"Sem necessidade de cura"

por - 14:04

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Já jogou Resident Evil? Se você não curte videogame ou esteve debaixo de uma pedra nos últimos quinze anos, basicamente é um jogo em que você mata zumbis biologicamente criados a partir de um vírus que foi testado em Racoon City, que é uma cidade ficcional para o jogo. Tudo bem que só joguei o primeiro e o segundo jogo da franquia, pulei o terceiro e achei o quarto uma bosta (achei mesmo, não gostou vem me pegar no tapa!), mas muito me incomoda um fato presente no enredo. Não existe uma cura para o vírus que transforma o infectado em zumbi. Veja bem, eu disse cura e não antídoto. Uma vez que um zumbi é zumbi, o único jeito de ficar de boa é azeitonando ele, porém, se um recém-infectado usa o antídoto, ele consegue se imunizar. Curioso, não?


O nosso grande parceiro dos direitos humanos quer que curem os homossexuais do “vírus da viadagem e da sapatagem”, como se estivéssemos num filme tosco e cheio de explosões do Michael Bay. Não discutirei tamanha boçalidade proposta por alguém que infelizmente não manja um mínimo de direitos para humanos, até porque isso seria como discutir como se proliferam as DSTs no Carnafacul, mas é de se imaginar que sempre que sugerimos algo com convicção, temos um embasamento naquilo que é apresentado como solução. Novamente, não acredito que Feliciano tenha pensado em Resident Evil quando propôs a cura gay, até porque sabemos que a cura zumbi não foi descoberta, mas acredito que talvez o pastor da alegria se beneficiasse com o jogo em questão, talvez pra dar uns tiros em algo que não existe mas que pode facilmente ser extirpado. Sem contar que o jogo é legal. Ou talvez meter um Gears of Wars na sua xisboca se seu negócio for ver uns machões segurando umas metrancas.


Não sou bacharel ou psicólogo formado ainda mas, pelo pouco que sei, a homossexualidade não tem uma cura, por não ser considerada uma doença. Sim, em tempos passados ela até foi considerada uma patologia, mas a partir do momento que você compara um homem e uma mulher com uma tomada e uma fonte, acho que a patologia está em outro lugar. Me esforçando muito, até consigo entender o quanto a mudança do mundo de hoje pode ser assustadora, se for este o caso do cidadão. Esses dias eu fui dar um mijote no banheiro e vi um transsex saindo de uma cabine do banheiro masculino. Do pouco que entendi da cena, ele não devia ser operado, mas até aí, levei de boa. As pessoas fazem escolhas das quais podem até se arrepender ou se orgulhar futuramente e não podemos priva-las de cometer erros ou mesmo de acertar suas vidas em níveis subatômicos. Usando o banheiro que for, aquele transsex fez o que tinha que fazer e foi embora. Sem hostilidade, sem chupar pintos, sem nada absurdo. Só um mijote e uma arrumada nas peitolinhas.


Aqueles que realmente acreditam que há uma cura gay deviam pensar um pouco mais numa palavrinha chamada "adaptação”. Não vejo a molecada de hoje como mais ou menos afeminada por ter mais contato com determinados assuntos do que eu tive quando fui moleque. Na verdade, acho até que essa preocupação exacerbada com a juventude reflete muito mais uma desvalorização do conservadorismo e uma abertura (trocadilho não intencional) ao que se é novo ou até mesmo já existente hoje. Em contrapartida, não acredito que se deva existir orgulho em ser gay, afinal, esta é uma condição relativamente natural do ser humano. O dia em que deixarmos de combater preconceito com o orgulho, provavelmente venceremos uma grande batalha. A parada gay pode ser o símbolo da luta contra o preconceito de muitos, mas é também um grande fator motivador deste, visto que a parcela da sociedade que se importa com isto é a parcela que se choca com aquilo que é diferente do que se conhece. Terapia de choque só funciona para se acender uma lâmpada e não para apagar uma. E no fim das contas, a cura que se faz mais necessária , a da desinformação, só pode ser combatida com a compreensão. Ou com umas herbs, mas aí o papo ficaria mais polêmico ainda.


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