O cinzeiro

por - 11:06

Cinzeiro


Era um desses dias em que os pensamentos chegam devagar, e você inconscientemente age tal qual seus pensamentos. E ela me aporrinhava...


— Mais café?


— Não. Cigarro, por favor, um cigarro para celebrar meu estômago embrulhado para presente em um papel de seda dourado e enfeitado com uma fita azul.


— Que seja então. Tome o isqueiro.


E contente acendi meu cigarro. Aquele bolo fosse do que fosse não me fez passar a mais agradável das manhãs, uma náusea espetacular tomava conta de mim, e não satisfeita em ter o meu estômago tomava de assalto também toda a atenção que eu dedicava à minha sublime preguiça.


— Você sabe que não foi culpa minha. Disse ela com aquela voz de dar arrepios até no mais religioso dos homens.


— Eu sei que não foi, o bolo tava gostoso, eu juro.


— Mas você tá passando mal.


— Não importa, é sério, não precisa ficar desse jeito. Tome acenda um também.


E lá se foi o isqueiro deslizando entre as xícaras, as migalhas de bolo e pão e o pote de manteiga em cima da toalha amarela até chegar às mãos da minha aborrecedora favorita. Meu Deus como ela me chateava, e eu a amava por isso. Eu a amava de um jeito tão absurdo que por não saber como lidar com isso eu era por vezes a fio a displicência materializada em setenta e três quilos de carne e osso.


— Sabe uma coisa que eu adoro imaginar? Falou levando a xícara em forma de peixe até a boca para dar o último gole no café com gosto de água suja.


— O que? Eu vestido com aquelas roupas dos Beatles na época do Sgt. Pepper’s?


— Não, eu gosto de imaginar você com o cabelo tingido fazendo carinho num gato.


Eu juro por tudo, queria lhe perguntar de outra forma, mas eu fui frio de uma maneira tão grotesca que isso anulou minha náusea e eu voltei de novo à minha preguiça, uma preguiça desbotada dessa vez. Então, eu mergulhei sem pressa.


— Por que um gato?


Bateu as cinzas de seu cigarro em meu pijama e saltou da cadeira em direção ao quarto, eu fiquei, terminei meu cigarro e por um descuido um tanto quanto infantil me deixei espalhar pela casa. Coincidência ou não a coisa pensante que existe entre meus ombros desaguou justamente onde ela estava. Aquele lugar que me causava uma fúria imbecil e sem motivo.


Reuni minhas partes sobre a cadeira da mesa da cozinha e fui até o quarto. Lá estava ela, bem do jeito que a coisa pensante havia imaginado. Estava sentada na cama acompanhada elegantemente de seu cabelo avermelhado. Não me sentei ao seu lado, o silêncio consumia o tempo como se estivesse pendurado em algum lugar entre o chão e o teto. Fui até a janela, um avião enorme cruzava e estremecia o céu de um azul inquieto com seu barulho ensurdecedor em seu voo raso. Dei-lhe um beijo na testa, sentei-me na poltrona no canto do quarto e me deixei espalhar pela casa de novo.


A partir desse dia ela nunca mais quis me convidar para suas doces divagações. Que pena, somos ímpares de novo, eu e minha preguiça agora apaziguadora, se assim ela não fosse eu estaria morto. É uma pena, ela não mais vai me aborrecer. Meu Deus, como eu a amo.

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