surreal. O mais impressionante é que parecia que ela fazia isso sem pensar, era uma coisa completamente normal e natural, como bocejar ao ver outra pessoa fazer isso, ou xingar toda vez que tropeça nas calçadas e ruas esburacadas.


Isso me fez pensar nessa sociedade moderna, que esta tão habituada a velocidade da internet e na utilização da música como plano de fundo pra vida, que nem se interessa por ouvir uma música inteira. A única coisa que importa e ter um barulho de fundo, qualquer ruído que seja, no caso dessa menina, dentro do universo pop televisivo. Fez com que me sentisse ainda mais velho e deslocado, por parar em casa e ouvir um CD ou Vinil inteiro num aparelho de som, mesmo que eu não consiga ficar no random nem no meu celular dentro do vinil. Acabo sempre escutando discos inteiros durante minhas viagens, mudo de artista apenas quando as pastas são coletâneas, que acabam por diversificar mais dentro de um universo característico.


Faço então um apelo pra você que está lendo esse texto, caso viva num random musical infinito, aconselho tentar ouvir um disco de um artista que você gosta do começo ao fim na próxima viagem, na ordem da pastinha, sem alterar em nada a ideia do artista. Porque apenas assim, no final do ano, você vai puder dizer que disco A ou B é incrível e um dos melhores do ano, porque uma obra precisa ser avaliada por inteiro e não apenas aqueles dois ou três minutos do hit, que faz com que você se sinta satisfeito e corra atrás da próxima bandinha do seu player, sem entender porra nenhum do conceito ou ideia que aquele artista está tentando passar pra você. Pense nisso.


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PS: ilustração feita por  George Frizzo.

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2 comentários

  1. ótimo e pertinente texto, já me peguei várias vezes pensando nisso, isto é, como se ouve música hoje, mas sempre surge uma grande questão, será que a música produzida hoje (não vou nem entrar no mérito do tipo de música / artista) é para ser ouvida de ponta a ponta, isto é, o disco todo ?
    Será que essa fragmentação já não chegou a quem produz música também ?

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  2. Mas pra isso existem os singles cara, os EPs. Quando o artista lança um disco, ele quer que você ouça o disco.

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